Jim Jarmusch faz autópsia de si mesmo no insosso ‘The dead don’t die’

Jim Jarmusch faz autópsia de si mesmo no insosso ‘The dead don’t die’

Rodrigo Fonseca

17 de maio de 2019 | 02h44

Abertura morta-viva para Cannes com filme zumbi de Jim Jarmusch, já em circuito na França
Aberto aos cinéfilos franceses, novo longa do diretor de ‘Daubailó’, editado pelo paulista Affonso Gonçalves, é bom de farpas políticas, mas é fraco na concepção de personagens
Rodrigo Fonseca 

Ao escalar o elenco monumental de “The dead don’t die”terrir exibido na abertura do 72º Festival de Cannes nesta terça-feira, hoje já em circuito nas telas da França, o sexagenário cineasta americano Jim Jarmusch, cultuado por “Estranhos no Paraíso” (1984) e “Daunbailó” (1986), trouxe seu habitual parceiro Bill Murray, figura cativa de muitos de seus filmes, por admirar sua atitude na indústria. “Ele não tem agente, ele não faz badalação. Bill tem só um número de telefone. Você liga, sugere a ideia para um papel e ele embarca”, disse o diretor de 66 anos à imprensa europeia, explicando como escalou o premiado ás da comédia dos anos 1980, indicado ao Oscar por “Encontros e desencontros” (2003), para viver o policial Cliff Robertson numa narrativa baseada em ataques de zumbis.
“Não era a política quer deveria me servir de leme aqui, mas sim as inquietações mais afetivas, existenciais acerca da relação das pessoas com seus territórios”, disse o diretor na coletiva de imprensa cannoise de seu filme.

Nele, Robertson/Murray é o cabeça da polícia de Centerville, ao lado dos agentes Minerva (Chloë Sevigny) e Ronnie (Adam Driver, inspiradíssimo no papel): os três entram em parafuso quando os mortos começam a levantar das tumbas depois de um acidente geofísico. Na trama escrita por Jarmusch e editada pelo montador paulista Affonso Gonçalves (de “Carol”), o movimentação de rotação da Terra é afetado por um desequilíbrio cósmico, alterando o fluxo de noite e dia e modificando os ciclos da Natureza. Essa é a explicação que o diretor (um queridinho em Cannes, laureado com o Grande Prêmio do Júri de 2005, por “Flores Partidas”,também com Murray) encontra para justificar a aparição de zumbis. Mas, fora isso, as demais escolhas que ele faz para dar respaldo ao sobrenatural e figuras de outros mundos carecem de verossimilhança, desafiam toda a suspensão da descrenças, beiram o ridículo. Por quê? Porque falta tridimensionalidade aos personagens ligados a essas situações. Nem o carisma de Murray sustenta o vazio.

Cool por natureza, o cinema de Jarmusch é, por excelência, o cinema da contemplação do vazio, da rotina e do mundano: seu diferencial poético é extrair lirismo de uma conversa sobre sorvete. Mas seu tom lírico, com toques existenciais, parece não se adequar a um universo, o do cinema de terror de zumbis, que ele visivelmente respeita e ama. Ele chega a fazer uma ode ao mestre do filão: George A. Romero (1940-2017), realizador de “A noite dos mortos-vivos” (1968). Mas sua “sofisticada forma de ser simples”, como a revista “Cahiers du cinema” define o diretor, não casa com a estética ligeira, bruta e de descartabilidade do filão morto-vivo.  Só Tilda Swinton consegue brilhar em “The dead don’t die”, encampando, com estranheza, o papel de uma espadachim que embeleza cadáveres rumo ao enterro

Na projeção para a crítica, as afiadas tiradas dos personagens contra o racismo e contra a pasmaceira da América de Trump arrancaram merecidas risadas. Mas estas não salvam o longa do enfado, mesmo com boas atuações aqui e acolá, sendo Tilda a melhor em cena, de longe. Para um concorrente à Palma de Ouro (há 21 competidores este ano), o novo Jamursch parece aquém da dimensão humanística de combate à intolerância que o presidente do júri do prêmio deste ano, o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu (ganhador de dois Oscars, por “Birdman” e “O regresso”) destacou na coletiva dos jurados.

Antes da apresentação de “The dead don’t die”, Cannes prestou uma homenagem póstuma à diretora Agnès Varda (1929-2018), morta em decorrência de um câncer no fim de março. Seu último filme, o documentário “Varda por Agnès”, já está em cartaz no país, sintetizando a contribuição afetiva, estética e política da diretora belga – um dos pilares da Nouvelle Vague – para a representação do feminino nas telas. “Meus filmes são femininos e aportam à realidade a percepção de que as mudanças são graduais e que dependem da integração de todos”, disse a cineasta em Berlim, onde foi coroada com um prêmio honorário em fevereiro.

Na quinta, Cannes testemunhou a consagração do ator e cineasta Dexter Fletcher como autor durante a comovente homenagem a sir Elton John com “Rocketman”. O mesmo dispositivo de façanhas de “Bohemian Rhapsody”, que Fletcher ajudou a delinear em nome da Fox, aplica-se aqui na biopic do cantor, pianista e colecionador de óculos dos mais variados: a diferença é que o realismo quase documental usado no longa sobre o Queen aqui dá lugar a um lirismo que flerta com o delírio. Taron Edgerton encarna Elton com maturidade e retidão. Mas a estrela maior é a fotografia de George Richmond, que satura a luz no tom certo para traduzir o lado sombrio dos excessos de Elton. Presente na projeção, ele chorava baldes.

Dirigido pelo ator e documentarista francês Ladj Ly, cuja família vem do Mali, “Les Misérables”, uma releitura dos motes sociais do romance homônimo de Victor Hugo, transportado para os subúrbios da Paris dos dias de hoje, é o melhor (e mais festejado) filme da briga pela Palma de Ouro em 2019, disparadamente. Na trama, um trio de policiais liderados pelo abusivo Chris (Alexis Maneti) gera uma onda de brutalidade entre jovens de um bairro majoritariamente negro, povoado por muçulmanos e ciganos, ao agredir um garoto que, numa brincadeira, roubou um filhote de leão de um circo. Um drone é testemunha dos atos agressivos de Chris e traduz a visão de Ladj em buscar uma visão fluída, com múltiplos pontos de vista, dos desajustes urbanos da França pobre. Depois dele, vem o brasileiro “Bacurau”, cujo roteiro esbanja criatividade, potencializada pela maldade de Udo Kier no papel do líder de uma falange de assassinos.

Nesta sexta-feira, Cannes confere o filme que, por honra ao mérito de seu realizador, Pedro Almodóvar, chegou da Espanha à França com status de queridinho da mítica revista “Cahiers du Cinema”: “Dolor y Gloria”. Lançado em março em seu país de berço, o novo melodrama do diretor de “Tudo sobre minha mãe” (1999) pode dar a ele a Palma dourada que alimenta seus sonhos há quatro décadas. Antonio Banderas é um cineasta com problemas de saúde e com vício que revê seu passado, numa retrospectiva de sua obra, revisitando as lições que recebeu de sua mãe, papel de Penélope Cruz. “É uma trama tão autobiográfica como as outras. Por isso não autorizo que façam minha biografia: ela está nos meus filmes”, disse o diretor ao lançar o longa em solo espanhol. Há quem aposta em prêmio de melhor ator para Banderas.

Seu maior rival é, até agora, Kris Hitchen, o astro de “Sorry we missed you”, um Ken Loach de raiz, mas sem potência (que não a interpretação de seu protagonista). uma família de baixa classe média de Newcastle, assombrada pela falta de tempo e pela escassez de dinheiro. Há ainda um mau comportamento escolar no filho mais velho que preocupa o casal central: Abby (Debbie Honeywood) e Ricky (Kris Hitchen, despontando nas apostas locais para o prêmio de melhor ator). Ela é uma cuidadora de idosos, mãe de dois adolescentes, sendo uma menina de boa índole e o tal rebelde supracitado. Seu marido, que raras vezes ri, abre um negócio próprio micro de entrega de encomendas via van. A compra do tal veículo deflagra uma série de crises na relação, no lar, na paz que outrora havia em suas dificuldades. Há uma causa social nobre. Mas falta a energia de filmes como “Meu nome é Joe” (1998).

Cannes termina no dia 25.

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