Jia Zhangke em perfil na Cinémathèque Française

Jia Zhangke em perfil na Cinémathèque Française

Rodrigo Fonseca

27 de dezembro de 2019 | 10h26

Rodrigo Fonseca
Diante do silêncio do 70º Festival de Berlim (20 de fevereiro a 1º de março) acerca de sua seleção de concorrentes ao Urso de Ouro, aumentam as expectativas, nas redes sociais, sobre quem deva concorrer no evento e também sobre quem serão seus jurados: o nome do chinês Jia Zhangke é um dos mais falados como um potencial presidente de júri, uma vez que sua obra está em revista na Cinémathèque Française. Neste sábado, a atração da retrospectiva, que segue até 4 de janeiro, é “24 City”, indicado à Palma de Ouro de 2008. Domingo rola “Um Toque de Pecado”, pelo qual o cineasta de 49 anos conquistou o prêmio de melhor roteiro na Croisette. Ele lançou este ano o curta “Bucket”, rodado em iPhone, e está preparando um .doc novo: o longa-metragem “So Close My Land”, sobre um festival literário na China. Estima-se a presença desse novo trabalho dele no menu da Berlinale 70.
“Encaro os filmes como testemunhos sobre um tempo. Seja fato, seja fábula, toda narrativa que eu faço é um documento sobre a China e sobre seu momento histórico, como um veio para que possamos conversar sobre o que se passa à nossa volta. Ao fazer uma ficção como “As Montanhas Se Separam”, por exemplo, eu estou revivendo e recriando situações que eu observo nas ruas, atento ao que se passa à minha volta, num empenho para colecionar registros. Se eu não tivesse essa verve documental, meus diálogos, nos roteiros que escrevo, teriam muita precariedade e careceriam de autenticidade. Tudo o que eu escrevo nasce a partir das vivências que tenho”, contou Zhangke ao P de Pop no início do ano, às vésperas da projeção de seu “Amor Até as Cinzas” (2018) no Festival Internacional de Miami, nos EUA.

“24 City” (2008) é uma das atrações da retrospectiva de Jia Zhangke na Cinémathèque Française

Em paralelo à finalização de “So Close My Land”, Zhangke amplia seu trabalho como produtor, ao ajudar o tailandês Apichatpong Weerasethakul a concluir seu esperadíssimo novo longa: “Memória”, rodado na Colômbia com Tilda Swinton, Daniel Giménez Cacho e Jeanne Balibar no elenco. Ele ainda produziu “Seeing Nara Again”, de Pengfei Song, que está cotado para as mostras paralelas da Berlinale. “A maneira como a China é vista pelos cinemas da Europa não é mais a mesma da que existia quando eu comecei, quando havia mitificação e um olhar muito redutor, baseado em preconceitos antropológicos, em exotismos”, disse Zhangke ao Estadão. “Driblamos a dimensão etnográfica de estranheza e emplacamos muitos longas, de diretores diferentes, em muitas mostras pelo mundo. Não somos mais vistos como um gênero e, sim, como uma nação plural em termos de expressão cinematográfica. O fato de muitos de nossos filmes serem proibidos internamente ampliou a difusão deles pela internet e isso acabou por democratizar nossas estéticas”.

Cogita-se que, nesta segunda, às vésperas do Réveillon, a Berlinale anuncie mais uma leva de títulos (foram divulgadas atrações do Fórum e do Panorama), começando pelas produções em concurso. Sabe-se que “Pinóquio” (“Pinocchio”), do italiano Matteo Garrone, vai ser exibido em projeção hors-concours.

p.s.: É estonteante o desempenho do ator Károly Hajduk em “Aqueles que ficaram” (“Akik maradtak”), de Barnabás Tóth, o candidato da Hungria a uma vaga no Oscar dos filmes de língua estrangeira de 2020, lançado aqui na quinta. Ele vive um silencioso médico que perdeu muita coisa no Holocausto e, agora, em meio a uma transformação política (à esquerda) em seu país, encontra conforto na companhia de uma adolescente órfã, Kára (Abigél Szõke).

p.s.2: Vai ter animação francesa – e que animação! – nas telas do Brasil no primeiro trimestre: “Dilili à Paris”, de Michel Ocelot, vai ser lançado comercialmente por estas bandas. Espécie de antropólogo do cinema animado, o septuagenário realizador de “Kirikou e a feiticeira” (1998) recria a França de 1900, sob a ótica de uma menina negra de uma aldeia do Pacífico Sul que tem a chance de visitar Paris no auge da ebulição artística e científica da vira do século XIX para o século XX. Ela cruza com Marcel Proust, Louis Pasteur e Toulouse-Lautrec nesta viagem construída a partir de uma estética de colagens.

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