‘Jeanette’, de Bruno Dumont, divide Cannes com seu ar pop

‘Jeanette’, de Bruno Dumont, divide Cannes com seu ar pop

Rodrigo Fonseca

22 Maio 2017 | 21h00

“Jeannette” é a “Noviça Rebelde” da Quinzena dos Realizadores de Cannes

RODRIGO FONSECA
Num dos momentos de maior leveza, mas ao mesmo tempo de maior deboche de Jeannette – A Infância de Joana D’Arc (Jeannette l’Enfance de Jeanne d’Arc), um dos filmes mais controversos da seleção do Festival de Cannes em 2017, a pequena mártir vivida por Lise Leplat Prudhomme abre os braços numa coreografia que mais parece a de Julie Andrews em A Noviça Rebelde (1965). A noção de Bondade e até de Fé de ambos os filmes são bem parecidas – e estilizadas – o que leva a sensação de que a menina vai cantar “The Hills Are Alive With The Sound of Music”. Mas o que sai é uma música mais pesada, uma mistura de ritmos, numa saturação extrema (quase uma poluição auditiva) que caracteriza de cabo a rabo este flerte do diretor Bruno Dumont com a cultura pop. Não faz sentido a seleção oficial da Croisette ter deixado tamanha iguaria passar batida pela lista de concorrentes à Palma de Ouro  – não existe coisa mais almodovariana, o que casaria bem com o gosto do atual presidente do júri, o espanhol por trás de Fale Com Ela) -, indo parar na Quinzena dos Realizadores. Lá é o que passou de mais exótico. Lembrado mais por seus experimentos de linguagem mais reflexivos, abertos a atores não profissionais, tipo A Humanidade (1999) e Flandres (2006), Dumont anda tentando um flerte com a fábula e o lirismo, dialogando com plateias maiores e com cartilhas já estabelecidas – caso aqui do filão musical. É assim desde que ele provou do sabor do sucesso popular com O Pequeno Quinquin (2014).

O cineasta hoje pesquisa tensões entre o Real e a fabulação: mais pop

Existe um universo na fabulação que pode ser tensionado pela presença do real, gerando uma fricção entre narrativas. É por isso que tento investir em histórias mais plásticas escapistas usando atores sem experiência profissional”, disse Dumont em Cannes, cercado de opiniões adversas acerca de Jeannette, que a velha guarda da crítica considera uma heresia com a representação de Joana d’Arc e os mais jovens encaram como uma anarquia libertária.

Sua câmera, de um realismo seco, ganha uma outra dinâmica (mais febril e instável) diante do colorido dos bosques onde a menina Joana canta sua vocação e seu amor a Deus. É um Je Vous Salue, Marie não godardiano (logo, menos sacrílego), que desafia mais os cânones do Musical (Stanley Donen e Robert Wise, sobretudo) do que os da Igreja. O resultado é uma ópera abusada, chanchadesca, no limite entre a provocação e a reverência ao Sagrado – o Sagrado do Cinema.