Inédito de Abel Ferrara atrai holofotes para Willem Dafoe em Cannes

Inédito de Abel Ferrara atrai holofotes para Willem Dafoe em Cannes

Rodrigo Fonseca

21 de maio de 2019 | 02h59

Rodrigo Fonseca
No dia seguinte à consagração europeia do suspense psicológico “The Lighthouse”, onde brilha ao lado de Robert Pattinson no papel de um faroleiro alcoólatra, Willem Dafoe foi ovacionado de novo na segunda-feira, no 72º Festival de Cannes, à frente do delicioso “Tommaso”, melhor filme de ficção (com toques documentais explícitos) de Abel Ferrara em anos. É a saga de um diretor, ator e professor de atuação americano, residente na Itália, que lida com conflitos de amor e com  a educação de sua família pequena.

“Abel e eu já trabalhos umas cinco vezes juntos e eu sempre volto porque ele me dá chances de fazer coisas que não são muito comuns no cinema”, disse Dafoe ao apresentar “Tommaso”.

Enquanto aguarda a tardia estreia nos EUA de “Pasolini” (2014), também com Dafoe, a crítica americana tem vários caminhos para refazer suas opiniões (sobretudo as equivocadas ou apressadas) acerca da obra de Ferrara, começando com a projeção de “Tommaso” em solo cannoise, seguida pela jornada em circuito do documentário nostálgico “The projectionist”, lançado no Festival de Tribeca. A opção seguinte é mergulhar na retrospectiva de sua obra que o MOMA exibe até o fim do mês. Ele tem mais um projeto para fazer, este ano, com Nicolas Cage e Isabelle Huppert, baseado nos escritos de Jung, que terá cenas rodadas nos Estados Unidos. É um meio de o diretor de 67 anos, maldito por escolha temático e cultuado por excelência, manter-se atualizado sobre seu país de origem, com o qual começou a romper laços após a ressaca política do 11 de Setembro.

“Existe um espaço para a imersão nas angústias existenciais no meu cinema que revela em algo bem próximo da fé. Eu filmo histórias de pessoas que estão procurando entendimento. A imolação nada mais é do que uma forma de encontrar paz consigo mesmo. Por isso, eu sempre falo de personagens sedentos por autoentendimento, a fim de resistirem ao mundo. Tenho interesse pela habilidade que muitas pessoas ainda têm de crer no Altíssimo ou seja lá no que for. Eu acredito que exista o Absoluto, em parte por conta de minhas origens italianas cristãs. Os Dez Mandamentos crescem com a gente. E Pasolini me levou a ‘São Mateus’, revisitou de modo poético o Evangélico. A crença que o meu berço me deu no mistério do Céu foi seguida pela crença no cinema, que veio de Pasolini e de outros. Os cineastas que fizeram a cabeça dos meus contemporâneos, como Buñuel, Rossellini e John Cassavetes me ensinaram a valorizar a liberdade criativa. Mas Pasolini foi o Santo Graal do cinema, capaz de fazer de sua própria morte uma catarse política da moral burguesa”, disse Ferrara ao Estadão em um par de papos longos e generosos, um em Cannes, em 2017, outro no Rio, em 2012.

Um dos longas mais concorridos de Tribeca, “The projectionist” é uma radiografia do wildest side de Nova York a partir das histórias de Nick Nicolaou, um exibidor de filmes que começou na cena adulta. Ele é uma memória viva das transformações da cidade e permite que Ferrara reviva seus dias como cinéfilo nas salas arthouse de NY, assistindo “Satyricon” de Fellini.

“Na visão estética que persigo, todo filme é um documentário, a partir do momento que tenta reproduzir uma realidade, seja ela qual for. Mesmo uma ficção ganha status documental em seu empenho de realizar um registro humano. O que mudou, nos tempos em que eu comecei, ainda na fase da película, é a tecnologia digital. Novas câmeras e computadores permitiram que gente como eu tivesse o direito de seguir em frente. Vi muitos artistas terem suas obras interrompidas por falta de dinheiro no cinema, mas também na música, na pintura e na poesia. Hoje, só é preciso um telefone celular pra fazer um filme. Isso do ponto de vista mecânico. Pois em relação à argamassa ética e poética do cinema, tudo só depende de paixão”, disse Ferrara. “Eu fiz TV numa época em que ‘Miami Vice’ era uma renovação. Era uma época antes de Don Johnson aparecer. Era uma época em que uma série desejava ter como estrela um músico que tocava gaita chamado Bruce Willis de quem ninguém tinha ouvido falar. Saudade daquela ousadia que cabia na televisão”

Personagens como “o projecionista” Nick Nicolaou, que vai virar celebridade em Tribeca, é parte da horda de amores de Ferrara. “Filmo com espírito de turma porque gosto de parceiros que se arriscam a experimentar”, disse Ferrara em NY.

“Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar, “A hidden life”, de Terrence Malick, e “Portrait de une jeune fille em feu”, de Céline Sciamma, são os favoritos à Palma de Ouro de 2019, sendo que o longa-metragem mais controverso da competição até agora é uma produção americana que se passa em Sintra, Portugal, com Isabelle Huppert no elenco: “Frankie”, de Ira Sachs. O roteiro é do brasileiro Maurício Zacharias, que escreve com a parceria de Sachs, deliciosos diálogos para um grupo de parentes e amigos de uma atriz veterana, a tal Frankie, vivida por Isabelle, que reuniu seus entes queridos para uma possível despedida.  A fotografia de Rui Poças torna Sintra uma Passárgada, onde o rei é o Tempo.

Um dos realizadores brasileiros mais respeitados no exterior, o cearense Karim Aïnouz (de “O céu de Suely”) dispara como favorito aos prêmios da mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar), vitrine paralela à briga pela Palma de Ouro. Na segunda, ele botou a Croisette no bolso com uma história de amor fraterno entre duas irmãs no Rio dos anos 1950. “A vida invisível de Eurídice Gusmão” pode arrancar troféus expressivos do júri presidido pela cineasta libanesa Nadine Labaki (“Capharnaum”). Fala-se de um prêmio especial para Fernanda Montenegro, que entrega o elenco. Carol Duarte e Júlia Stockler têm atuações irretocáveis como as “manas” Eurídice e Guida. A produção é de Rodrigo Teixeira e da RT Features.

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