Cocteau: tintas imortais de um poeta

Cocteau: tintas imortais de um poeta

Rodrigo Fonseca

16 de julho de 2019 | 13h33

 

 

O multiartista da paixão Jean Cocteau: 130 anos de legado em 2019, com obra em exposição na Casa Roberto Marinho © Cocteau, Jean/ AUTVIS, Brasil, 2019. Avec l’aimable autorisation de M. Pierre Bergé, président du Comité Jean Cocteau

JEAN COCTEAU: TINTAS IMORTAIS DE UM POETA NA DELICADA EXPOSIÇÃO DE ESTRANGEIROS DA CASA ROBERTO MARINHO

Rodrigo Fonseca
Estamos no mês em que se comemoram os 130 anos do nascimento de um cineasta que foi, em vida, um sinônimo de transdisciplinaridade, o francês Jean Maurice Eugène Cocteau (1889-1963). É um dever cinéfilo prestigiar o multiartista nascido num 5 de julho que abriu as porteiras da Europa para variadas experiências narrativas dele na poesia, no teatro, no desenho e nas telas, com uma versão lírica de “A bela e a fera”, de 1946. Versão na qual Jean Marais passa da licantropia à demasia da condição humana. O “parabéns” que o diretor de “Águia de duas cabeças” (1948) merecia passou batido no circuito exibidor brasileiro. Porém, a exposição Estrangeiros na Coleção Roberto Marinho, cuja abertura vai ser nesta quinta, 18 de junho, às 19h, no RJ, no instituto da R. Cosme Velho batizada em tributo ao mítico jornalista, compensa (e muito bem) a indelicadeza que o Cinema cometeu com um realizador guiado pelo pathos da experimentação. Dele, o Instituto Casa Roberto Marinho, sob cirúrgica curadoria do expert nas Belas Artes Lauro Cavalcanti, separou riscos poéticos de um tributo a Paul Klee (1879-1940), o criador do “Angelus Novus”, o “Anjo da História”. Na parede C da exposição, há outras obras de Cocteau, algumas de 1962, feitas depois de “O testamento de Orfeu”, seu canto de cisne como realizador, datado de 1960. Curiosamente, em 1957, ele presidiu, com André Maurois, o júri de Cannes que coroou o americano William Wyler (1902-1981) e seu “Sublime Tentação” com a Palma de Ouro filme que virou um dos objetos centrais da gênese da “teoria do autor”, na crítica internacional.

“Existem verdades que a gente só pode dizer depois de ter conquistado o direito de dizê-las. Pois a arte é uma espécie de escândalo, um exibicionismo cuja única desculpa é ser praticado entre cegos”, polemizava o diretor, que não é o único dos mimos que o garimpo de Lauro trouxe para o público brasileiro.

Já na primeira sala, vemos uma azeitada junção do abstracionismo expressivo da tela monopigmentária de Pierre Soulages, a leveza dos trabalhos de Marc Chagall, a pintura metafísica do greco-italiano De Chirico, as ilustrações surrealistas de Salvador Dalí, a geometria festiva de Sonia Delaunay e os trabalhos pós-cubistas de Fernand Léger. Telas seminais de Maria Helena Vieira da Silva, exercícios da fina inquietação de Giuseppe Santomaso e a ‘pintura happening’ de George Mathieu completam o setor. Desfilam ainda pelo espaço, em diferentes paredes, guaches de Raoul Dufy,  tapeçarias e óleo de Jean Lurçat, telas de Maurice Utrillo, André Lhote, Maurice Vlaminck, Fillipo de Pisis e Mela Mutter.

Nesse Jardim das Delícias inserido em solo carioca, vemos uma têmpera sobre tela, que marca a presença de Marie Laurencin, única mulher do grupo cubista Section d’Or e companheira do poeta Guillaume Appolinaire.  Os estrangeiros que adotaram o Brasil como lar também foram incluídos na exposição, a começar pelos desenhos a nanquim, do século XIX, de Giovanni Battista Castagneto.

“Faz parte do perfil da Casa Roberto Marinho ser uma casa que dá oportunidade às pessoas de conferir artistas da época do Modernismo com os quais o público não está tão acostumado ou só conhece em publicação. Nesse sentido, nós estamos tendo a mostra “Djanira”. Por outro lado, com a mostra “Estrangeiros na Coleção Roberto Marinho”, a casa permite que o grande público veja, pessoalmente, ao vivo, trabalhos que só veriam se viajassem… ou só acessariam por meio de revistas, como trabalhos do Léger, do Chirico, do Dufy, do Chagall… enfim”, explica Lauro, diretor e curador desse cantinho de preservação da arte de ver, de olhar, de enxergar, que Cocteau tanto cultuou em sua vida. “A Casa Roberto Marinho tem um perfil determinado, que é a casa do modernismo brasileiro e tem também esse perfil de atender, não apenas ao público especializado, mas também ao público leigo, e nesse caso damos oportunidade que a pessoa veja obras que só veria se viajasse”.

SALVADOR DALÍ Smugglers Meeting (Suíte Carmen), 1970 Litografia/papel – 87 x 73 cm CRÉDITOS: © Salvador Dalí, Fundación Gala-Salvador Dalí/ AUTVIS, Brasil, 2019.

Se você nunca foi no Instituto Casa Roberto Marinho (tá perdendo, viu?), ou já foi mas perdeu o endereço (acontece…), anote aí: Rua Cosme Velho, 1105, ali no Cosme Velho – Rio de Janeiro. O telefone, para os mais enrolados, como nós aqui do P de Pop (vai que precisa…), é (21) 3298-9449  Visitação pública:  De 19 de junho de 2019 a 27 de outubro de 2019. O horário de funcionamento: de terça a domingo, das 12h às 18h, com ingressos: R$ 10 (inteira) / R$ 5 (meia entrada). Às quartas-feiras, a entrada é franca. Aos domingos, “ingresso família” a R$ 10 para grupos de quatro pessoas. Perde não. O trabalho do Lauro na curadoria prima pela elegância, como é marca de suas reflexões intelectuais sobre múltiplas artes. O trabalho dele é hoje é uma referência de resistência (e de valorização à ideia de cultura como patrimônio… estético e ético) no Rio… e neste nosso Brasil.

p.s.: Aos cinéfilos, não percam de jeito algum a catarse “Um homem fiel”, dirigido e estrelado por Louis Garrel, laureado com o prêmio de melhor roteiro no Festival de San Sebastián de 2018. Tá em circuito já.

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