‘Janela da Alma’: colírio documental

‘Janela da Alma’: colírio documental

Rodrigo Fonseca

16 de abril de 2020 | 12h03

Rodrigo Fonseca
Restaurar e reservar “Janela da alma” significa mais do que um reconhecimento a um filme de sucesso sobre a arte de ver e a artimanha de enxergar, significa democratizar um estudo divisor de águas das formas de narrar com a câmera e com as ferramentas da edição. Mantê-lo vivo e acessível é um exercício ético de inclusão a reflexões sobre o papel humanista da arte. O longa está a um passo de completar 20 anos e, até hoje, mexe com a imaginação e com as percepções de seus espectadores. Exibido em alguns dos mais antigos e prestigiados festivais da Europa, como o de Cannes e o de Karlovy Vary (na República Tcheca), tendo circulado por mostras competitivas na Rússia, nos EUA, no México e no Uruguai, o longa-metragem foi um inusitado fenômeno de bilheteria para os padrões do Brasil do início da década de 2000: ficou 48 semanas em cartaz, em dias de “Homem-Aranha” e “Harry Potter”. Sua longeva permanência em tela e a posterior demanda por ele em escolas atraíram a atenção de Wim Wenders, aclamado cineasta alemão.
Um dos entrevistados do longa que o carioca João Jardim e o paraibano Walter Carvalho dirigiram a quatro mãos, o realizador de “Paris, Texas” (Palma de Ouro de 1984) resolveu opinar sobre algo que vinha do Brasil com perfume de novidade. Tínhamos teóricos, cineastas (como o próprio WW e a ícone da afirmação feminina Agnès Varda), escritores (entre eles o único Prêmio Nobel da língua portuguesa, José Saramago), músicos do naipe sinestésico de Hermeto Paschoal e até o fotógrafo cego Evgen Bavcar. Todo mundo está ali para abrir um debate sobre a diferença entre olhar e entender, na quilometragem semiológica que separa signos e significados, numa percepção dos vetores de Tempo e Espaço.
Era algo que sinalizava uma ruptura com os códigos “informativos” sacros da prática documental, preocupando-se mais com a poesia do plano do que com factualidades – embora os fatos estivessem ali, no corte final, firmes e vívidos. Disse Wenders, ao conferir hiatos de fala num longa-metragem cuja proposta era coletar relatos e vivências:
“Eles sabem usar o silêncio. E o silêncio funciona bem em tudo. Funciona mesmo pra alguém da minha geração, que foi salvo pelo rock’n’roll, pela música punk… Mas a questão aqui é outra: não existem diferenças específicas de sensorialidade entre o documentário e a ficção. A fronteira entre elas foi borrada há muito tempo. Eu só consigo me aproximar da ficção adulta quando esta se abre para a Realidade, aproximando-se dela o máximo possível. É de sua natureza que Real nos surpreenda e nos atropele. É rico quando a ficção se deixa atropelar por ele. Sem ela, tudo cai na fantasia, na fábula… E a realidade é o pilar de que eu preciso agora. Mas há documentários que vão na direção oposta. Alguns são muito ficcionais. O que brota das Américas, a partir do que vi de ‘Central do Brasil’, em 1998, adiante, é algo de fabular no seu recorte para um mundo mágico da sobrevivência. Mas tem gente de verdade ali”, avaliou Wenders, em um depoimento ao jornal O Globo, falando sobre uma época de reconfiguração.
Reconfiguração política para o milênio que alvorecia sob o trauma do 11 de Setembro e uma reconfiguração na ordem do storytelling pela aparição dos códigos binários (porém jamais dialéticos) da internet (vide YouTube & cia.).

Foi num torvelinho histórico de fabricação de novas narrativas que “Janela da alma” foi lançado, em 2001, na Mostra de S. Paulo, iniciando um périplo pelo mundo. “Na distância entre aquilo que se vê e aquilo que se deduz reside uma certa poesia que a gente chama de cinema”, disse Carvalho à época para explicar o que ele e João fizeram. E esse feito durou tempo para sair do papel, como Jardim explicou à época de sua estreia: “A ideia inicial partiu da tentativa de investigar o fato de eu não enxergar direito, de como o fato de eu ser muito míope teria de alguma forma influenciado a minha vida. O filme partiu disso, e pude perceber muito rapidamente que havia coisas mais interessantes para serem pesquisadas e abordadas do que a minha problemática individual. Mas é muito gratificante você fazer um trabalho a partir de uma experiência intrinsecamente ligada à sua razão de ser: eu sempre fui muito míope, desde pequeno, então essa questão de ver, como ver e como ser visto sempre foi algo que passou pela minha cabeça, sobre o que sempre refleti”, disse o cineasta. “O ‘Janela’ fala sobre a palavra, sobre o pensamento, é quase um ensaio que você vai assistindo e vai ouvindo pessoas falando coisas interessantes. Nem saberia dizer o tema dele exatamente, porque acho que o mais legal é aquilo que você fica ouvindo sobre diversas coisas diferentes. Cada coisa que é dita ali tem um subtexto diferente”.
Incitado por angústias pessoais e apoiado no desejo de o fotógrafo Carvalho (em ebulição) ir às franjas da direção, “Janela da alma” rodou o planeta, ganhou prêmios e foi parar nos “20 mais” da lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) de melhores documentários nacionais de todos os tempos, abrindo uma fresta para uma nova epistemologia da imagem e do registro de depoimentos na dinâmica da dramaturgia latino-americana, aproximando noções de “forma” e “conteúdo” que foram separadas por ditames de mercado. Um filme de aparência documental mas que dialoga, por meio de suas escolhas de fotografia e de montagem com a tradição do dito “cinema experimental”, no qual não há compromissos narrativos de se traçar uma jornada, e com uma tradição ficcional herdada da literatura: o stream of consciousnes, ou fluxo de consciência (conceito criado por James Joyce), na qual as falas são marcadas por uma incontinência de verbos não amansados, na selvageria do sentir. Evgen Bavcar, um dos depoentes, por exemplo, faz suas fotografias tocando o rosto de seus modelos a fim de cartografar, pelo tato, a paisagem de sua aparências a fim de iluminar um ponto focal que vai além delas. Evgen Bavcar é alguém que busca essências, que ignora a capa para mergulhar nos livros (da vida) no miolo de suas palavras. Esse processo, quase filosófico, é explicado em “Janela da alma” sem didatismos.

Mesmo a loquacidade das falas costuradas e trançadas de um depoimentos a outro não torna o longa de Jardim e Carvalho algo palavroso. Havia um ritmo dado por pausas, silêncios, cortes secos, contemplações, peles e suores. Era linguagem. Era cinema e não filme. Era e é. E a obra dos dois diretores evoluiu, com saltos entre o .doc e a ficção, a partir desse parâmetro radical de largada. Eles nunca fecharam a “Janela da alma”. Nem nós: gerações aprenderam com eles.
Estávamos chegando aos 2000 e o que se via no audiovisual era um contágio da ficção pelas observações da realidade, algumas neutras, outras bastante parciais. No fim dos anos 1990, o audiovisual de consumo doméstico (leia-se televisão) foi contaminado pelos reality shows. O alerta para essa contaminação veio de Hollywood, por meio de uma fábula distópica de um hoje esquecido realizador australiano, Peter Weir, com “Truman Show – O show da vida”, de 1998. Era uma comédia alarmista sobre um sujeito cujo vida privada era empossada por um estúdio de TV desde seu nascimento. Ali, começou-se a falar em reality TV e o “Big Brother” virou febre global. Espiar a privacidade alheia virou fetiche. Saíamos das falências ideológicas do neoliberalismo como promessa de renovação, saíamos de guerras no Kuwait e na Iugoslávia (atomizado em micro repúblicas), saíamos da descoberta da internet… não havia fábula que nos levasse à catarse, à transcendência. Daí apelarmos para o Real. Filmes de ficção que nos (re)alfabetizaram para os novos tempos eram acentuados com o circunflexo de um realismo hipervitaminado, como “Amores brutos” (2000), do mexicano Alejandro González Iñarritu, ou “O círculo” (Leão de Ouro de 2000), do iraniano Jafar Panahi. Não era de se espantar que o cinema documental vivesse um boom, saindo do espaço proscrito dos canais de TV educativos e indo para o circuitão exibidor, disputar com super-heróis e animações da Pixar.

Não por acaso, “Janela da alma” chegou a cerca de 160 mil ingressos vendidos nessa época.
Havia nele um frescor que trouxe satisfação a plateias afoitas por um encontro com “esse tal de documentário”, uma prática dramatúrgica que unia tomadas de posição em primeira pessoa sobre assuntos dos mais variados a uma maneira de fotografar e editar que a ficção parecia não saber usar. Anos depois, realizadores como Paul Greengrass (com “Domingo Sangrento”) e Jia Zhang-ke (com “Em busca da vida”) borraram as interdições entre essas duas instâncias narrativas. Mas, ali, em 2001, 2002, o documentário era fornecedor de novidade, um “inventor de maravilhas”, com o dizia o cômico Buster Keaton ao falar do poder emissor do cinema. E em meio àquele oceano de inovações, “Janela da alma” foi um bote que levou nossa sinestesia em segurança pelas águas da tentativa, da invenção.
Estamos em 2019 e não se fala mais em “Truman Show” como um filme profético porque ele desapareceu sem o devido cuidado dos curadores e historiadores. O mesmo não pode ocorrer com “Janela da alma”, pois existe ali mais do que um balão de ensaio sobre dramaturgia de plano. Existe ali um pedaço de Brasil e um quinhão do mundo. Uma geografia feita de afeto. Uma geopolítica de imagens.

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