Intocáveis corações de Cannes se preparam para receber ‘Hors norme’

Intocáveis corações de Cannes se preparam para receber ‘Hors norme’

Rodrigo Fonseca

25 de maio de 2019 | 05h44

Rodrigo Fonseca
Ainda sob o batuque da vitória de Karim Aïnouz e seu “A vida invisível de Eurídice Gusmão” na mostra Un Certain Regard, o 72º Festival de Cannes se prepara para uma overdose de emoção (e de açúcar) hoje com os resultados da Palma de Ouro com a projeção de gala de sua atração de encerramento, a comédia motivacional “Hors norme”. Estrelada Vincent Cassel e Reda Kateb, a produção acompanha o cotidiano de educadores dedicados a crianças com autismo. Com estreia marcada para outubro, o longa-metragem é assinado por Olivier Nakache e Éric Toledano, realizadores do fenômeno “Intocáveis”, de 2011.

Parece até coincidência o fato de a refilmagem americana de “Intocáveis” ter virado líder das bilheterias dos EUA, ao arrecadar US$ 20 milhões em sua arrancada por lá justamente às vésperas de uma homenagem para a dupla de realizadores do filme original, em janeiro, no Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, em Paris. O evento em questão é um misto de festival e fórum de negócios em que a Unifrance, órgão que promove o audiovisual da França, revela seus títulos de maior peso (comercial e autoral) do ano. Em meio a esse encontro de talentos, o Ministério da Cultura francês concedeu uma honraria oficial a Toledano e Nakache pela oxigenação que eles trouxeram para a saúde financeira dos exibidores de sua pátria. Como? Bom, há oito anos, a história deles sobre um milionário tetraplégico que redescobre o sabor de sorrir ao contratar um malandrão como seu cuidador contabilizou 19 milhões de ingressos vendidos só em sua nação de origem, arrecadando mundialmente US$ 426 milhões.
“Tudo o que a gente buscava ali era fazer uma crônica de costumes sobre as coisas simples da vida, como a solidariedade e o respeito ao próximo. Temos uma predileção por histórias que busquem humor na troca de culturas e de experiências de vida”, disse Toledano ao Jornal do Brasil, no Festival de San Sebastián, em setembro, na Espanha. “Nem a gente esperava que um filme sobre amigos pudesse viajar o mundo como “Intocáveis” viajou. Mas a amizade é um bem universal”.

Nakache e Toledano ainda colhem os frutos do remake de seu maior sucesso nos Estados Unidos, batizado por lá como “The upside”. Aqui, a produção de US$ 37,5 milhões pilotada por Neil Burger chegou com o título de “Amigos para sempre”, tendo Kevin Hart e Bryan Cranston (o eterno Walter White da série “Breaking bad”) nos papéis que foram de Omar Sy e François Cluzet, respectivamente.

“É difícil construir um grande personagem… alguém que fique, como Walter White ficou. Aqui temos uma história que bate nas pessoas”, disse Cranston ao Estadão, na abertura do Festival de Berlim de 2018, quando lançava a animação “Ilha dos Cachorros” (na qual é dublador), em paralelo à carreira de “Amigos para sempre” por mostras dos EUA, em Denver e na Filadélfia. “Fazer arte dá trabalho, envolve desafiar clichês e tabus, mas, traz como compensação uma série de lições sobre o nosso tempo, entre elas a percepção de que vivemos dias difíceis, de muita intolerância, o que demanda histórias de esperança, fábulas”.

Há uma dimensão quase fabular no encontro de um aristocrata amargurado e um pobretão cheio de vida, capaz de fazer seu patrão, um cadeirante desencantado, recuperar a vontade de viver. Essa centelha de perseverança fez com que “Intocáveis” ganhasse uma série de versões em outros países. No Brasil, o filme foi transformado em peça de teatro, com Ailton Graça e Marcelo Airoldi, em 2015. Um ano depois, os argentinos adaptaram a trama da França para a América do Sul, com Oscar Martínez e Rodrigo De La Serna – o filme foi traduzido por aqui como “Inseparáveis”. Agora é a vez de Kevin Hart (o quase apresentador do Oscar deste ano, afastado por boicotes a declarações passadas do ator, consideradas politicamente incorretas) usar seu histrionismo para desafiar a sisudez do personagem de Cranston.

“O maior desafio em torno do legado de ‘Intocáveis’ é encarar o preconceito contra a dimensão artística, autoral, da comédia como gênero”, disse Nakache ao P de pop. “Nós fizemos uma mistura de drama e humor que deu certo e buscamos fugir da repetição de fórmulas, em um flerte com outras formas de fazer rir, como os longas ‘Samba’ e ‘Assim é a vida’. Mas é bonito ver que a história que concebemos quase uma década atrás, sem nenhuma expectativa, siga viajando e entrando em circuitos de arte tomados por filmes mais intelectualizados. É a vitória do riso e da simplicidade”.

Tendências: