Instantâneos do desamparo no belo ‘Mais Forte Que Bombas’

Instantâneos do desamparo no belo ‘Mais Forte Que Bombas’

Rodrigo Fonseca

06 de abril de 2016 | 09h40

Jonah (Jesse Eisenberg) dá conselhos ao irmão rebelde Conrad (Devin Durand) no longa

Jonah (Jesse Eisenberg) dá conselhos ao irmão rebelde Conrad (Devin Durand) no longa “Mais Forte Que Bombas”, em cartaz a partir de quinta no Brasil e nos EUA

Acolhido no Festival de Cannes de 2015 com uma ovação motivada, sobretudo, pela excelência de um roteiro capaz de oxigenar as fórmulas do melodrama, Mais Forte Que Bombas (Louder Than Bombs) é um ensaio nas raias da poesia sobre a fragilidade masculina, analisada a partir do seio familiar. Uma crônica sobre o emasculamento. Não por acaso, é uma força feminina o que tira seus homens do prumo pela pior das formas de opressão: o luto. Isabelle Huppert é a mãe eternizada na ausência: uma fotógrafa de guerra aclamada mundo afora que morre em uma de suas reportagens. Já de cara, o espectador é impactado pela certeza de sua perda. Porém, mais do que saudades, ela deixa segredos, que conheceremos, cena a cena, não apenas por flashbacks mas pela expressão de dor, de remorso e mesmo de vergonha de seu marido e de seus filhos. E, na Morte, ela se torna uma sombra que sufoca os personagens com construídos sob a rígida direção do dinamarquês Joachim Trier, realizador do premiado Oslo, 31 de Agosto (2011).

Pecados de guerra: Isabelle Huppert é a mãe morta que deixa segredos e delitos como herança

Pecados de guerra: Isabelle Huppert é a mãe morta que deixa segredos e delitos como herança em meio a suas fotografias

Para nadarmos no mar de amargor no qual os machos da família Reed se afogam, até chegarmos ao porto seguro do afeto, Trier nos oferece como rota a observação o processo de amadurecimento do filho mais moço da morta: Conrad, encarnado pelo talentoso Devin Durand. Sua agressividade e seu autismo digital (traduzido na imersão cotidiana em seu computador) são formas de abalar a paz de um pai despedaçado pelo sofrimento: Gene, encarnado pelo irlandês Gabriel Byrne (da série Em Terapia), um dos atores mais talentosos da Europa.

Ainda apaixonado pelo fantasma de uma esposa perfeita, cuja perfeição vai sendo atomizada a cada virada do script, Gene vive numa luta diária para se conectar com Conrad e para buscar o filho mais velho de volta para seu convívio: Jonah, encarnado pelo atual (e genial) Lex Luthor do obrigatório Batman vs. Superma, Jesse Eisenberg. Jonah se orgulha de seu equilíbrio e retidão, mas é dominado pela incerteza, marcado pela incapacidade de lidar com as mulheres. São, na prática, três órfãos carentes do carinho de uma (oni)presença uterina arrancada deles pela violência do mundo. É nessa percepção que o filme se política, fazendo jus ao título ao mostrar que Mais Forte Que Bombas é o desamparo deixado pela brutalidade.

Para propor essa reflexão, Trier usa cânones melodramáticos – ao usar temas como infidelidade e amizade entre irmãos – mas dá a eles um tratamento visual arejado, numa narrativa de montagem febril.

 

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