Injustiçado, ‘Morbius’ bebe o sangue do streaming

Injustiçado, ‘Morbius’ bebe o sangue do streaming

Rodrigo Fonseca

02 de julho de 2022 | 15h04

RODRIGO FONSECA
Injustiçado até a medula, espancado em críticas apressadas e esnobado por marvetes, apesar de ter arrecadado US$ 163 milhões, “Morbius” chegou à streaminguesfera, via HBO MAX. Tá lá ao alcance de um clique, à espera de uma avaliação que ressalte seus atributos. Muito melhor do que seu trailer prometia, apoiado na vontade de potência de um ator em estado de graça chamado Jared Joseph Leto, esse feérico longa-metragem não é um filme de super-herói. É, sim, um filme de vampiro, que dialoga mais com “Nosferatu” (1922) de F. W. Murnau do que com o beabá rasteiro das narrativas de Easter Eggs do cinema Disneylândia. Nestes tempos em que “The Boys” nos garante o “herogasm”, a atuação de Leto é uma iguaria fina. O filme é fino sobretudo na forma, com um diálogo radical com a linguagem das HQs Marvel dos anos 1970, em que a exploitation guiava a editora, garantindo-lhe mais liberdade criativa sobretudo no terreno da Sociologia, no debate da inclusão, no empenho em dar protagonista a personagens no limiar da moral. Michael Morbius é um deles. E sua cruzada em busca da cura para uma doença em seu sangue – uma cruzada a princípio altruísta, capaz de ajudar a Humanidade, que vai, pouco a pouco, mostrando-se egoísta – evoca o esquecido “Lobo” (1994), pérola de Mike Nichols (1931–2014). Só por essa evocação o longa-metragem do sueco de origem chilena Daniel Espinosa (de “Protegendo o Inimigo”) já mereceria uma atenção das boas. Mas o espetáculo pop repleto de ação e de assombro que ele leva às telas neste fim de semana, amparado no carisma atormentado de Leto (costumeiramente dublado aqui por Clécio Souto) vai muito além disso. O que víamos no cult maldito de Nichols era um enredo que usava a licantropia (maldição capaz de transformar pessoas em lobisomens ou criaturas afins) como metáfora para a evolução da espécie… mas também uma analogia pra fome. Fome por progresso ou fome por poder e controle. De um lado, animal, havia Jack Nicholson. Do outro, humano, demasiadamente humano como Caim, havia James Spader. Nicholson virava bicho ao ser abocanhado por um lupino. Spader queria virar predador, para ser mais do que é, a fim de alimentar sua ambição. É essa a situação que vemos na trama rodada por Espinosa com base em um roteiro de Matt Sazama e Burk Sharpless, inspirado no personagem de HQs criado por Roy Thomas e Gil Kane (1926-2000) no gibi “The Amazing Spider-Man #101”, em outubro de 1971.

Michael Morbius (Leto) é um hematologista aclamado que, após rejeitar o Prêmio Nobel, alegando não estar com sua pesquisa pronta para láureas, engata um estudo com morcegos a fim de encontrar uma fórmula para sintetizar hemácias e leucócitos. Eis que os experimentos dão errado e infectam seu corpo, transformando-o em uma espécie de vampiro. O Vampiro Vivo, como dizem os reclames da Marvel. Morbius cavouca perigos atrás do elixir rubro da vida. Elixir esse que, no filme, ele vai disputar com Milo, algo que arranca uma interpretação memorável de Matt Smith, o Dr. Who. Que atuação cheia de graça! É ele que vinca o filme a “Lobo”.
Dublado por Thadeu Matos, Milo é um amigo de infância de Morbius. Os dois crescem juntos, ambos doentes. Mas Milo vai pelo caminho da perversão e da corrupção, conseguindo seu dinheiro de modo escuso, a fim de apoiar as pesquisas do amigo, sob os auspícios de um médico encarnado por Jared Harris. No futuro, quando Morbius é contaminado, Milo deseja provar dos mesmos químicos que o transformam, não para se curar, mas para alcançar poderes de vampiro. Ali surge uma guerra e um duelo de dois atores em estado de graça. Duelo esmerilhado a efeitos visuais de peso, deitados no colchão macio na fotografia de Oliver Wood (“U-571: A Batalha do Atlântico”), que reaproxima a porção audiovisual da Marvel do terror, onde ela nasceu. Em 1998, o êxito de “Blade, O Caçador de Vampiros”, com Wesley Snipes, foi a pedra fundamental do império que abriu a Caixa de Pandora da Casa das Ideias (apelido da editora nos EUA) pro circuito exibidor, transformando-o num veio inesgotável. A streaminguesfera também acolheu bem as revistas marvetes, a se destacar na também injustiçada minissérie “Cavaleiro da Lua”, com Oscar Isaac e Ethan Hawke, na Disney +. Vale conferi-la. Mas, antes, passa lá na HBO Max pra aplaudir o show de Leto em “Morbius”. É um dos melhores e mais irrequietos atores de sua geração, que foi muito injustiçado em “Casa Gucci” e brilhou em “Os Pequenos Vestígios”.

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