Jean-Pascal Zadi na marca do troféu César

Jean-Pascal Zadi na marca do troféu César

Rodrigo Fonseca

10 de março de 2021 | 12h18

RODRIGO FONSECA
Sexta é dia de troféu César, o Oscar francês, tendo o candidato da terra de Truffaut ao Oscar – o belo “Deux”, de Filippo Meneghetti – no páreo, sendo “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait”, de Emmanuel Mouret, o título com maior número de indicações, concorrendo em 13 frentes. Desde 1976, a Académie des Arts et Techniques du Cinéma concede, anualmente, a seus talentos, a estatueta de bronze estimada em cerca de € 1,5 mil, batizada com o nome de seu escultor, César Baldaccini (1921-1998), artesão do Nouveau Réalisme europeu. Desta vez, entre os longas-metragens premiáveis, há uma aula de inclusão racial regada a deboche: “Sou Francês e Preto” (“Tout Simplement Noir”). Exibida aqui no Festival Varilux, a produção está disponível nas plataformas de VOD nacionais: no NOW da Claro/NET e ao Vivo TV, sendo aqui distribuída pela Bonfilm. Visto por cerca de 800 mil espectadores em julho, assim que o circuito exibidor de Paris, Nice, Lyon, Marselha e arredores, hoje novamente fechado, ensaiou uma reabertura, o filme carrega em seus títulos – tanto o brasileiro quanto o original – a afirmação de identidade e de combate que hoje tornam a comédia de Jean-Pascal Zadi um estandarte das lutas contra a intolerância no cinema europeu. Zadi estrela e dirige esse ensaio sobre as sequelas do racismo. Ele concorre ao César nas categorias melhor filme de diretor estreante e melhor ator revelação. A festa do prêmio francófono vai ocorrer presencialmente, na sala de espetáculos L’Olympia, respeitando todos os protocolos acerca da covid-19, tendo a atriz Marina Foïs como apresentadora.

“Deux”, o candidato da França para o Oscar

Contemporâneo de Mati Diop, Ladj Ly, Sabrina Fidalgo, Alain Gomis, Jeferson De, Barry Jenkins e de toda a leva de cineastas negros/as que desafiam as engrenagens do racismo no mundo, Zadi é um cronista do cotidiano de famílias de origem africana como a sua, que vieram da Costa do Marfim para se estabelecerem no Velho Mundo em áreas onde a pobreza é a senhoria.
“Venho celebrar as combatividades possíveis e improváveis. Nas metáforas do meu rap, você encontra uma expressão do meu desconforto em relação a um mundo em que negras e negros são acharcados pela polícia apenas por conta da nossa cor. Ser negro na França é ser alvo de suspeitas. Minha maneira de combater isso é fazer rir, pois o riso é uma arma para que a gente desarme a brutalidade”, explicou Zadi ao P de Pop, por telefone.

Aos 40 anos, o multiartista nascido em Bondy, no nordeste de Paris, virou realizador em 2010, quando lançou “African Gangster”. Em “Sou Francês e Preto”, ele promove uma cartografia de resiliências ao narrar a aventura de um ator para organizar uma marcha de contestação aos conflitos raciais. Ele divide a direção com o fotógrafo John Wax. Responsável por projetos de sucesso midiático como a série “Craignos”, Zadi vê no rap uma expressão imagética do levante contra as brutalidades sociais.
“Do Brasil, conheço o futebol e ‘Cidade de Deus’. Na música, sou fã de rappers americanos que vão para o confronto em suas letras, como era o caso do Tupac Shakur ou da galera do Public Enemy. Na minha mocidade, foram eles que deram um caminho para a minha geração se expressar. Gosto do Snoopy Dog e de outros rappers que são mais populares ao relatarem o cotidiano, mas eu tenho uma predileção pelo piquete, por aqueles que desafiam em suas músicas, que abrem combate”, diz Zadi. “Rap e cinema são linguagens conjugadas: ambos usam a palavra para construir imagens. A manha está em encontrar ritmo pra essas palavras”.

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