Ira Sachs a temperos lusos e Joia bergmaniana

Ira Sachs a temperos lusos e Joia bergmaniana

Rodrigo Fonseca

23 de outubro de 2019 | 16h14


Rodrigo Fonseca
Iguaria lusitana com temperos franceses, ingleses e (sobretudo) americanos, o pastel de natas “Frankie”, que desfilou toda a elegância do roteirista brasileiro Maurício Zacharias pelas telas de Cannes, vai ser exibido na 43ª Mostra de SP nesta quinta-feira, às 21h40, na Cinesala. Ao largo de sua projeção paulistana, a produção estreia nos EUA nesta sexta-feira, elevando o cacife do diretor Ira Sachs. Este ano, o realizador, consagrado na seara LGBTQ desde “Deixe a luz acesa” (2012), teve a chance de entrar para o seleto time dos concorrentes à Palma de Ouro. Mesmo soterrada na Croisette por titãs como Pedro Almodóvar e Tarantino e por novos queridinhos como Bong Joon-Ho, esta dramédia à moda Eric Rohmer (“O joelho de Claire”) usa a cidade portuguesa de Sintra como cenário. Miudezas da vida portuguesa adicionam gemas de ovo cultural a uma massa agridoce cujos ingredientes são as hipocrisias inerentes ao convívio familiar. Realizador de dois filmes de maturidade – “O amor é estranho”, de 2014, e “Melhores amigos”, de 2016 -, Sachs chegou à competição do mais prestigiado festival do planisfério cinéfilo apoiado numa Isabelle Huppert que debocha das convenções do cinema. Ela vive uma diva, portadora de uma doença que pode custar-lhe o viço e a vida, que arma um encontro de família para acertar conflitos domésticos. Mas o que deveria ser uma celebração frugal em Portugal vira um cenário para uma dramédia burguesa de lavação de roupa suja. A fotografia de Rui Poças, um artesão em seu apogeu, colore aqueles campos turísticos com pigmentos de uma beleza que se descasca, para revelar todo o enfado do deslumbre turístico. Completam o elenco Marisa Tomei, Jérémie Tenier, Brendan Gleeson, Carloto Cotta e um inspirado Greg Kinnear. A excelência desta longa vem dos diálogos que o brasileiro Maurício Zacharias, colaborador habitual de Sachs, constrói a partir de farpas da indústria audiovisual.
“Existe aqui uma tentativa de entendimento acerca de como as pessoas lidam com tradição e finitude, em paralelo a uma reflexão sobre o tema mais recorrente de meus filmes: aceitação”, disse Sachs ao P de Pop. “Insegurança é uma palavra essencial à discussão de como um sujeito conduz a sua vida e o quanto ele deixa de valores para seus filhos. Tentei trazer isso para este filme, em que tive maior cuidado com a depuração da imagem. Existem aqui muitas referências cinematográficas sobre o cotidiano e a rotina, começando pelo diretor japonês Yasujiro Ozu. Toda rotina tem seu encanto”.

Falando de elegâncias… vamos ao teatro: gema preciosa do patrimônio cultural do Rio, o Cine Joia, em Copacabana, assumindo sua vertente multimídia, vai sediar uma breve temporada do espetáculo “Os Analfabetos” (na foto). É um texto baseado em obras de Ingmar Bergman (1918-2007): a direção é de Adriano Petermann e a dramaturgia é de Paula Goja. Tem sessão nesta quarta-feira, às 22h30, e no dia 30. Sob os véus existenciais do realizador de “Persona” (1966), autora e diretor tecem uma rede semiológica de sentimentos trançados à incomunicabilidade e à intolerância. Em cena, Deco (Douglas Silveira) reúne amigos para uma comemoração na casa de Mariana (Stella Mariss), uma atriz que, durante uma apresentação de “Vestido de noiva”, resolve se calar perante o mundo. A sonhadora enfermeira Beth (Mariana Rosa) a acompanha em seu tratamento e, em paralelo, o casal Eva (papel de Goja) e Max (Paulo Maia) está prestes a assinar os papéis do divórcio, mas ainda dependem emocionalmente um do outro. A esse convescote, junta-se o tigre de papel chamado Luciano (Antonio Pina), que representa o alter ego do cineasta controlador. Um sujeito que aparenta ser o mais bem sucedido de todos. Mas só aparenta, neste paiol de pólvora fresca.

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