‘Il Legionario’, um ‘Sicario’ à italiana

‘Il Legionario’, um ‘Sicario’ à italiana

Rodrigo Fonseca

08 de agosto de 2021 | 11h05

RODRIGO FONSECA
Às voltas com uma descoberta de peso, vindo da Indonésia para a disputa pelo Leopardo de Ouro, chamada “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”, o 74. Festival de Locarno não tira os olhos e as ideias de “Il Legionario”, egresso de Roma para a seção Cineasti Del Presenti. A direção é de Hleb Papou, que nasceu na Bielorrússia, adotou a Itália como lar e encontrou em “Tropa de Elite” (Urso de Ouro de 2008) uma experiência radical de olhar sobre a brutalidade. Experiência essa que o levou a se lançar como realizador.
“Se você encontrar com José Padilha no Brasil, transmita a ele o meu ‘Muito grato!’ a ele, por ter retratado uma realidade social pelo prisma de um filão de gênero popular. É uma operação que leva mais pessoas a um debate sociológico que não é refém de teorias”, disse Papou ao P de Pop do Estadão em Locarno, onde é o favorito de sua mostra, também competitiva.

Nela, ele será avaliado por um júri composto pela atriz francesa Agathe Bonitzer, a curadora croata Vanja Kaludjercic e a diretora Mattie Do, vinda do Laos. Seu trabalho de montagem é de uma precisão cirúrgica ao lidar com a dor de seu protagonista. Sua trama se debruça sobre Daniel (Germano Gentile), um policial de descendência africana que patrulha as ruas numa Roma xenófoba, que encara sua cor e sua origem como problemas estatísticos. “Tenho um ator que é filho de mãe brasileira e cresceu na Itália a traduzir o quão complexo o meu país se tornou, para além da maneira caricato como ele é tratado pela mídia. A Itália que eu retrato em ‘Il Legionario’ não é o país do spaghetti e de uma suposta cordialidade. Nem é a Roma do Coliseu. É uma terra cheia de imigrantes que estão construindo uma nova nação”, diz Papou, que não faz menção às críticas recebidas por “Tropa de Elite” acerca de uma suposta mirada de direita, falando do cult de Padilha mais pelo prisma técnico. “Eu me reporto muito ao ‘Sicário’, de Denis Villeneuve, com ‘. Profeta’, de Jacques Audiard, que, como o filme de Padilha, conversam com a realidade para construírem uma ficção potente e popular”.
Durante a exibição de “Il Legionario” em Locarno, muito se falou de um episódio envolvendo o poeta e diretor Pier Paolo Pasolini (1922-1975), em reação a protestos na Europa pós 1968. Na ocasião, o diretor de “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964) declarou, em respostas às críticas à repreensão do Estado às manifestações, que: “Os policiais são, antes de tudo, filhos de operários. Há que se cuidar para que não os segreguemos”.

“Conheço os grandes diretores da Itália do passado, mas eu converso mais com os cineastas do presente. Antes, tínhamos duas representações básicas nas telas: ou a burguesia, com seus conflitos existenciais, ou um contingente pobre nas raias da miséria. O cinema que eu busco não acredita nessa polarização”, diz o cineasta.

Hleb Papou

Todo o barulho que reverbera da estética de “Il Legionario” não foi suficiente para abafar o estrondo de “Seperti Dendam, Rindu Harus Dibayat Tuntas”, o título original do vertiginoso “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”, da Indonésia. Seu diretor, um ex-estudante de Design, atende apenas pelo nome de Edwin. Ele subverte uma série de convenções dos filmes de ação ao homenagear o cinema B de Hong Kong dos anos 1980 e 90, de onde vieram John Woo, Tsui Hark, Ringo Lam, Johnny To e outros artesãos autorais. Em seu filme, ele narra a história de um lutador bom de briga que sofre de impotência sexual. Em busca de uma cura, ele se encanta por uma mulher, também lutadora, e se propõe a tentar uma vida a dois com ela. Mas o crime organizado da Indonésia e um antigo affair dela vão atrapalhar os planos do casal.
“Cresci vendo filmes B asiáticos e sempre me encantei pela forma como eles tratam a questão do Bem contra o Mal pela ótica da injustiça social”, diz Edwin ao Estadão.

Nesta quinta, Locarno vê o mais esperado dos concorrentes ao Leopardo de Ouro de 2021: “Zeros and Ones”, de Abel Ferrara, com Ethan Hawke em meio a uma conspiração. Até aqui, o longa com a maior reverberação está com o francês “After Blue (Paradis Sale)”, de Betrand Mandido. Nele, o cineasta bebe das águas da fantasia, criando um mundo em que (segundo as personagens) “só pessoas com ovários” sobrevivem, numa alegoria multicolorida sobre a força do feminino. A estética queer de seu longa anterior, “Os Garotos Selvagens” (2017), fez dele um queridinho da revista “Cahiers du Cinéma”, a bíblia do audiovisual.
Locarno termina no dia 4, com a exibição de “Respect”, cinebiografia de Aretha Franklin.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.