Igor Cotrim, um Richard Widmark com granola

Igor Cotrim, um Richard Widmark com granola

Rodrigo Fonseca

29 de março de 2021 | 17h14

Igor Cotrim nas filmagens de “Amor de 4 + 1”

RODRIGO FONSECA
No ar no Globoplay paralelamente à sua carreira no Canal Brasil, a série “Amor de 4+1” é a prova de que o paulista Igor Cotrim passa longe de ser um “one hit actor”, reinventando-o um anos após a estreia de seu mais prestigiado trabalho: “Elvis e Madona” (2010). Basta um par de cenas do seriado pilotado por Marcelo Santiago para o espectador ficar fã do estilo furioso, mas ao mesmo tempo meigo desse Richard Widmark de Guarulhos. Feroz como o eterno Madigan de “Os Impiedosos” (1968), IC arrebatou tietes de Sandy & Júnior no papel de Boca, o bad boy da série homônima da dupla na Globo, onde plantou a sementinha de um talento hoje em fase primaveril. No cinema, ele passou por Luiz Rosemberg Filho (1943-2019), em “Os Príncipes” (2018), pelo qual arrebatou um prêmio merecido de melhor atuação no Cine PE, compondo algo com cheiro de Macbeth, e rodou o ainda inacabado “Ciúme”, sob a direção de Neville D’Almeida. Agora, de volta à TV, ele tem uma incursão pra fazer em “Gênesis”, da Record. E ainda tem a fase 2 da série lá dos canais Globo, na qual divide com Branca Messina, Carolina Chalita, Nicola Lama e Gabriel Chadan o protagonismo numa cartografia afetiva de casais às voltas com os dilemas do querer, com os interditos do desejo. O “Amor de 4” original, de 2017, lançou às bases para um quarteto nada profissional de “amadores”, que se digladiavam com inquietudes e inseguranças do verbo “gostar”. Agora, na nova temporada, já no ar, Miguel, personagem de Cotrim, está em Búzios e lá estabelece uma nova vivência com seu pai(dastro) adotivo (Antonio Pitanga), arrasado pela perda de Elisa (Branca). Com sete episódios, o seriado é exibido às sextas, às 22h30, com repeteco na madrugada de sábado/domingo, à 1h55, e na segunda, à 0h55. Tem uma escrita leve, mas, ao mesmo tempo, pungente.
“A série tem um aspecto, que às vezes, lembra um filme grande. Claro que existe mais tempo para desenvolver características das personagens. Então, para mim, é mais uma oportunidade para colocar mais nuances e camadas. Claro que, num filme, faço isso de um jeito distinto, pois a história é fechada. Numa série, as tramas vão se abrindo, mas isso me deixa muito atento. Pra fazer continuidade e ajudar o continuísta, nessa série em que o personagem fuma, preciso ficar atento no tamanho do cigarro. É uma atenção redobrada”, diz Cotrim, que vive numa fase de bonança pessoal – num romance com a atriz Adriana Lessa – e profissional, com quilos de projetos. “Nasci há 46 anos no Hospital da Aeronáutica, junto com a minha irmã, Caroline. Somos gêmeos. Eu fazia escola técnica de Mecânica, mas o que me urgia desde os nove anos – quando via filmes que não era para estar vendo pelas temáticas – era a arte. Fui terminar o terceiro colegial em Guarulhos e comecei a frequentar oficinas teatrais, estudando na Escola de Arte Dramática da USP”.

Nos próximos meses, Cotrim será visto ainda em “Rally – Paixão e Fúria”, de Rony Guilherme, e “Amado”, de Edu Felistoque e Erik de Castro. “Este ano, eu tenho um filme estrangeiro, ‘The Cabbie’, o curta “Estou Aqui”, e um projeto também muito bacana do Bruno Souza: o ‘Martelo e a Coroa’. É uma história sobre um suposto encontro entre D. Pedro II e o Friedrich Nietzsche. Eu faço Nietzsche, ou seja, o eterno retorno”, diz Cotrim, que postou ontem no Facebook as primeiras imagens dessa leitura.

p.s.: Estamos ainda no trecho final do imperdível “Música É Passado”, lançado pela editora Prefab, e feito a partir de pepitas de ouro da carreira do crítico musical e bamba do marketing político Mario Marques. É uma leitura saborosa, na qual até os espinhos (contra a pasmaceira artística e o 68ismo das redações de jornal) são palatáveis. Seus artigos e entrevistas sobre Los Hermanos, Kraftwerk e Lulu Santos são uma aula de Jornalismo Cultural. A diagramação é do Studio Roma Design, com Adilson Nunes e de Romildo Castro Gomes. Já a arte da capa, que merece mimos à parte, é de Tiago Rodrigues, animador e desenhista que fez de sua vivência de periferia a argamassa de sua inventividade. Que dupla ele e Marques!

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