Jerzy Skolimowski torna o Belas Artes essencial

Jerzy Skolimowski torna o Belas Artes essencial

Rodrigo Fonseca

17 de julho de 2020 | 12h48

Rodrigo Fonseca
Reduto de excelência autoral em narrativas pautas pelo risco, o Belas Artes à La Carte abre suas fileiras para um dos filmes mais controversos dos últimos dez anos, consagrado com o Prêmio Especial do Júri do Festival de Veneza de 2010: “Matança Necessária”. Com ele, um dos pilares do cinema novo polonês, Jerzy Skolimowski, ganhou um pódio à altura de seu legado, com o americano Vincent Gallo em magistral atuação. Quentin Tarantino era o presidente do júri no Lido quando o filme – “Essential Killing” é o título original – teve sua primeira exibição mundial, e deu a Gallo a Copa Volpi de melhor ator. Caminhando descalço na neve, sob uma temperatura menos 30 graus Celsius, seu personagem é um samurai afegão, abraçado ao silêncio, sendo conduzido pelo realizador de “Le Départ” (Urso de Ouro de 1967) sem pronunciar uma só palavra. Nele, Gallo é Mohammed, um combatente do Afeganistão que tem sua vida posta em risco depois de matar um soldado americano. Ele é detido para tortura e interrogatório em um local não designado da Europa, mas consegue escapar, gerando uma corrida pela vida e uma reflexão sobre a dialética de causas e efeitos. Na fotografia de Adam Sikora, sua corrida em prol da sobrevivência se torna ainda mais claustrofóbica, amplificada na montagem de Réka Lemhényi e Maciej Pawlinski, que dá um tom de thriller a uma tragédia ética.
“São os corpos vulneráveis que mais e melhor movem o meu interesse em contar histórias, só entendendo vulnerabilidade como uma reação de indiferença da moral vigente a quem foge das condutas, que está à margem de uma suposta normalidade”, disse Skolimowski ao P de Pop em sua passagem pelo Brasil, há uma década, quando o Festival do Rio pôs sua obra em retrospectiva. “Eu não quer falar de práticas de Poder eu quero falar da arte de sobreviver. E na história de Mohammed, o que me impulsiona é ver um sujeito acuado, sem direito sequer à linguagem. Lutar é seu discurso”.

Depois de “Trabalho Clandestino”, também chamado aqui de “Classe Operária” e de “Vivendo Cada Momento”, pelo qual foi laureado com o prêmio de melhor roteiro em Cannes, em 1982, o cineasta polonês de 82 anos emplacou os elogiadíssimos “Sucesso é a Melhor Vingança” (1984), “Ataque em Alto-mar” (1985) e “Correntes da Primavera” (1990), até desagradar o paladar da crítica e do público com “Ferdydurke”, em 1991. Passou quase duas décadas dedicado à pintura, atuando sazonalmente em longas nos EUA e na Inglaterra, até voltar a filmar com “Quatro Noites com Anna” (2008), exibido na Quinzena dos Realizadores. “O cinema passou anos querendo ser videoclipe, coisa que não me interessa fazer. Também não quero que um filme seja uma pintura. Cinema é uma linguagem bem particular, que precisa ser operacionalizada a partir de uma medida de pesquisa, de risco, de inconsciência”, disse Skolimowski, que em 2015 ganhou uma menção especial em Veneza com “11 Minutos”. “O que me importa é evitar gestos antiestéticos, ou seja, gestos que não carreguem sentimentos e reflexões, estando ali por pura mecânica, puro exibicionismo. Sai o supérfluo, fica o que é elegante e, sobretudo, o que é suave”.

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