Ildikó Enyedi de corpo e alma na Berlinale

Ildikó Enyedi de corpo e alma na Berlinale

Rodrigo Fonseca

02 de fevereiro de 2021 | 13h31

Ildikó Enyedi vai ser uma das juradas da Berlinale em 2021, voltando ao festival no qual conquistou o Urso de Ouro, em 2017, por “Corpo e Alma”

RODRIGO FONSECA
Laureada com o Urso de Ouro de 2017, por “Corpo e Alma” (“On Body and Soul”), a húngara Ildikó Enyedi vai integrar um timaço de estrelas da direção convocado por Carlo Chatrian para julgar aos concorrentes ao Urso de Ouro da 71ª Berlinale, de 9 a 20 de junho, na capital alemã. Ao lado dela vão estar Jasmila Žbanić, da Bósnia, que foi “a” vencedora de 2006 com “Em Segredo” (“Grbavica”); Mohammad Rasoulof, do Irã, laureado ano passado com “Não Há Mal Algum” (“There is No Evil”, 2020); Nadav Lapid, de Israel, responsável pelo cult “Sinônimos” (“Synonymes”), de 2019; Gianfranco Rosi, italiano da Eritreia, que virou um postar do documentário com “Fogo no Mar” (“Fuocoammare”), em 2016; e a artista plástica e diretora Adina Pintilie, egressa da Romênia, que dividiu opiniões, em 2018 com “Não Me Toque” (“Touch Me Not”). Essa convocação dispersa as chances de Ildikó levar ao festival germânico deste ano seu novo longa-metragem, “The Story Of My Wife”. Trata-se de uma uma love story dramática, orçada em 10 milhões de euros e cheia de metalinguagem, baseada na literatura de Milán Füst. Nela, Louis Garrel interpreta um capitão de navio que faz uma aposta: vai se casar com a primeira mulher que cruzar sua rota. Léa Seydoux, Gjis Naber e Jasmine Trinca integram o elenco dessa produção, que ganhou nova visibilidade agora que Ildikó voltará a Berlim.
“A introspecção é um livro aberto de sentidos. Personagens que falam pouco sempre têm muito a dizer com sua experiência sensível, pois existe uma riqueza sentimental enorme em pessoas que são fechadas em si. É o que eu tento explorar, interessada na delicadeza”, disse Ildikó ao P de Pop quando o roteiro de “The Story Of My Wife” chegou em suas mãos.

“The Story Of My Wife”

Aos 65 anos de idade, com quatro décadas de carreira, ela custou a ter a visibilidade merecida. Em 1989, Ildikó foi premiada no Festival de Cannes com o troféu Câmera de Ouro, dado a estreantes, por My 20th Century, filme que lhe deu algum prestígio à época. Mas ela não chegou a conquistar projetos de peso na sequência. Ela só conseguiu voltar a ser uma aposta na esfera das diretoras autoras quando o Urso dourado. Ela recebeu esse cobiçado troféu por uma história de amor entre raspas, restos e rios de sangue de bois que são abatidos diariamente no matadouro onde seus personagens – ela, uma taciturna e suicida fiscal de qualidade; ele, um administrador com um braço paralisado – desenvolvem algo próximo de um romance. A justificativa do presidente do corpo de jurados, o cineasta Paul Verhoeven (Elle), referia-se à potência visual com que a cineasta radiografa aquele mundo de silêncios.
Seu filme foi o mais premiado da Berlinale, há quatro anos: além do Urso de Ouro, “On Body and Soul” conquistou a láurea do Júri Ecumênico, a do júri dos leitores do jornal alemão Berliner Morgenpost e a do júri de críticos da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (a Fipresci). “Eu venho de um país que desenvolveu um cinema muito potente num intervalo de tempo que, não necessariamente é o da minha geração. Nos últimos 30 anos, em meio aos problemas que eu e meus contemporâneos encaramos, cresceu uma nova turma, com um cinema inovador”, disse a cineasta, que rodou curtas, documentários e a versão húngara da série “Em Terapia”. “Há muitas histórias universais em nossa nação”.

De 8 a 11 de fevereiro, a Berlinale vai anunciar os filmes de suas diferentes seleções, e já se fala em “Annette” – musical do francês Leos Carax, com Marion Cotillard e Adam Driver – e em “Lingui” – melodrama do chadiano Mahamat-Saleh Haroun – como possíveis concorrentes. O Brasil pode competir com “A Viagem de Pedro”, de Laís Bodanzky. Mas já há uma série nacional, “Os Últimos Dias de Gilda”, na seção Berlinale Series.

p.s.: A artista Katya Gualter, professora do Departamento de Arte Corporal e Diretora da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ, participa, nesta quarta, do ciclo virtual de palestras “Lab Corpo Palavra”. O encontro será realizado no Canal do Youtube Celeiro Moebius (https://bit.ly/3q9zULp), das 15h às 16h. Até 3 de março, o projeto vai receber artistas e pesquisadores da dança, das escritas, das artes cênicas e dos estudos do corpo como Ciane Fernandes, Sandra Benites e Maria Alice Poppe.

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