‘Infiltrado’ enfim estreia, dia 26: Statham em foco

‘Infiltrado’ enfim estreia, dia 26: Statham em foco

Rodrigo Fonseca

03 de agosto de 2021 | 09h01

Habitualmente dublado aqui por Armando Tiraboschi, o inglês Jason Statham é “O Infiltrado”, cuja bilheteria chegou a US$ 102 milhões

Rodrigo Fonseca
Quarta-feira começa o 74º Festival de Locarno, na Suíça, com “Beckett”, thriller de Ferdinando Cito Filomarino, com John David Washington (de “Tenet”), produzido por Rodrigo Teixeira, o que abre precedente para uma revalorização do cinema de gênero, em especial o de ação, que emplacou filmes excepcionais este ano, como “Snake Eyes” e “Viúva Negra”, mas teve como seu apogeu “Wrath of Man”, de Guy Ritchie. Por aqui, o título ficou “Infiltrado”. Uma bilheteria na marca dos US$ 102 milhões deu à produção um selo de aceitação comercial classe AA, pavimentado por um mar de boas críticas que garantiu ao longa-metragem presença nas listas de melhores filmes do primeiro semestre de 2021 de muitos resenhistas estrangeiros. A estreia no Brasil custou a acontecer, mas, agora, enfim, tem uma data: 26 de agosto. Data essa que coincide com a finalização de um novo filme de Ritchie, “Five Eyes”, sobre um espião do MI6 (o serviço secreto britânico) convocado para deter o tráfico de armas. É um projeto já rodado, hoje em acabamento, em que o cineasta volta a trabalhar com seu muso, o astro de “Wrath…”: Jason Statham. Se há um herdeiro de Stallone para o trono dos filmes regados a brutalidade, esse é Jason, que, aliás, é um amigo fiel do eterno Rambo, cujo trabalho mais recente é o Tubarão Rei de “O Esquadrão Suicida”. Statham faz uma deliciosa aparição em “Velozes & Furiosos 9”, exibido em Cannes. E há quem diga que ele possa entrar para o universo dos super-heróis, via DC Comics. Fala-se dele como o detentor do manto do Vigilante. Mas nada ainda foi confirmado, nem o rumor de que Ritchie seria o realizador perfeito para o projeto.
Sabe-se que os dois travaram amizade e parceria ao longo da rodagem de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998). O afeto cresceu nos sets de “Snatch – Porcos e Diamantes” (2001). E eles repetiram a sinergia em “Revólver” (2005). Ritchie é uma grife, mesmo dividindo opiniões em seu estilo quase epilético, de cortes velozes, que rendeu fortuna ao cinemão (com a franquia “Sherlock Holmes”, com Robert Downey Jr.) e emplacou thrillers estilosos, como “O Agente da U.N.C.L.E.” (2015) e (o excepcional) “Magnatas do Crime” (2019). Mas quando volta às telas com Statham, Ritchie volta calçado numa outra grife.

Diante de toda a crise que a pandemia gerou entre os exibidores, a chegada de um novo filme com o astro de “Adrenalina” (2006) fazendo o que faz de melhor (distribuindo pontapés, cantando pneus e diminuindo a densidade populacional da vilania com tiros certeiros) soa como uma garantia de arrecadações obesas e uma promessa de cauda longa em TVs e streamings. A razão: na ponta do lápis, de 2002 (quando estreou a trilogia “Carga Explosiva”) até 2019, quando foi visto em “Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw”, o rol de filmes estrelados por Jason faturou cerca de US$ 1,6 bilhão. Não por acaso, o já citado Stallone, um midas da adrenalina, escolheu o britânico de 53 anos para dar sequência a seu legado, escalando-o para estar a seu lado na cinessérie “Os Mercenários” (“The Expendables”, 2010-2014), cuja receita beira US$ 802 milhões.
Desenvolvido sob o selo da MGM, “Wrath of Man” é uma releitura anglo-americana do thriller francês “Assalto ao Carro Forte” (2004), de Nicolas Boukhrief. Statham assume o papel que era de Albert Dupontel, agora chamado de H. Ás nas artes marciais e no uso de armas de fogo, ele entra para uma equipe de segurança responsável por proteger sacos de dinheiro. Mas H. não entrou nessa pelo trabalho e, sim, por uma revanche pessoal, envolvendo tragédias familiares. Mas ao se envolver no negócio de roubos milionários, ele acaba se colocando em perigo. As primeiras cenas do longa, já divulgadas, esbanjam um padrão de brutalidade que parece incomum à correção política atual. Mas, em geral, os filmes de Statham rompem com o bom mocismo do politicamente correto, como se vê em “Parker” (2013), um de seus melhores trabalhos, hoje em projeção na Netflix, onde ele contracena com Jennifer Lopez. O diferencial, nesse novo longa, é a maneira como Ritchie vai e vem no tempo, embaralhando nossa percepção, sem jamais descuidar do ritmo, nem descuidar de seu virtuosismo habitual.

Ao escrever sobre a saga de H. em “Infiltrado” para a revista “Variety”, o crítico Peter Debruge escreveu: “Há alguns anos, quando Sam Mendes deixou a franquia Bond, o nome de Ritchie foi lançado como um possível substituto para dirigir 007. Ele não aceitou o trabalho, mas ‘Wrath of Man’ mostra que, certamente, ele poderia ter aceitado a missão, sofisticando sua técnica de assinatura, como diretor autor, sem abandonar o chame cockney”.
Na Amazon Prime é possível ver um de seus desempenhos mais sofisticados e doídos de Jason: “Redenção” (2013), de Steven Knight, no qual ele vive um veterano de guerra atormentado. “Venho dublando o Jason desde ‘Adrenalina’, em que ele já me conquistou pela loucura, pela dedicação e pelo trabalho corporal que possui interpretando”, diz Armando Tiraboschi, um dos mais prestigiados (e talentosos) dubladores do Brasil, radicado em SP. “Ele não tinha muitas filigranas em sua interpretação, a princípio, mas se entregava de corpo e alma aos personagens, com uma verdade que não era difícil de se capturar e de se envolver como dublador, para colocar voz no trabalho dele. No filme ‘A Espiã que Sabia de Menos’, ele me surpreendeu muito fazendo comédia, eu descobri nele uma ponta de bom ator fazendo humor”.
Em 2018, Statham estrelou seu maior êxito comercial, até aqui: “Megatubarão”, que faturou US$ 530 milhões. Ali, ao enfrentar um tubarão gigantesco, ninguém acreditava que ele poderia usar suas proficiências de luta (ainda adolescente, ele estudou kung fu, caratê e kickboxing), mas… pobre do peixão que o encarou. Ali, ele ainda empregou sua experiência como campeão da seleção britânica de mergulho. São habilidades que transformam Statham no divo da porrada. E estima-se que, ao longo de Locarno, os executivos lá presentes hão de buscar um projeto novo para ele, que sonha ser convocado por realizadores de maior ambição dramática.

p.s.: Voltando a Locarno… entre as atrações mais esperadas do festival estão “Zeros and Ones”, de Abel Ferrara, e “Luzifer”, Peter Brunner. Tem sci-fi sobre UFOs (o espanhol “Espíritu sagrado”), comédia comportamental (“Cop Secret”) e fantasia, caso do esperadíssimo “Paradis sale”, de Bertrand Mandico, diretor francês que virou queridinho da revista “Cahiers du Cinéma” com “Os Garotos Selvagens” (2017). Há já uma torcida se formando em torno de “La Place D’Une Autre” (“Secret Name”), de Aurélia Georges, hoje uma das promessas francesas na direção. O evento vai de 4 a 14 de agosto, com dois curtas-metragens brasileiros na seção competitiva Pardo Di Domani: “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis (um dos curadores da Mostra de Tiradentes) e “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli, com dois brilhantes atores, Silvero Pereira e Dennis Pinheiro. Locarno termina no dia 14, com a exibição de “Respect”, da diretora Liesl Tommy, no qual Jennifer Hudson vive a cantora Aretha Franklin.

p.s. 2: O delegado e professor Eliardo Amoroso Jordão participa da roda de conversa do espetáculo “Cascavel”, com as atrizes Carol Cezar e Fernanda Heras, nesta quinta-feira, às 20h30, no perfil da peça no Instagram (cascavelapeca). O convidado é ganhador do Prêmio “Mulher de Destaque” 2018 promovido pela Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres de Itaquaquecetuba na categoria especial “Prêmio de Destaque em Defesa da Mulher”. A homenagem é concedida a homens que lutam pelas causas femininas, pelo empoderamento e direitos da mulher, assim como pelo combate à violência doméstica. A peça pode ser assistida diariamente, a qualquer horário, com ingressos pelo Sympla. O ingresso é gratuito, com possibilidade de contribuição para o Instituto Maria da Penha.

p.s.3: Devido ao sucesso de público e de crítica, a adaptação virtual de “Conselho de Classe”, com direção de Fabio Fortes, ganha mais duas apresentações ao vivo a pedido dos espectadores: nesta sexta e no sábado (06 e 07/08), às 20h, no canal do Youtube do festival Niterói em Cena (https://bit.ly/2YU6VzI). A dramaturgia premiada de Jô Bilac nasceu da vontade do autor de refletir sobre a precariedade do ensino público no país e das relações de poder nas escolas. O espetáculo, que estreou em 2013 com a Cia dos Atores, ganhou diversos prêmios de teatro e inúmeras montagens ao longo dos anos. O texto também inspirou a criação da série “Segunda Chamada”, exibida pela TV Globo, que vai lançar sua segunda temporada. A nova versão situa a história no contexto da pandemia, com aulas e reuniões em formato online. As sessões são ao vivo e gratuitas, com possibilidades de contribuição voluntária.

p.s.4: O que acontece com a sociedade quando surgem avanços que transformam a capacidade de reprodutibilidade de obras e ideias? Como a ampliação dos meios de reproduzir discursos impacta na transformação social e no imaginário dos indivíduos? Essas perguntas motivaram a dramaturga e diretora Cecilia Ripoll a escrever a fábula “PANÇA”, que, depois de duas temporadas em teatros do Rio, poderá ser vista online de 5 a 9 de agosto. “De uma hora para a outra, ficamos sabendo da opinião de todo mundo sobre todas as coisas. E há uma dificuldade de aceitar que podem existir diferentes narrativas de uma mesma história. A minha aposta é de que um livre invencionismo acerca do passado nos permita construir metáforas para pensar sobre nossos tempos”, reflete a diretora. Para assistir, basta acessar o canal do espetáculo no Youtube (http://bit.ly/PANÇA-YouTube).

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