‘Intocáveis’ adoça a ‘Sessão da Tarde’

‘Intocáveis’ adoça a ‘Sessão da Tarde’

Rodrigo Fonseca

18 de agosto de 2020 | 11h33

“Intocáveis” faturou US$ 426 milhões nas bilheterias

Rodrigo Fonseca
Divisor de águas na relação do cinema francês com plateias estrangeiras de outras línguas, por redefinir a medula folhetinesca das dramédias a partir de fatos reais, o quindim “Intocáveis” (“Intouchables”, 2011), que vendeu 19 milhões (!) de ingressos em seu país e faturou US$ 426 milhões mundialmente, vai ganhar a TV aberta brasileira nesta terça, às 15h, na Globo. É um jubilo ver a tradicional “Sessão da Tarde” afinada com sucessos de outras línguas que não só o inglês. Pilotado pela dubla de realizadores Olivier Nakache e Éric Toledano, o longa-metragem vai ser exibido em versão brasileira, com o mestre Nelson Machado dublando François Cluzet e com Affonso Amajones dando a voz ao banho de descarrego que Omar Sy nos dá em sua atuação. Há uma dimensão quase fabular no encontro de um aristocrata (Cluzet) amargurado pela morte de sua mulher e pela perda do movimento das pernas e um pobretão (Sy) cheio de vida, capaz de fazer seu patrão, um cadeirante desencantado, recuperar a vontade de viver. Essa centelha de perseverança fez com que “Intocáveis” ganhasse uma série de versões em outros países. No Brasil, o filme foi transformado em peça de teatro, com Ailton Graça e Marcelo Airoldi, em 2015. Um ano depois, os argentinos adaptaram a trama da França para a América do Sul, com Oscar Martínez e Rodrigo De La Serna – o filme foi traduzido por aqui como “Inseparáveis”. Nos EUA, em 2018, ele virou “Amigos Para Sempre”, com Kevin Hart, Bryan Cranston e Nicole Kidman.
“Tudo o que a gente buscava ali era fazer uma crônica de costumes sobre as coisas simples da vida, como a solidariedade e o respeito ao próximo. Temos uma predileção por histórias que busquem humor na troca de culturas e de experiências de vida”, disse Toledano ao Estadão P de Pop no fórum Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, em Paris, em janeiro. “Nem a gente esperava que um filme sobre amigos pudesse viajar o mundo como ‘Intocáveis’ viajou. Mas a amizade é um bem universal”.

Repetir um êxito de proporções fenomenais nem sempre é fácil no cinema. Mas, no caso, de Toledano e Nakache, a trajetória segue das mais gloriosas, a julgar pelo trabalho mais recente da dupla, “Mais que Especiais” (“Hors Norme”), que levou 1,9 milhão de pagantes às salas exibidoras da França em seu primeiro mês em cartaz, vindo de uma aclamada passagem pelo Festival de Cannes de 2019, onde encerrou as atividades da Croisette. Centrado no cotidiano de dois instrutores de crianças e jovens autistas, buscando a integração deles numa Europa lotada de imigrantes, o tocante longa-metragem dos diretores de “Samba” (visto por 3 milhões de franceses em 2014) e de “Assim é a Vida” (prestigiado por 2,8 milhões de pessoas em Paris, Marselha e arredores) foi laureado com o prêmio de júri popular no Festival de San Sebastián, em outubro. O longa ainda concorreu ao César, o Oscar da França, em nove categorias. Sua trama nasce da experiência de dois capacitadores de jovens que convivem com autismo: Stéphane Benhamou e Daoud Tatou. Ao observar a luta de ambos para integrar adolescentes de baixa renda, Toledano e Nakache criaram os personagens Malik (Kateb) e Bruno Haroche (Cassel). Este último tem uma atuação em estado de graça, vivendo um judeu cinquentão que mantém uma ONG ligada ao apoio à socialização de autistas. Numa das cenas de maior tensão do roteiro, ele corre a pé por uma via expressa de alta velocidade para salvar um rapaz.

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