Ingrid Guimarães, a Mulher-Maravilha da neochanchada

Ingrid Guimarães, a Mulher-Maravilha da neochanchada

Rodrigo Fonseca

03 Janeiro 2018 | 02h15

Ângela (Ingrid Guimarães) observa a maturidade bater à porta da filha Malu (Larissa Manoel) em “Fala Sério, Mãe!”

Rodrigo Fonseca
Único leucócito em defesa do audiovisual brasileiro num organismo de exibição com os vasos entupidos de atrações estrangeiras, Fala Sério, Mãe!, lançado na virada do ano, não é um quaquaquá sobre maternidade: é um ensaio comovente (e bem engraçado) sobre cumplicidade. Interessa mais a ele o abrigo que existe em cada abraço do que o esgar passageiro de uma piada para cumprir tabela. Há, em cada palmo dos 15 e tantos anos de convivência entre Malu (Larissa Manoela, uma acrobata de gestos finos) e sua mãe, Ângela, muitas deixas para risadas, em especial na tomada dedicada a um ônibus escolar. Mas elas são apenas cobertores de lã para o frio encanado que vai se espalhando pela narrativa, a inflar e tremular a biruta de orientação empunhada pelo diretor Pedro Vasconcelos (aqui em seu trabalho mais maduro), sinalizando fins de ciclo, conflitos irreconciliáveis da Mãe Natureza com os sentimentos possessivos de quem ama o incondicional amor de gestação. E o que nos dá essa medida de saúde afetiva é um glóbulo todo saltitante, cheio de graça mesmo quando se faz parecer desengonçado, chamado Ingrid Guimarães. Ela é a Gal Gadot da neochanchada. Seu laço que impõe a verdade (do humor) nos amarra toda a vez que ela arregala os olhos e mostra as canjicas em seus lábios. Ingrid é a Mulher-Maravilha do cinema para multidões… e é assim não por mobilizar as massas, mas por traduzir, a cada papel, com a singularidade da boa atriz que é, as carências que nossas crises financeiras não soterram – aliás, pelo contrário, elas só aumentam com nossas inseguranças materiais. Se Dercy Gonçalves celebrizou nosso jeitinho pícaro de sair dos problemas pela tangente da inteligência… se Sonia Braga encarnou nosso desejo regado a dendê, Ingrid traduz com a carinha de “me dá colo” as veias abertas de uma América Latina que sofre não só pela falta de $, mas de afago. E dessa falta a Sociologia não dá conta. Ela não tem partido.

Amor materno na versão para as telas do best-seller de Thalita Rebouças

Em meados dos anos 2000, gostando-se ou não da política que foi vigente em nossa Presidência naqueles dias, houve um programa de reforma econômico que incluiu as classes C e D numa pirâmide identitária de subjetividades. Foram anos de emergência financeira: não emergência como desastre, mas como progresso. E nesse período, em que o crédito possibilitou às classes outrora desvalidas (e invisíveis) o direito de serem notadas (pela aquisição de bens), criou-se um novo cogito cartesiano aqui neste país: consumo, logo existo. Esperava-se que nossa Literatura desse conta desse fenômeno da Era Lula (e de parte da Era Dilma), mas não deu: estava ocupada demais com a blogosfera ou com a autoficção para isso. O Teatro também não teve êxito. Já a TV… esta arriscou e acertou (em cheio) com a telenovela Cheias de Charme (2012). Mas, bem antes da telinha, a telona o fez, com De Pernas Pro Ar (2010), uma explosão de bilheteria no qual Ingrid era uma Meg Ryan de Vicente de Carvalho: uma emergente que buscava o prazer na satisfação profissional. Dali vieram Qualquer Gato Vira-Lata (2011); Até Que a Sorte Nos Separe (2012); Vai Que Cola (2015); Um Suburbano Sortudo (2016) e por aí vai, numa linha de êxitos que pavimentaram a estrada da dita neochanchada (comédia ligeira de registro das intempéries sociais do povão).

Ora arisca, ora manhosa, mas sempre a gatinha à la Goldie Hawn de que o imaginário nacional necessitava, Ingrid viveu, na telona, múltiplos amores e muitas maternidades, ensinando pra gente o modo brasileiro de manipular o objeto pintiagudo (que causa tétano) chamado amor. Mas os anos passaram. Lula terminou o mandato. Dilma não teve o mesmo direito. Novos gestores chegaram: Temer está aí. Mas a euforia da emergência das classes C e D parece acabado, com a explosão da bolha de crédito. Aliás, quem era de classes mais altas até desceu do Olimpo, na dança das cadeiras da crise. Com um cenário desses, o riso não é mais o mesmo. Os filhos estão partindo… Os ninhos estão ficando vazios. Por isso, a neochanchada da vez é menos celebrativa e mais pé no chão: fala de peitos mordidos por bebês, cólicas menstruais, separações sem conciliação. Inspirado na prosa best-seller (e necessária) de Thalita Rebouças, o belo Fala Sério, Mãe! é fogo que arde e dói, por ser um produto do Agora histórico, por ser um sintoma do Contemporâneo.

Apoiado no script por Ingrid, pela própria Thalita, por Dostoiewski Champangnatte e por Pedro Vasconcelos, o Neal Israel da comédia brasileira contemporânea, o roteirista Paulo Cursino, dá ao espectador, em Fala Sério, Mãe!, um inventário de cicatrizes e colisões irretrocedíveis, na qual a fotografia algumas vezes “lavada” acentua o perfil de painel de relações. Com vasta experiência na TV, como ator e diretor, e saído de duas experiências de longa metragem no cinema (Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 2017; e O Concurso, de 2013), Vasconcelos encontra aqui (enfim) uma (bem-vinda) identidade – além de um ethos e de um logos próprio – como cineasta, falando de feridas inerentes à conjugação cotidiana do verbo “amar”. E Ingrid entra nisso como a mãe descabelada que faz do zelo sua Estrela de Belém. Isso até Fábio Jr. aparecer… numa sequência inesquecível… de uma atriz difícil de esquecer e que aqui demarca definitivamente seu lugar entre os patrimônios de nosso cinema. E ó… vale um aplauso o empenho do ótimo Marcelo Laham como o maridão de Ângela. Ele já havia brilhado na peça E Se Eu Não Te Amar Amanhã?, de Julia Spadaccini, e aqui tem seu quinhão de luz, numa dobradinha azeitada com Ingrid. Esta, aliás, acaba de filmar O Sofá, do bamba autoral Bruno Safadi, que promete subverter nossas certezas sobre hecatombes morais.

p.s.: Cada trocado que pinga na conta de Os Parças faz bem a TODA a cadeira financeira do cinema nacional, mas o fato de ele ter sido feito em SP, ambientado numa estética de Programa do Ratinho, não o torna EM NADA diferente do ethos da neochanchada, que, embora nascida no Rio de Janeiro, fala com o Brasil INTEIRO no esperanto do riso. O que garante especiarias diferenciadas a esta comédia é o fato de Halder Gomes, seu realizador, imprimir… lá pelas tantas… um traço autoral particularíssimo, na discussão (e na afirmação) da identidade regional nordestina. É isso que faz dele, desde Cine Holliúdi (2013), um cineasta de potências geopolíticas valorosas no cenário de nosso audiovisual. Agora, ler por aí a afirmação de que ele aponta “um caminho novo para a comédia popular brasileira por se afastar das cartilhas televisivas” só levanta o perfume de intolerância contra os genes da carioquice em nossa gargalhada. O problema maior: quem paga a conta (altíssima) da sustentação de nossos filme em tela, no fim da farra, é De Pernas Pro Ar & CIA.