‘Ivan, o TerrírVel’, expressionista, tropicalista

‘Ivan, o TerrírVel’, expressionista, tropicalista

Rodrigo Fonseca

21 de dezembro de 2020 | 09h52

Rodrigo Fonseca
Templo de reflexões políticas desde sua inauguração, em 1965, com a vitória de “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, o Festival de Brasília encerrou sua mostra competitiva de 2020 no domingo fazendo jus à sua vocação histórica pelas vias do pop, pois apostar na dimensão libertadora da arte popular que atomiza clichês para gerar novos sentidos é uma fina forma de transgressão – palavra que serve de leme a “Ivan, o TerrirVel”. É uma divertidíssima biopic do realizador carioca Ivan Cardoso: na década de 1980, o cineasta carioca, hoje com 66 anos, foi sinônimo de invenção – graças a “O segredo da múmia”, de 1982, um marco mundial da participação latino-americana na seara do horror – e garantia de bilheterias astronômicas – “As sete vampiras”, de 1986, virou fenômeno popular. Pesquisado e dirigido pelo crítico Mario Abbade, também autor do roteiro com Leonardo Luiz Ferreira, o último dos seis longas-metragens em concurso pelo Candango ganhou o prêmio de melhor .doc no Festival de Stiges, na Espanha, há cerca de dois meses. Trata-se um sopro de vitalidade autoral da seara documental brasileira, ao unir arquivística, alusões às bases estéticas do cinema como linguagem (no caso, o expressionismo) e o que se chama de “crítica genética”, ou seja, a incorporação da feitura, do processo, no próprio resultado final. Fora apresentar os bastidores dos longas de Ivan com uma estrutura narrativa tão tropicalista quanto o discurso do próprio documentado – numa feérica direção galvanizada pela montagem de Christian Caselli, Gurcius Gewdner -, o longa ainda faz uma releitura de “Nosferatu” (1922), com o próprio Cardoso e com uma Nicole Puzzi em estado de graça.
À época da feitura do longa de Abbade, Cardoso deu uma entrevista ao JB na qual falou: “Terror ainda é a maior diversão. Mas, na prática, o terror atual na minha vida é uma luta que estou tendo aqui no meu prédio, em Copacabana, pra resolverem uma infiltração no meu apartamento e pra não removerem umas fotografias minhas aqui do meu hall”, disse o cineasta, em meio a uma homenagem que recebeu no Festival Rio Fantastik. “Faço comédias de terror para enganar a Morte”.

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