Irmãos Dardenne no Canal Brasil

Irmãos Dardenne no Canal Brasil

Rodrigo Fonseca

14 de maio de 2020 | 11h34

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Cannes produziu muitos fenômenos ao longo de suas 72 últimas edições, jogando luz sobre a produção de muitas nações, incluindo sua vizinha, a Bélgica, de onde vieram os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, responsáveis por uma reinvenção do realismo naturalista nas telas. A Palma de Ouro foi para as mãos da dupla duas vezes: em 1999, com “Rosetta”, e em 2005, com “A Criança”. E, da Croisette, veio mais uma leva de prêmios para os realizadores belgas, que vão apresentar sua estética no Canal Brasil nesta sexta, às 23h10, com a projeção de “Dois Dias, Uma Noite”. Exibido no balneário francês em 2014, na disputa pela Palma de Ouro, este drama social integra uma retrospectiva cannoise feita na TV a cabo pelo CB. Ele levou o ethos dos Dardenne à competição da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Marion Cotillard, sua protagonista, foi indicada ao Oscar de melhor atriz.
“Eu passei por estéticas que me levaram a universos muito distintos, de Piaf aos Dardenne. Foi contagiada pela arte ainda menina. Quando eu tinha uns 8, 9 anos, durante um acampamento de férias, eu fiz um show… um daqueles pequenos shows de estudantes, no qual eu tentei interpretar uma faxineira idosa. As pessoas reagiram muito bem. Mas o que mais mexeu comigo não foi a reação delas. Foi o fato de eu ter experimentado a encantadora sensação de ser outra pessoa, de viver outra pessoa. E eu gostei de ser olhada, de ser notada. Mas o tempo me ensinou que ter atenção das pessoas não é o mesmo que ter o respeito delas”, disse Marion ao P de Pop, em novembro, durante o Festival de Marrakech, no Marrocos.

Em “Deux Jours, Une Nuit”, Sandra (Marion) está de licença médica da fábrica em que trabalha, por sofrer de depressão. Ao retornar ao trabalho, a operária encontra uma situação inusitada: seu chefe deu a seus colegas o poder de decidir sua permanência (ou não). Caso a maioria concorde em dispensar um bônus salarial generoso, ela poderá permanecer em sua posição profissional. Caso eles prefiram um aumento polpudo nos contracheques, ela roda. Durante dois dias, Sandra vai peregrinar por Liège, batendo de porta em porta, nas casas de seus companheiros de labuta, para tentar convencê-los a abdicar da premiação em prol de sua permanência. Orçada em € 7 milhões, a produção arrecadou cerca de € 9 milhões na venda de ingressos, tendo abocanhado 41 prêmios.
“Nós devemos muito a festivais como Cannes, pela atenção que o evento sempre deu às histórias que tentamos contar. Toda a nossa trajetória, dos anos 1990 para cá, tem uma dívida com a vitrine que a Croisette abriu para nossos filmes, promovendo não só as nossas reflexões, como nosso sistema de produzir, numa troca que favoreça a diversidade do cinema europeu”, disse Luc Dardenne ao Estadão durante o fórum Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, em janeiro, sendo complementado por seu irmão.
“Nossa angústia é a condição humana e o peso que as contradições sociais, com a economia e a política, trazem para as relações”, disse Jean-Pierre. “Quando falam que nós produzimos ‘contos morais’, eu penso que esse um rótulo novo para algo secular, que é a preocupação com a condição humana e com situações que façam da submissão, seja econômica ou religiosa, um cabresto para o respeito ao próximo”.

Cena de “le Jeune Ahmed”: melhor direção em Cannes

Eles passaram pelo Rendez-Vous (evento de promoção de longas francófonos, promovidos pela instituição de fomento ao audiovisual Unifrance) com “O Jovem Ahmed” pelo qual receberam o prêmio de melhor direção em Cannes, em 2019. Trata-se de um filme-debate sobre leituras equivocadas do Alcorão. Idir Ben Addi tem uma atuação perturbadora no papel de um fiel do Islã que, no furor hormonal da adolescência, abraça o extremismo religioso a um preço alto. “O que mais nos interessa é o jovem que está ali, estrangulado por um peso cultural que seu afetos não sustentam”, questiona Jean-Pierre. “Não se trata, aqui, de debater o Alcorão. Jamais. O foco é saber quem é aquele rapaz, o que ele sente”.

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