‘Introdução à Música do Sangue’: a liturgia do desejo

‘Introdução à Música do Sangue’: a liturgia do desejo

Rodrigo Fonseca

20 de junho de 2017 | 09h43

Greta Antoine é a jovem às voltas com a descoberta do desejo em “Introdução à Música do Sangue”: dia 29 de junho a produção entra em circuito

RODRIGO FONSECA
Realizador de um cult por vezes esquecido, O Princípio do Prazer (1978), além de uma série de curtas essenciais à formação da identidade LGBT em nossas telas, Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, tem uma virtude histórica de saber deslocar atrizes famosas de sua zona de conforto para representações atípicas, vulcânicas, sempre mediadas pelo interesse em provocar uma catarse das repressões cotidianas. Tem sido assim desde seu primeiro longa-metragem como realizador (após uma extensa trajetória como assistente de mestres como Nelson Pereira dos Santos), o drama Mãos Vazias (1971), no qual tirou de Leila Diniz um bicho menos sensual do que o costume, porém mais feroz. Alcançou um feito similar com Carla Daniel em Murilo & LúcioLúcio & Murilo (O Que Seria Deste Mundo Sem Paixão?), ainda inédito, dado a ela um de seus melhores papéis. Porém, na obra recente de Bigode, a mais possante abordagem da inquietude feminina está em Introdução à Música do Sangue, produção concluída em 2015 que enfim conseguiu espaço em circuito, estreando na semana que vem, no dia 29 de junho.  

“Ter no elenco uma atriz com o carisma e a experiência da Bete Mendes foi um presente dos deuses. Trabalhei com outras grandes atrizes nos meus filmes, como Leila Diniz, Odete Lara, Louise Cardoso, Betty Faria… Gosto desses verdadeiros patrimônios do cinema brasileiro. A sensibilidade feminina e sua alma são matérias com as quais trabalho com maior profundidade. Seus mistérios são um labirinto prazeroso de investigar. E Introdução traz ainda a Greta Antoine. Essa grande e tão jovem atriz foi um milagre que aconteceu nos últimos dias que antecederam as filmagens, apresentada pelo amigo Delvo Simões. Visceralidade e beleza são suas marcas”, diz o cineasta carioca, que com este atual longa devolve às telas nacionais a sensualidade à moda mineira do escritor Lúcio Cardoso (1913-1968).

Tem uma pré-estreia para convidados dele nesta terça, no Rio, às 21h, no Estação Net Rio, em Botafogo.

Dona de uma estrutura narrativa intimista, centrada num Brasil rural que andava desaparecido das telas nacionais, a produção de R$ 770 mil foi saudada, em sua primeira projeção popular, em Gramado, há cerca de dois anos, como uma surpresa poética, por destoar dos exercícios mais bem-humorados de Lacerda na direção. Nos anos 1990, o premiado For All – O Trampolim da Vitória fez dele um estandarte de excelência no terreno do humor (salpicado de erotismo e de discussão de gênero). Mas em Introdução…, ele conta com um reforço no bom desempenho do ator Ney Latorraca como um agricultor levado às raias da insanidade pelo desejo.

Bete Mendes, Bigode e Latorraca no set, em Minas Gerais

Representante brasileiro de uma tese defendida por cineasta estrangeiros como o italiano Ettore Scola e o espanhol Pedro Almodóvar, segundo a qual “desejo, logo existo”, Lacerda leva suas reflexões sobre as necessidades da carne para uma Minas Gerais sem luz elétrica, que parece atemporal. No filme, o casal Ernestina (Bete Mendes) e Uriel (Latorraca, sempre surpreendente) vive imerso em trevas em uma estância onde ele planta e ela costura. Lá, eles cuidam de uma adolescente com os hormônios em erupção (Greta Antoine). Em dado momento, o querer da moça explode e será difícil reter a lava que respinga por entre segredos, mágoas, desatenções e abusos acumulados por anos a fio.

Minha relação com a cultura das Gerais começa pela literatura. Na adolescência meu professor, o poeta Claudio Murilo Leal, me apresentou a poesia de Drummond, de Murilo Mendes, de Alfonsus de Guimarães Filho e o poema da carioca Cecilia Meireles: O Romanceiro da Inconfidência, que fez a minha ponte com os poetas inconfidentes. Mas a Minas de Introdução à Música do Sangue está na divisa do arcaico e do contemporâneo, do desejo e do pecado, do amor e do crime: é a paisagem humana em toda sua complexidade de sentimentos, cortada pelos rios misteriosos da paixão”, poetiza Lacerda, que completou 50 anos de cinema em 2015.

Armando Babaioff: da terra nascem os homens e as pulsões de morte

Decalcada de um argumento inacabado deixado por Lúcio, com quem o pai de Bigode trabalhou em A Mulher da Longe (1949), essa trama é filmada apenas com iluminação natural por Alisson Prodlik, um dos mais talentosos representantes da nova geração de fotógrafos do cinema brasileiro. Prodlik reforça o tom brutalista de uma Minas de pulsões retesadas sobretudo na presença do personagem do vaqueiro vivido por Armando Babaioff (astro da melhor montagem teatral do ano no país, Tom na Fazenda), que vem desestruturar a paz na família de protagonistas. “O Lucio me deu esse argumento, inacabado, em 1968, quando eu fiz o meu primeiro curta-metragem como diretor, O Enfeitiçado. Só que eu perdi esse material e só o reencontrei em 2012, no acervo do Museu da Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa, pesquisando para o doc que fiz sobre A Mulher de Longe”, diz o cineasta. “Lúcio é um dos pilares do chamado ‘romance de introspecção psicológica’. Mergulhado na alma humana, sua obra significou um corte radical , na contramão de romances influenciados pelo realismo socialista”.

 

 

 

 

 

Tendências: