‘Intervenção’, um ‘Rastros de Ódio’ nas UPPs

‘Intervenção’, um ‘Rastros de Ódio’ nas UPPs

Rodrigo Fonseca

31 de dezembro de 2021 | 12h47

Marcos Palmeira tem uma das melhores atuações de sua carreira no papel de um John Wayne no faroeste da Segurança Pública carioca no imperfeito, mas imperdível “Intervenção”

RODRIGO FONSECA
Existe um quê de “Rastros de Ódio” (“The Searchers”, 1956) em “Intervenção”, de Caio Cobra, que chegou à streaminguesfera no apagar das luzes de 2021, cerca de dois anos após sua exibição pelo Festival do Rio, quando consagrou as múltiplas habilidades de sua protagonista, Bianca Comparato, de se reinventar. É um filme imperfeito, mas imperdível. Imperfeito por algumas apressadas avaliações geopolíticas sobre o Rio, em especial no que tangencia a luta em prol das potências das favelas e o empenho das populações periféricas de transpor toda a vulnerabilidade de que é refém, entre o tráfico e a corrupção policial, recusando a vitimização e apostando na reinvenção cotidiana. Imperdível pelo delicado estudo da psique de seus personagens, em especial Douglas, oficial que dá a Marcos Palmeira um dos desempenhos mais luminosos de sua carreira em anos. Pra quem brilhou em “Renascer” (1993), “O Canto da Sereia” (2012) e em “Boca de Ouro” (2019), a figura de um Ethan Edwards das UPPs (esse é o nome do soldado e pistoleiro vivido por John Wayne em “Rastros…”) é quase uma reinvenção de perfil, de persona. E ele encara o arquétipo do leão ferido pela vida com garra e graça. Não bastasse a interpretação de Bianca e de Palmeira – e a azeitada montagem de Marcelo Moraes -, o longa-metragem da produtora Media Bridge, roteirizado por Rodrigo Pimentel e Gustavo Almeida, abre uma necessária discussão sobre “cinema de gênero” no país. É válido para o que chega no circuito e (muito) válido para o que vem sendo confeccionado pra streaminguesfera, vide “Arcanjo Renegado” na Globoplay, “Dom”, na Amazon Prime, e “Cabras da Peste”, na Netflix. Aliás é no grande N que está o longa com Comparato, Palmeira & cia.

Sempre que se conversa sobre “filme de gênero” na intelligentsia do Cinema Brasileiro, papo descamba para o terror e suas múltiplas vertentes, sem levantar em consideração o quanto esta seara é bem resolvida entre nós, desde as primeiras experiências de José Mojica Marins (1936-2020) como Zé do Caixão, a partir de 1964. Nos Quintos dos Infernos nos saímos bem. O problema para um país que teve a fantasia sustada por ranços sociológicos – permitindo-se só o realismo mágico de Dias Gomes e poucos outros mais… e olhe lá… – são os demais filões, em especial aqueles em que a concorrência estrangeira deita e rola. A Itália, por exemplo, fez uma adaptação de HQs – “Diabolik” com Luca Marinelli – para peitar a hegemonia absoluta do novo “Homem-Aranha”. Aliás, historicamente, pós neorrealismo, os italianos não deixaram travas ideológicas das Ciências Sociais impedirem incursões pelo faroeste (com o spaghetti), pelo épico de aventuras (o Peplum, ou “filme de gladiador”), pelo terro (com o Giallo) e pela comédia erótica (com as pornochanchadas de Tinto Brass). Por aqui, muito se apostou em gêneros nos tempos da Boca do Lixo, indo de “Rogo a Deus e Mando Bala” (1972) a “Snuff – Vítimas do Prazer” (1977), sem contar toda a tradição do nordestern (“O Cangaceiro” foi laureado em Cannes, em 1953, como Melhor Filme de Aventura). Saímo-nos igualmente bem no campo dos longas para crianças e adolescentes, com os Trapalhões indo das Minas do Rei São Salomão (em 1977) ao Mistério de Robin Hood (em 1990). E, agora, com o delicadíssimo “Lições”, de Daniel Rezende, a Turma da Mônica regressa às telas, revivendo a potência do quadrinho nacional. Uma potência que foi moralmente rechaçada com a estreia do ótimo “O Doutrinador” (2018), em parte pela inabilidade de lidarmos com o mais patrulhados de todos os gêneros: a ação. Tanto é que o país confunde – e muito – a ideia do thriller social ou thriller político (fundada por Francesco Rosi em “O Bandido Giuliano”, em 1962, e bem lapidada por Costa-Gavras em “Z”) com “filme de ação”. “Cidade de Deus”, que completará 20 anos no dia 3 de agosto, é um filme COM ação, não um FILME DE AÇÃO. O mesmo vale para “Tropa de Elite”. Raciocínio similar se aplica a ancestrais de ambos, como “O Assalto ao Trem Pagador” (que vai comemorar 60 anos em 2022) e “Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia” (1977). Diferentemente do que se vê em um “Rambo II: A Missão” (1985), em um “Máquina Mortífera” (1987) ou num “Duro de Matar” (1988), a violência ali não é o espetáculo em si e sua catarse não se pela troca de tiros e, sim, por uma troca de ideias acerca da fonte social (e política) desses tiroteios.

Apesar de haver um par de boas sequências de adrenalina em sua narrativa, sobretudo uma que se passa em paralelo a uma festinha de crianças, “Intervenção” não se resume a ser um “Braddock” na Lagoa, não quer ser “um filme de Chuck Norris nas favelas”. Seu interesse está na cartografia dos desajustes que estão na conta das Unidades de Polícia Pacificadora. Isso se desenha no diálogo de um prostrado Douglas (Palmeira, excepcional em cena) com o líder do Morro da Lage, Sapão (André Ramiro, o aspira de “Tropa de Elite”). É uma conversa sobre os limites da Lei. De um lado vem a lei da farda; do outro, a lei do “movimento”; e ainda existe a lei da corrupção, encarnada pela figura de Antonio Grassi, como um jurista de mal com o Bem. O idealismo da recruta Larissa (papel de Bianca) é fundamental para que Douglas entenda seu lugar num microcosmos que é regido parte por vetores de interesse econômico externo, parte por balas – algumas delas, pedidas… outras, perdidas de propósito. A dor de Douglas ferve frente ao empenho de Larissa, criando uma relação de mestre e aprendiz que garante ao longo uma áspera beleza. E uma essencialidade, sobretudo nesta virada de ano. A presença de Babu Santana é um mimo à parte para o espectador, no papel de um tira que faz bico de Lobo Mau em festinhas infantis. A fotografia eivada de tons plúmbeos (cor de chumbo) de Enio Berwanger traduz o peso de uma cidade partida.

p.s.: Tem “Explode Coração”, com Dara e o Cigano Igor, na grade da Globoplay. Corre lá. Sabe o que mais tem por lá? ‘MARIGHELLA’, de Wagner Moura (Brasil). Travado há cerca de dois anos e nove meses, desde sua exibição na Berlinale de 2019, o thriller político que marca a estreia do eterno Capitão Nascimento como realizador incendiou corações num pleito contra o desgoverno presente. Com sequências de ação dignas de um filme de Vin Diesel, a produção se apoia no carisma de Seu Jorge para reviver os feitos do deputado e poeta Carlos Marighella contra a ditadura. O desempenho de Bruno Gagliasso como o policial Lúcio é para ser aplaudido de pé.

p.s.2: Feliz Ano Novo!

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