Janela para Vecchiali

Janela para Vecchiali

Rodrigo Fonseca

09 de maio de 2020 | 12h03

Aos 90 anos, Paul Vecchiali é um dos destaques do Varilux online

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Nenhuma cinematografia estrangeira tem potencializado tanto sua produção audiovisual nesta 40ena quanto a indústria francesa, seja no gesto de disponibilizar curtas e longas-metragens gratuitamente no site www.myfrenchfilmfestival.com, da Unifrance, seja pela atitude louvável do Festival Varilux do Brasil, que, via Christian Boudier, vem exibindo online pérolas como “O Ignorante”. Basta acessar www.festivalvariluxemcasa.com.br para conferir esta pérola do nonagenário Paul Vecchiali, um rebelde por excelência, ainda pouco celebrado por estas bandas. Em 2017, a Mostra de São Paulo trouxe o cineasta aqui para uma homenagem a seus (então) 56 anos de carreira… hoje 59. “Le Cancre” (2016), que o Varilux exibe, é um dos trabalhos mais singulares do realizador de “Uma Vez Mais”, drama LGBT indicado ao Leão de Ouro em 1998. A trama ficou famosa na Europa por seu pioneirismo em abordar a Aids.
“Vivemos na França sob uma noção envelhecida e um tanto imprecisa do que é autoralidade, numa patrulha que não valoriza gestos individuais realmente potentes. Para um autor, não interessa ter uma grande cena e sim que cada plano filmado puxe outro, alimente outro. Eu busco ser singular em cada cena. Cada cena é um filme em si”, disse o cineasta ao P de Pop em sua visita a SP.

Fotografado com requinte por Philippe Bottiglione, “O Ignorante” traz Vecchiali na direção, no roteiro, na produção, na edição e no elenco. Ele vive Rodolphe, um pai em conflito com o filho, obcecado em rever seu primeiro grande amor, Marguerite (Catherine Deneuve). Reviver a paixão que educou seus sentimentos dá a Rodolphe um caminho para acreditar de novo na vida, em si mesmo e na beleza do mundo. “Eu sempre participo da montagem de meus filmes, que nascem de um trabalho de mesa com os atores, em leituras onde construímos o falar e a temperatura dos personagens em conjunto”, diz Vecchiali. “O cinema se preocupa muito com resultado e pouco com a necessidade essencial de um gesto artístico. Por isso eu tento não me mover refém de correntes”.

p.s.: Falando em cinema francês, a Looke está exibindo o brilhante “O Imperador de Paris” (“L’Empereur de Paris”), de Jean-François Richet. Concebido para ser a ofensiva francesa contra os blockbusters de Hollywood, esta superprodução do diretor de “Inimigo público nº1” (2008), baseada nos feitos do criminoso Eugène François Vidocq (1775-1857), fez jus a seu objetivo: graças ao carisma do astro Vincent Cassel, o longa vendeu 730 mil ingressos em três semanas. Na trama, Vidocq tenta refazer sua vida como comerciante, mas é empurrado de volta ao submundo, mas, desta vez, para debelar os malfeitores. As cenas de ação rodadas por Richet são impressionantes.

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