Iguaria japonesa no Festival de Moscou

Iguaria japonesa no Festival de Moscou

Rodrigo Fonseca

16 de abril de 2021 | 11h59

Rodrigo Fonseca
Laureado com o Grande Prêmio do Júri na Berlinale, no dia 5 de março, e exibido no Bafici da Argentina e em Hong Kong, o comovente “Wheel of Fortune and Fantasy”, de Ryûsuke Hamaguchi, já tem novo pouso agendado: o 43. Festival de Moscou, agendado de 22 a 29 de abril. A mais disputada das maratonas cinéfilas eslavas este ano terá o cearense Karim Aïnouz em seu júri e vai exibir “A Vida Insível” (Prix Un Certain Regard 2019) em uma sessão paralela. O longa de Hamaguchi também não entra na caça ao troféu São Jorge, sua láurea principal. Há 14 longas no páreo, entre eles “The Son”, da iraniana Noushin Meraji; “Him”, da sueca Guto Bruusgaard; e “#dogpoopgirl”, do romeno Andrei Hutuleac. Para abrir a programação, o diretor do evento, o cineasta Nikita Mikhalkov, escalou um thriller de guerra com a grife pop de Timur Bekmambetov: “Devyataev”, a correr o mundo com o título “V2. Escape From Hell”. Gustavo Pizzi e Karine Teles estarão no menu de Moscou também, com a série “Os Últimos Dias de Gilda”.
Diversidade é o que não falta, mas a expectativa dos russos pelo longa de Hamaguchi, por conta de sua vitoriosa carreira em Berlim, é grande. Aos 42 anos, ele virou um dos principais nomes do cinema em país que consagrou Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu, Kenji Mizogushi, Nagisa Oshima, Kinuyo Tanaka, Shôhei Imamura, Sachiko Hidari, Mikio Naruse, Hayao Miyazaki e Naomi Kawase. Indicado à Palma de Ouro de Cannes em 2018 com “Asako I & II” e laureado no Festival de Locarno, na Suíça, com “Happy Hour” (2015), Hamaguchi embatucou Berlim com “Wheel of Fortune and Fantasy” (“Guzen to sozo” no original nipônico) pelo lirismo de seus diálogos e pela acuidade como traduz a solidão. Há uma trinca de situações distintas no longa: a) uma jovem modelo fotográfica tenta estabelecer um triângulo amoroso com um quase casal; b) uma jovem cria uma armadilha afetiva para um arrogante professor ao ler um conto sexual para ele; c) uma moça lésbica esbarra com uma mulher na rua, que acredita ser uma velha amiga, e esta, mesmo sem ser a tal pessoa imaginada, aceita representar esse papel. São situações calcadas na arte da palavra, mas que revela muito sobre a opressão da mulher na sociedade japonesas, de ontem e de hoje.
“Busco vivências sem engessamento. Atrizes e atores reagem às palavras de um roteiro com seus corpos. Essas palavras devem ser vividas. Se o texto não for bom, o diálogo vai soar artificial. E eu não poderia ter artificialismos numa dinâmica pautada em uma expressão das ansiedades femininas que foram trabalhadas não por mim, que sou homem, mas por elas, reagindo ao que escrevi de maneira livre”, explica Hamaguchi. “Desde o ensaio, o que eu busco com o elenco é soar natural”.

Hamaguchi faz cinema para desnudar aparências

Cada um dos três hemisférios de “Wheel of Fortune and Fantasy” é assombrado pelo mesmo fantasma: a solidão. “Por ser uma ilha, por se pensar como uma ilha, o Japão não facilita o deslocamento das pessoas de região em região, o que cria um efeito insular em nosso cotidiano. Por vezes, algumas pessoas vivem eras a fio no mesmo lugar”, explica o cineasta. “Esse fixismo, quase inercial, é uma sensação que dificulta comunicações e fomenta aparências. Tudo que é aparente é frágil”.

p.s.: Nesta sexta, o É Tudo Verdade confere o que periga ser o melhor filme de sua competição em 2021: “Edna”, de Eryk Rocha. Nele, o realizador de “Cinema Novo” (troféu L’Oeil d’Or em Cannes, em 2016) arranha as franjas do lirismo, apoiado numa estonteante fotografia em P&B, embalado em uma canção de Paulo Sérgio (“Máquinas Humanas”). Apoiado numa narrativa híbrida, nas raias da rodovia Transbrasliana, o cineasta transita entre o real e o imaginário, por guerrilhas, desaparecimentos e desmatamentos, com foco no diário de uma mulher assolada por palavras e recordações regadas a sangue, algumas delas ligadas ao Araguaya.

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