Inffinito cinema

Inffinito cinema

Rodrigo Fonseca

01 de outubro de 2020 | 14h39

Cena de “Quero Botar Meu Bloco Na Rua”, uma das atrações da organizadora do Inffinito – fotos de Miguel Lindemberg

Rodrigo Fonseca
Até 25 de outubro, na https://inff.online/, o cinema brasileiro vai ter uma janela para o… infinito, e além… ou seria melhor botar mais um efe aí e chamar Inffinito, nome do circuito de festivais que, desde 1997, vem despejando o melhor de nossas realizadoras e realizadores para o planeta. Este ano, será a primeira vez que o evento vai exibir mais de 100 produções brasileiras nos Estados Unidos, em todo o território americano, de Porto Rico ao Alaska. “Três Verões”, de Sandra Kogut, e “Piedade”, de Claudio Assis, estão entre as atrações mais badaladas. O segundo evento presencial do 24th Inffinito Film Festival será realizado em Nova York, nos dias 24 e 25 de outubro, com as exibições de “Eduardo e Mônica”, de René Sampaio, e “Amazônia Groove”, de Bruno Martinho, respectivamente. À frente desta aventura está Adriana Dutra, que fez filosofia em forma de imagem no documentário “Quanto Tempo o Tempo Tem” (2015). Agora, ela vem com um novo longa, “Quero Botar Meu Bloco Na Rua”, sobre a folia do Rei Momo, ao mesmo tempo em que esquadrinha nossa cinematografia nacional em seu evento, agora também virtual.

Qual o mundo onde o Circuito Inffinito começou e agora, com a Covid, que mundo é esse?
Adriana Dutra:
Quando começamos o festival, a primeira cidade onde ele foi realizado, foi Miami, em 1997. Era um mundo completamente diferente, nem internet a gente tinha com facilidade. A gente se comunicava com o Brasil por telefone. Aliás, o item mais caro do orçamento do festival era o telefone. Os filmes eram películas em 35 mm, pesadíssimas. Um longa-metragem tinha uma média de uns cinco rolos e uma média de 20 kg. Era um mundo completamente diferente. Nos EUA, principalmente, o Brasil ainda era visto como capital de Buenos Aires, uma referência de carnaval e do Pelé. As pessoas ainda não tinham muita informação do que era o audiovisual brasileiro e foi nesse mesmo momento que a Retomada começou a surgir. Em 1994, o movimento de Retomada começa, em reação ao fechamento da Embrafilme, após o impeachment do Collor. Miami observou que o movimento da Retomada seria uma excelente ferramenta para apresentar a diversidade brasileira por meio do cinema, no momento em que o audiovisual estava se reinventando. Era um momento muito diferente do que a gente vive hoje. No nosso festival, tínhamos apenas 10 filmes de produção recente, que eram reflexos da Retomada. Lembro que era “O Quatrilho”, “Banana is My Business”, “Não Quero Falar Sobre isso Agora” e “Carlota Joaquina”. Eram os únicos filmes que estavam disponíveis para criar um festival. Ali criamos o primeiro festival exclusivamente brasileiro de cinema fora do país. Esse modelo foi criado pela Inffinito. O sucesso do festival foi grande, com filas gigantes nas portas. O diretor de eventos especiais de Miami visitou o festival e já convidou para ser um evento oficial da cidade e começamos a receber fundos. Na segunda edição, já éramos um festival oficial da cidade com investimento do governo americano. De lá para cá, a gente cresceu e realizamos 85 edições de festivais de cinema brasileiro ao redor do mundo. Fizemos em 13 cidade e 9 países, recebemos mais de 1000 filmes brasileiros, para um público de 2 milhões de pessoas, até que chega a covid-19. Mas antes dela começa a crise do cinema brasileiro. Todos sabem que a nossa paralisação não veio da covid. Ela veio da falta de diálogo com o governo, com problemas na Ancine, mas a covid agravou muito a nossa situação. Estávamos com tudo pronto para a realização da 24ª edição de Miami e a 24ª edição de Nova York. Nós pensamos rápido e resolvemos tirar do papel um sonho que já tínhamos: a criação da nossa plataforma de streaming. Construímos essa plataforma que tem como objetivo realizar mostras gratuitas no Brasil e ser um catálogo de filmes brasileiros para o mercado americano. O festival é o primeiro evento oficial da plataforma, a Inf.Online.

E o que essa plataforma possibilita?
Adriana Dutra:
Acho que agora vamos descobrir um novo público dentro dessa plataforma. Nós temos um grande relacionamento com o mercado americano, por conta de tantos anos de festival de cinema. Temos relacionamentos com museus, universidades, com o nosso público, com outras distribuidoras. Acredito que essas pessoas vão estar acompanhando o festival online. Mas, agora, os filmes vão estar disponíveis para todo território americano. Então, se um festival de Miami, antes, tinha uma média de 10 mil pessoas, agora, os filmes estão disponíveis de Porto Alegre até o Alasca. Pode ser um crescimento exponencial de visibilidade do conteúdo audiovisual no mercado americano. A gente criou várias ações para que o público se sentisse em um festival de cinema e fizemos sessões programadas, onde o público assiste ao filme junto e depois eles vão debater o filme com os diretores. Criamos as masterclasses, onde qualquer público pode fazer uma aula com a Tizuka Yamasaki, com a produtora Clélia Bessa, com a roteirista Melenie Dimantas. Temos festas virtuais, mostra competitiva… O público assiste ao filme e depois recebe uma cédula de votação online. O mundo mudou e acho que ele jamais será o mesmo. Acho que agora, vamos ter um festival híbrido. Daqui para frente, acredito seriamente na possibilidade de o festival ser uma parte presencial e outra virtual. Pela primeira vez, nós temos a exibição de 110 filmes em um festival. Antes, nosso festival tinha 40 filmes. São oito mostras: Mostra Indígena; Mostra Curta-metragem; Mostra Panorama; Mostra do Cinema Negro; Mostra Competitiva de Documentário; Mostra Competitiva de Ficção. Temos uma capacidade muito maior de atingir um número maior de pessoas e exibir mais filmes e futuramente conquistar esse mercado de streaming no setor americano.

Adriana Dutra: desde 1997, ela já levou centenas de longas e curtas nacionais para os EUA

Qual é a realidade dos carnavais, da folia, que seu documentário aponta e de que maneira esse universo pode reverberar agora nos Estados Unidos, com o empenho de internacionalização do Inffinito?
Adriana Dutra:
Esse ano, o festival possui uma diversidade muito representativa. Temos uma mostra só de cineastas indígenas pela primeira vez. A curadoria foi feita pela Graci Guarani, que é uma cineasta indígena e fez uma seleção bastante interessante para que a gente entenda e conheça essa produção audiovisual feita pelos nossos povos originários. É a primeira vez que o festival dá voz para os nossos povos originários, que estão produzindo cinema e utilizando o audiovisual para refletir e denunciar a vivência deles. Estamos fazendo uma mostra de curta-metragistas. São 24 filmes curtas-metragens, que representam os melhores dos últimos dois anos no Brasil. Essa seleção foi feita pela Zita Carvalhosa, que é diretora do Festival de Curtas Internacional de São Paulo. Esses curta-metragistas, são sangue novo no nosso festival. Temos uma mostra Cinema Negro. Nela, estamos ampliando o debate do lugar do negro na sociedade contemporânea. Nossos filmes da Panorama são produções que já ganharam festivais e são muito representativos da diversidade nacional. A seleção competitiva de documentário também é diversa. Acho que de uma maneira muito positiva estamos realizando o festival virtual, porque conseguimos dar voz e espaço para diversos filmes. Situação que a gente não poderia realizar, caso o festival fosse só presencial. Existe o tempo, o espaço e o orçamento. Então a gente estando nesse cenário virtual conseguiu dar voz e luz a vários tipos de filmes e a várias potências do audiovisual brasileiro.

De que maneira seu homenageado deste ano, o diretor Daniel Filho, confunde-se com a história do festival?
Adriana Dutra:
Daniel Filho é uma fênix. É um cara que veio do circo, passou pelo rádio, chegou na televisão em preto e branco, trouxe o cinema para a televisão e, agora, está produzindo no streaming. Ele é esse cara que se reinventou, que tem potencial, é produtor, ator e diretor. De certa maneira, ele teria que ser o homenageado dessa safra, porque nós estamos nos reinventando. Ele me disse assim: “Adriana aceito a homenagem, se a gente usar essa homenagem para debater o cinema brasileiro”. Todos os debates, que acontecem sempre às segundas-feiras, às 22 horas do Brasil, são conversas criadas em prol da discussão do audiovisual brasileiro, em homenagem ao Daniel Filho, para que a gente possa pensar, em conjunto, como sair dessa paralisação tão ingrata e situação tão triste que estamos passando.

Qual é a realidade dos carnavais, da folia, que seu documentário aponta e de que maneira esse universo pode reverberar agora nos EUA, com o empenho de internacionalização do Inffinito?
Adriana Dutra:
“Quero Botar o Meu Bloco na Rua” foi feito em homenagem ao meu pai. De certa maneira, nasci com a influência do carnaval de rua e da cultura de rua. Meu pai foi publicitário e fundador da Banda de Ipanema. Ele faleceu há um ano e, graças a Deus, consegui fazer o filme a tempo de ele ver essa homenagem que fiz para ele. Esse documentário é uma viagem, celebrando a vida do meu pai e a história do carnaval popular do Rio de Janeiro. Foi uma grande declaração de amor ao Brasil e a minha família. O carnaval de rua movimenta riquezas, interfere em todas as dimensões da economia do país. Existem pessoas que vivem do carnaval o ano inteiro. No Rio são 700 blocos de rua, que movimentam em cada carnaval cerca de R$ 3 bilhões. Isso faz com que a gente pense em coisas muito sérias durante o carnaval. A gente vê as pessoas brincando na rua, as pessoas fantasiadas, muitas vezes, loucas, mas ali está acontecendo uma grande crítica social. É dentro da relação do carnaval e da maneira que a gente se expressa, que a gente pode exorcizar todas as dificuldades e dar voz para a ação e a mudança. O filme é essa declaração de amor e uma crítica ferrenha para as pessoas que não entendem a importância desses quatro dias de folia. A gente exibiu esse filme em alguns festivais e teve uma repercussão muito bonita. As pessoas ficam muito emocionadas com a maneira que ele foi criado e como conta a história do carnaval de rua do Rio de Janeiro, que começa nos bondes e passa por toda uma transformação. O filme tem um material de arquivo muito rico e surpreendente. A minha intensão é que a gente possa exibi-lo no maior número de telas do mundo. O audiovisual é a grande ferramenta de venda do potencial de uma nação. A gente vê os EUA reinando nossas salas de cinema e a gente consumindo a cultura americana de maneira feroz, porque eles possuem um cinema forte. O filme ajuda a vender o Brasil sim, a vender o Rio de Janeiro e ajuda a gente a falar sobre amor, tradição e celebrar a vida.

Num terreno expressivo e urgente de representatividade, o Festival Inffinito ainda se reinventa por terrenos éticos, encampando lutas seculares ao lançar uma Mostra Indígena e uma Mostra Cinema Negro. Que recorte temos?
Adriana Dutra:
É importante dizer que a Mostra Indígena, a Mostra Curta-Metragem, a Mostra Daniel Filho, as masterclass, os debates e as festas, estão disponíveis no Brasil. Basta entrar na Inf.Online e criar uma conta gratuita e participar do festival. Pedi para a Graci Guarani fazer essa seleção da mostra indígena para que a gente pudesse ter produções recentes de cineastas dos povos originários. Poderia ser ficção, curta ou documentário. Ela fez um recorte muito interessante, no qual a gente consegue participar da reflexão dos povos indígenas nos dias atuais. Tem muitas falas em dialetos indígenas, mas que estão legendadas. A partir delas, a gente pode dar um mergulho na vivência, entender melhor a cultura e conhecer as dores e nuances dos nossos povos originários. A seção Cinema Negro foi uma seleção que pudesse tratar de temas importantes sobre a negritude. Temos filmes documentais e de ficção nos quais o tema do negro está presente, seja sobre a memória da escravidão, seja sobre dificuldade de iniciar-se no mercado de trabalho, seja sobre a presença do negro no cinema. É uma seleção que deu voz a pessoas negras que dirigiram filmes e estão em papel importante de protagonismo. A gente espera poder atiçar um pouco esse debate para uma sociedade mais justa, com essas duas mostras.

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