Imortal nas telas, Freddie Mercury vai inflamar o Shell Open Air

Imortal nas telas, Freddie Mercury vai inflamar o Shell Open Air

Rodrigo Fonseca

07 de abril de 2019 | 12h07

Rodrigo Fonseca
Saiu a primeira leva de atrações do Shell Open Air 2019: a telona de 325m² vai ser estendida de 15 de maio a 2 de junho, na Marina da Glória, no Rio, recebendo projeções comemorativas dos 20 anos de “Matrix” e “Clube da luta”, além de uma sessão de “Bohemian Rhapsody”. Esta última atração pode ser um divisor de águas sensorial na recepção do fenômeno de bilheteria que faturou USS$ 899,5 milhões e ganhou quatro Oscars. É um marco do cinema.
E sobre esse marco, vale uma reflexão:

Trabalhando com o guitarrista Ry Cooder em “Paris, Texas” (1984), Wim Wenders, o diretor de joias como “Buena Vista Social Club” (1999), aprendeu uma lição que virou lema: “O rock’n’roll salva vidas, pois ele mostra o limite entre tédio e vazio existencial”. Poucos longas-metragens traduzem melhor esse ideal analgésico do rock do que “Bohemian Rhapsody”, um “filme de autor” com “A”, feito por um realizador sem qualquer laço com o existencialismo de Wenders, mas que, assim como o mestre alemão, enxerga a relação essencial da imagem com outros vertores da arte, como a canção pop. Bryan Singer é seu nome e você o conhece da franquia “X-Men”. Mesmo tendo sido afastado dos sets desta releitura personalíssima dos feitos do grupo Queen, sob acusações, reclamações e gasturas com o astro Rami Malek, Singer deixou sua marca impressa a cada cena, desafiando os cânones da cartilha das cinebiografias para criar seu próprio Freddie Mercury… o Fredde Mercury de sua saudade… portanto, um Freddie vivíssimo e comovente de ver, que arranca o couro do ferramental gestual de Malek.

Desde sua ascensão como cineasta, em 1995, com “Os Suspeitos”, Singer – um órfão criado em lar adotivo que cresceu assumindo a causa LGBT como bandeira – lançou-se nas telas como um cronista das artes de enganar, da mentira. “O melhor truque do Diabo foi fazer a Humanidade crer que ele não existe”, dizia Kevin Spacey em seu primeiro sucesso, deixando claro o apreço do cineasta por personagens que fingem ser o que não são, que mascaram a identidade à cata de zonas de conforto. Nada mais coerente do que filmar super-heróis vítimas de preconceito, atormentados pela inadequação, como seu incompreendido “Superman – O Retorno” (2006). Freddie Mercury – um rockstar gay nascido em Zanzibar, de família zoroastrista, apelidado de paquistanês de modo pejorativo – é o Wolverine desta imersão de Singer na cena roqueira dos anos 1970 e 80. Como o mutante da Marvel, Freddie foi um animal selvagem com o fator de cura da autorregenaração midiática que disfarçava sob uma voz de veludo e um bigode grosso a busca por sua própria essência, conciliando sua herança familiar de fé em Zoroastro com o ímpeto voraz do show business. Isso compensa qualquer deslize factual, sobretudo quando somado ao apuro técnico do fotógrafo Newton Thomas Sigel (de “Drive”) e a uma apoteótica sequência de quase dez minutos do show Live Aid: um marco de reconstituição. A atuação de Malek, coroada com um Oscar, é de arrancar litros de lágrimas.

p.s.: “Radioatividade” é o título do novo longa-metragem da quadrinista e animadora Marjane Satrapi (“Persépolis”), no qual ela recria a história de amor entre os cientistas Marie e Pierre Curie (com Rosamund Pike e Sam Rilley) para fazer uma reflexão sobre os abusos do progresso tecnológico.

p.s.2: No próximo dia 18, Cannes vai anunciar as atrações da 72ª edição de seu festival anual, e “A hidden life”, de Terrence Malick (que está completando 50 anos de carreira), já é encarado como um potencial concorrente à Palma de Ouro. Em seu novo filme o recluso realizador pede licença a Deus (já que seus últimos projetos tinham uma linha narrativa messiânica explícita) para  regressar à Segunda Guerra Mundial (ambiente de seu genial “Além da linha vermelha”) e rodar a saga de um herói austríaco que combateu nazistas. August Diehl (de “O jovem Karl Marx”) assume o papel central.