Ira Sachs leva prosódias poéticas ao Rendez-vous Unifrance

Ira Sachs leva prosódias poéticas ao Rendez-vous Unifrance

Rodrigo Fonseca

16 de janeiro de 2020 | 17h05

Rodrigo Fonseca
Embora a cabeça da França esteja em “Les Misérables” (“Os Miseráveis”), longa concorrente ao Oscar de Filme Internacional (ex-Estrangeiro), o sotaque de Memphis, no Tennessee, falado pelo diretor americano Ira Sachs (“O amor é estranho”) trouxe uma nova prosódia para o abre do 22º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, um fórum promocional idealizado para atrair os holofotes mundiais para a nova safra da terra de Truffaut no audiovisual. A partir do evento, toda a vitalidade e a diversidade de gêneros dos franceses em circuito serão celebradas de 16 a 20 de janeiro em Paris, incluindo o trabalho de Sachs ao dirigir Isabelle Huppert e o belga Jérémie Renier em “Frankie”, um poema sobre lavação de roupa em família indicado à Palma de Ouro de 2019. A vida do cineasta estadunidense tem menos a ver com a divulgação desse belo filme, ambientado na cidade portuguesa de Sintra e fotografado por Rui Poças, e mais com a escolha dele para presidir o júri do My French Film Festival, a cota competitiva do Rendez-vous. É um espaço de debates que inclui a exibição de uma série de títulos francófonos via web, para votação popular e para a apreciação de um time de jurados profissional.
“A França me propiciou muitas descobertas cinematográficas ricas, que não tive nos Estados Unidos, como por exemplo, conhecer a obra de John Cassavetes, que é muito estudado aqui, embora fosse da América, como eu. Aqui, nesse júri, espero conhecer estéticas diferentes, já morrendo de inveja por este evento estar sendo iniciado em um prédio público, do governo, o que sugere o interesse político pela Cultura”, disse Sachs em Paris, na Sala dos Ministros, retomando uma reflexão sobre encontros culturais que dividiu com o P de Pop do Estadão ao lançar “Melhores Amigos”, em 2016. “Já trabalhei com grandes companheiros brasileiros, como o produtor Rodrigo Teixeira e o montador Affonso Gonçalves, além do meu parceiro habitual Maurício Zacharias, mas não sei se conseguiria filmar no Brasil, por não ter uma ligação direta com a cultura de vocês, embora eu pudesse resolver esse problema escolhendo um personagem histórico menos conhecido ou uma figura de pura ficção que me levasse a uma investigação”.

Ira Sachs na Sala dos Ministros de Paris

No Rendez-vous, que começa nesta quinta e segue até segunda, seus colegas de júri são a atriz Agathe Bonitzer, o ator e cineasta Brady Corbet, as diretoras Judith Davis e Michaela Pavlátová e um sul-americano, o realizador guatemalteco Jayro Bustamante. A competição a ser definida por esse coletivo reúne os curtas “Le discours d’acceptation glorieux de Nicolas Chauvin”, de Benjamin Crotty; “Diversion”, de Mathieu Mégemont; “La nuit des sacs plastiques”, de Gabriel Harel; “Pile Poil”, de Lauriane Escaffre e Yvonnik Muller; “La traction des pôles”, de Marine Levéel; “L’aventure atomique”, de Loïc Barché; “Plein Ouest”, de Alice Douard; “Une soeur”, de Delphine Girard; “Le Chant d’Ahmed”, de Foued Mansour; e “Gronde Marmaille”, de Clémentine Carrié. Concorrem ainda os longas “Jessica forever”, de Caroline Poggi e Jonathan Vinel; “La grand-messe”, documentário de Valéry Rosier e Méryl Fortunat-Rossi; “Les confins du monde”, de Guillaume Nicloux; “Exfiltrés”, de Emmanuel Hamon; “Duelles”, de Olivier Masset-Depasse; “Os Olhos de Cabul” (“Les Hirondelles de Cabul”), animação de Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec; “Perdrix”, de Erwan Le Duc; “Les Fauves”, de Vincent Mariette; “O professor substituto” (“L’heure de la sortie”), de Sébastien Marnier (já lançado no RJ, SP e outras praças); e “Les Météorites”, de Romain Laguna.

Até o encerramento do Rendez-vous 22, estima-se a presença de cerca de 100 artistas, entre atrizes de fama mundial, galãs queridos por plateias de múltiplas línguas e cineastas de veia autoral. Espera-se a vinda da diretora Céline Sciamma, em cartaz no Brasil com “Retrato de uma jovem em chamas”, que deu a ela o prêmio de melhor roteiro em Cannes; do mestre das narrativas sociológicas Robert Guédiguian, que tem o inédito “Gloria Mundi” para lançar; e a sensação dos anos 1990 Julie Delpy (que acaba de dirigir o drama “My Zoe”. E cogita-se a vinda de Michel Hazanavicius, ganhador de Oscars por “O artista” (2011), para falar de “Le Prince Oublié”. Todos eles vão passar pelo painel de tendências estéticas concentrado no Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles. Lá será a sede da 22ª edição do Rendez-vous, realizado anualmente pela Unifrance. Esse é o órgão do governo da França responsável pela manutenção e promoção da indústria audiovisual. A cada ano, a Unifrance promove um encontro reunindo cerca de 400 distribuidores de todo o planeta (incluindo a Imovision, do Brasil) para divulgar prováveis sucessos de bilheteria e experimentos narrativos com fôlego para desafiar uma série de convenções cinematográfica. É o caso do .doc “Le regard de Charles”, de Marc Di Domenico. Nele, vemos imagens inéditas do cantor Charles Aznavour (1924-2018). Há alta expectativa também em torno de “La Bonne Épouse”, de Martin Provost. É o filme de abertura do evento, apoiado no carisma de Juliette Binoche, aqui em parceria com o realizador de de “O Reencontro” (2017): uma comédia de costumes ferina. A trama ataca o sexismo dos anos 1960, a partir das angústias de uma viúva que reencontra um amor do passado num momento em que entra em crise financeira, em meio às turbulências políticas de 1968. Há quem diga que é o melhor trabalho de Juliette em uma década, pelo menos desde “Cópia fiel” (2010).

Juliette Binoche em “La Bonne Épouse”, de Martin Provost

Até o dia 21, emissários de 81 filmes vão passar pelas ruas parisienses, batendo ponto no Le Collectionneur, para um papo com cerca de 450 distribuidores e 120 jornalistas de 49 países, revelando as tendências que hão de mobilizar espectadores no planisfério cinéfilo. “Vamos aos Oscars num momento em que comemoramos uma boa entrada no exterior”, disse Serge Toubiana, presidente da Unifrance, contabilizando 40.5 milhões de ingressos vendidos pelo cinema de sua pátria, em 2019, pelo mundo afora, com um faturamento internacional estimado em 244 milhões. “Tivemos em 2019 a consagração de um grande diretor francês, que foi François Ozon, com ‘Graças a Deus’, ao ser laureado com o Urso de Ouro em Berlim. E ele tem ainda outro filme (‘Eté 84’) que, talvez, deva ficar para Cannes, em maio”.

Um dos longas mais badalados da safra do Rendez-vous em 2020 é “O Jovem Ahmed” (“Le Jeune Ahmed”), dos aclamados irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, que estreia em telas brasileiras no carnaval, em 20 de fevereiro. A dupla de diretores que reinventou o uso do realismo (e a até do naturalismo) na construção de contos morais – como “Rosetta” (2009) e “A Criança” (2005) – saiu de Cannes com o prêmio de melhor direção graças a esta reflexão sobre leituras equivocadas do Alcorão. Idir Ben Addi tem uma atuação perturbadora no papel de um fiel do Islã que, no furor hormonal da adolescência, abraça o extremismo religioso a um preço alto.

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