J. P. Cuenca passa da prosa ao cinema com elegância

J. P. Cuenca passa da prosa ao cinema com elegância

Rodrigo Fonseca

28 de junho de 2016 | 10h04

“A Morte de J. P. Cuenca”: autogeografia

Revelação da linhagem existencialista entre os autores formados nos anos 00, dono de uma prosa capaz de aliar cinismo, virulência e uma doçura meio bêbada lá no fundinho dos parágrafos, João Paulo Cuenca se lança agora no cinema como realizador, tendo os escombros do Rio de Janeiro como universo para vasculhar um rascunho de cidade – e um esboço de si mesmo. Escritor renomado pelos seminais Corpo Presente e O Dia Mastroiani, ele vai agora à telona unindo ficção, documentário, vida e autogeografia em A Morte de J. P. Cuenca, um um thriller de si mesmo.

Cuenca em ação como ator de si mesmo

Cuenca em ação como ator de si mesmo

Em 2008, sua certidão foi encontrada junto a restos mortais desconhecidos, na Lapa. Com base nesse fato, Cuenca se propôs um desafio: fazer uma autoanálise cinematográfica, nos moldes do que Polanski fez em O Inquilino (1976). O resultado é um suspense que mais parece filme da Primavera Romena tipo os de Cristian Mungiu (de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias), pelo humor negro e pela denúncia (indireta) do abandono estatal à paisagem diante de nós. Generoso na sensualidade e firma no suspnse, o longa é um exercício policialesco que flerta com o riso amargo adotando como objeto a cidade do Rio em suas transformações e seu abandono. Nessa arquitetura de estados físicos e existenciais, Cuenca se constrói como autor-ator, numa interpretação lynchiana, com jeitão de Inspetor Clouseau em um tiro no escuro da invenção. Ao longo de sua jornada, ele convida personalidades da Cultura como o professor da UFRJ Paulo Roberto Pires para atuar consigo (numa cena impagável).

É um filme maduro, produzido pelos cineastas Felipe Bragança Marina Meliande (de A Alegria), cuja narrativa segue a jornada mórbida de Cuenca (ele mesmo como ator – e bom ator!) em busca de pistas acerca dessa suposta morte. No caminho, levanta-se a hipótese de um sujeito morto em vida, atrás de uma razão para seguir em frente. E essa trilha de autoanálise rende um jogo entre vida e filme – doc e ficção – sedutor, com enquadramentos rigorosos para um diretor iniciante. É uma das melhores estreias desta semana.

 

 

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