Isabel Coixet nos ensina a gostar de ler

Isabel Coixet nos ensina a gostar de ler

Rodrigo Fonseca

23 de março de 2020 | 09h53

Hoje envolvida com o projeto “It Snows in Benidorm”, a cineasta catalã Isabel Coixet dirigiu Emily Mortimer no set de “A Livraria”, hoje na grade do streaming

Rodrigo Fonseca
Quarentena é tempo de leitura: por aqui, o P de Pop encara o belo trabalho de Nathalie Bittinger em “Dictionnaire Des Cinémas Chinois – Chinês, Hong Kong, Taiwan” (Hémisphères Editions) e “Claraboia”, de José Saramago. Mas entre um capítulo (ou verbete) e outro, a gente volta aos filmes, sempre eles, (re)descobrindo em espaços como a Netflix jóias como “A Livraria”, da catalã Isabel Coixet. É uma oração em glória da arte de ler. Ela agora trabalha no thriller “It Snows in Benidorm”, com Timothy Spall. Mas a deliciosa reflexão de Isabel sobre a leitura como um exercício existencial é a forma ideal de conhecer uma obra marcada por iguarias de leve digestão como “Assumindo a Direção” (2014).

Ode à força analgésica da literatura e ao fetiche da bibliofilia, a produção anglo-teuto-espanhola “The Bookshop” foi referendada pela conquista de três Goyas, o Oscar hispânico (de Melhor Filme, Roteiro e Direção) e por uma projeção fora de concurso durante a Berlinale 2018. Ela cabe na prateleira do chamado “filminho”, a mesma onde estão delícias como “Um Lugar Chamado Notting Hill” (1999) ou “Simplesmente Amor” (2003). Por estes dois parceiros seus, já dá para notar que o uso do diminutivo para o novo longa-metragem de Isabel (de “Ninguém Deseja a Noite”) não é questão de desdém, mas sim de fofura. Seu longa é uma “sessão da tarde” nata, daquelas que a gente vê… vê… vê…e vê de novo sempre que passa, imantados pelo charme da idealização de sentimentos.

Estamos diante de um enredo sobre afetos, baseado em romance homônimo da britânica Penelope Fitzgerald (1916-2000), lançado aqui pela Bertrand Brasil, em fina tradução de Sônia Coutinho. Sua versão para as telas é construída a partir de uma narrativa clássica (tem começo, meio e fim no lugar; a ação se escora sobre jornada heroica de superação; há a utilização do maniqueísmo para distinguir bem mocinha e vilã). Porém, esta narrativa é feita com uma precisão quase cirúrgica no uso das cartilhas de causa, efeito e discussão moral. E há um par de atores ingleses em estado de graça, Emily Mortimer (de “Ilha do Medo”) e Bill Nighy (o monstro Davy Jones da franquia “Piratas do Caribe”), construindo o que periga ser o (quase) par romântico mais tocante dos últimos anos. Tudo isso se põe em cena a partir da autoralidade de uma cineasta preocupada com impasses do querer e com formas possíveis de conciliação.

Filmado em locações irlandesas (a cidade de Portaferry) e espanholas (uma série de prédios em Barcelona) em agosto e setembro de 2016, com um orçamento estimado em €3,4 milhões, “A Livraria” fala sobre livros, empoderamento feminino, formas de amar e a dinâmica Coixet de compreensão de mundo. A liga entre esses tópicos é uma trama ambientada em Hardborough, um cantinho do céu na costa da Inglaterra, onde, em 1959, a viúva Florence Green (papel de Emily) resolve abrir uma loja dedicada a romances, poemas e contos. Sua oferta de produtos seria perfeita não fosse o local uma terra governada pelo conservadorismo de uma alta sociedade avessa ao risco da iluminação que o ato de ler gera. Não por acaso, um dos romancistas mais citados é Ray Bradbury (1920-2012), que em “Fahrenheit 451” (1953) fala de um futuro no qual livros devem ser queimados em prol do bem estar social.

Pepitas sci-fi como “As Crônicas Marcianas (1950), de Bradbury”, fazem parte do menu montado por Florence no banquete de sedução que ela oferece a um dos mais distintos e temidos moradores de Hardborough: o Sr. Brundish, espécie de Visconde de Sabugosa vivido por Nighy no diapasão entre o heroísmo romântico e a fragilidade existencial. Brundish será o freguês mais prolífico de Florence, naquela cidadela que se deixar inebriar pela presença de uma livraria em seu território árido de cultura. Mas, como há sempre uma pedra no caminho da poesia, vai aparecer uma dondoca local interessada em pôr um ponto final na poética daquele empório de Letras: a socialite Violet, encarnação do moralismo vivida por Patricia Clarkson (atriz xodó de La Coixet).

p.s.: Aos usuários (e aos curiosos) do streaming MUBI, está segunda, até 23h, é o último dia para se deleitar com a explosão sinestésica “Junun” (2015).
Neste memorável documentário em média-metragem de Paul Thomas Anderson (um diretor imune a erros), o músico Jonny Greenwood viaja pelos confins do Rajastão em busca das múltiplas sonoridades indianas, colecionando experiências.

p.s. 2: Fãs de tokusatsu ganharam um presentão da Band, com o regresso de “Jaspion”, de “Jiraya” e de “Changeman”, mas a Amazon Prime também merece os aplausos dos fãs desse filão nipônico, pelo retorno de “Jiban”, agora no ambiente do streaming.

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