Introdução à música de Bigode no Estação Virtual

Introdução à música de Bigode no Estação Virtual

Rodrigo Fonseca

06 de maio de 2021 | 11h48

RODRIGO FONSECA
Tem um mar de filmes – são 180! – no Festival Estação Virtual – 35 Anos de Cinema Brasileiro, que pode ser acompanhado no www.grupoestacao.com.br, incluindo pérolas recentes como “Introdução à Música do Sangue”. A direção é de Luiz Carlos Lacerda, um dos realizadores de verve autoral convocado pelo evento, cuja curadoria é de Adriana Rattes, Cavi Borges, Liliam Hargreaves, Anna Fabry, Bebeto Abrantes, Fabrício Duque e Luiz Eduardo Pereira de Souza. Tem joias ali, como “A Febre”; “A Hora da Estrela”, “Lá do Alto”, “Ralé” e “Lavoura Arcaica”. Realizador de um cult por vezes esquecido, “O Princípio do Prazer” (1978), além de uma série de curtas essenciais à formação da identidade LGBTQ+ em nossas telas, Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, tem uma virtude histórica de saber deslocar atrizes famosas de sua zona de conforto para representações atípicas, vulcânicas, sempre mediadas pelo interesse em provocar uma catarse das repressões cotidianas. Tem sido assim desde seu primeiro longa-metragem como realizador (após uma extensa trajetória como assistente de mestres como Nelson Pereira dos Santos), o drama “Mãos Vazias” (1971). Ali, ele qual tirou de Leila Diniz um bicho menos sensual do que o costume, porém mais feroz. Alcançou um feito similar com Carla Daniel em “Murilo & Lúcio, Lúcio & Murilo (O Que Seria Deste Mundo Sem Paixão?)”, dando a ela um de seus melhores papéis. Porém, na obra recente de Bigode, a mais possante abordagem da inquietude feminina está em “Introdução à Música do Sangue”, produção concluída em 2015. “Ter no elenco uma atriz com o carisma e a experiência da Bete Mendes foi um presente dos deuses”, disse o cineasta carioca à época da estreia do filme, no Festival de Gramado de 2015.
Com esse longa, Bigode devolve às telas nacionais a sensualidade à moda mineira do escritor Lúcio Cardoso (1913-1968). “Trabalhei com outras grandes atrizes nos meus filmes, como Leila Diniz, Odete Lara, Louise Cardoso, Betty Faria… Gosto desses verdadeiros patrimônios do cinema brasileiro. A sensibilidade feminina e sua alma são matérias com as quais trabalho com maior profundidade. Seus mistérios são um labirinto prazeroso de investigar. E ‘Introdução’ traz ainda a Greta Antoine. Essa tão jovem e já grande atriz foi um milagre que aconteceu nos últimos dias que antecederam as filmagens, apresentada por um amigo, o Delvo Simões. Que atriz visceral”.

Bete Mendes tem uma atuação exemplar

Dona de uma estrutura narrativa intimista, centrada num Brasil rural que andava desaparecido das telas nacionais, a produção de R$ 770 mil foi saudada, em sua primeira projeção popular, em Gramado, como uma surpresa poética, por destoar dos exercícios mais bem-humorados de Lacerda na direção. Nos anos 1990, o premiado “For All – O Trampolim da Vitória” fez dele um estandarte de excelência no terreno do humor (salpicado de erotismo e de discussão de gênero). Mas em “Introdução…”, ele conta com um reforço no bom desempenho do ator Ney Latorraca como um agricultor levado às raias da insanidade pelo desejo.
Representante brasileiro de uma tese defendida por cineasta estrangeiros como o italiano Ettore Scola e o espanhol Pedro Almodóvar, segundo a qual “desejo, logo existo”, Lacerda leva suas reflexões sobre as necessidades da carne para uma Minas Gerais sem luz elétrica, que parece atemporal. No filme, o casal Ernestina (Bete Mendes) e Uriel (Latorraca, sempre surpreendente) vive imerso em trevas em uma estância onde ele planta e ela costura. Lá, eles cuidam de uma adolescente com os hormônios em erupção (Greta Antoine). Em dado momento, o querer da moça explode e será difícil reter a lava que respinga por entre segredos, mágoas, desatenções e abusos acumulados por anos a fio.

Decalcada de um argumento inacabado deixado por Lúcio, com quem o pai de Bigode trabalhou em “A Mulher da Longe” (1949), essa trama é filmada apenas com iluminação natural por Alisson Prodlik, um dos mais talentosos representantes da nova geração de fotógrafos do cinema brasileiro. Seu trabalho em “Os Príncipes” (2019), por exemplo, é memorável. Prodlik reforça o tom brutalista de uma Minas de pulsões retesadas sobretudo na presença do personagem do vaqueiro vivido por Armando Babaioff, que vem desestruturar a paz na família de protagonistas. “O Lucio me deu esse argumento, inacabado, em 1968, quando eu fiz o meu primeiro curta-metragem como diretor, ‘O Enfeitiçado’. Só que eu perdi esse material e só o reencontrei em 2012, no acervo do Museu da Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa, pesquisando para o doc que fiz sobre ‘A Mulher de Longe’ e seu legado”, diz o cineasta. “Lúcio é um dos pilares do chamado ‘romance de introspecção psicológica’. Mergulhado na alma humana, sua obra significou um corte radical na contramão de romances influenciados pelo realismo socialista”.

p.s.: Corre pela web o trailer de “Benedetta”, de Paul Verhoeven. Esperado desde 2019, o novo longa-metragem do gênio por trás de “Elle” (2016) promete polêmica ao explorar (e devassar) as mitologias católicas a partir da saga de uma freira do século XVII, dotada de poderes especiais, que entra em ascese ao viver uma paixão lésbica. Virginie Efira assume o papel principal.

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