‘I Giganti’ inflama Locarno

‘I Giganti’ inflama Locarno

Rodrigo Fonseca

11 de agosto de 2021 | 18h50

O cineasta Bonifacio Angius

Rodrigo Fonseca
A duas horas de distância do aeroporto de Malpensa, em Milão, Locarno tem o Italiano como sua língua mais corrente, embora os suíços de lá falem Alemão fluentemente… arranhando o Francês, que o restante daquele país também domina. A onipresença do idioma de Dante dá um ânimo mais à presença do cinema vindo da Itália na grade do festival local, um dos mais prestigiados do mundo, e hoje nos momentos finais de sua 74ª edição, que tem “I Giganti”, de Bonifacio Angius como um de seus títulos mais polêmicos. Concorrendo ao Leopardo de Ouro, o novo longa-metragem do realizador de “Perfídia” (2014) – diretor esse nascido em Sassari, na Sardenha, há 39 anos – é um estudo nostálgico sobre o poder de autodestruição dos seres humanos contado a partir de um reencontro entre amigos – ou quase isso – numa cada em um canteiro remoto. Lá em meio a muitas drogas, armas e ressentimentos, eles descascam as cicatrizes de velhas feridas. Algumas são ligadas à lealdade. Outras, ao amor. Angius escreveu, dirigiu, produziu, fotografou e editou sozinho, escavando abismos existenciais.
“A ausência do amor é o combustível do filme, que se processa como uma carta de amor ao feminino, mesmo repleto de homens em cena”, disse Angius, que viveu momentos acalorados na coletiva do filme, em Locarno, ao ser cobrado por uma possível mirada sexista misógina. “Aquilo me irritou por ter sido um comentário retórico acerca de um filme que celebra a força das mulheres. E é um filme com uma dimensão realista, que prima pela verossimilhança”.

Muitas das conversas em “I Giganti”, tomadas por alucinógenos, descambam para a agressão, mas sempre com um traço de poesia na forma como os homens ali em conflito avaliam o quão assombrado são pelo passado. “É um filme de fantasmas, uma vez que um dos personagens, Massimo, é quase um cadáver que caminha”, diz Angius. “Aquele encontro deles parece um filme de faroeste, por ser um gênero com uma herança da tragédia. Politicamente, o filme reflete o câncer social da hostilidade”.
Embora falado em Inglês, “Zeros and Ones”, um dos títulos mais esperados da competição de Locarno, nasceu em Roma, carregando as vivências italianas de Abel Ferrara consigo. Nele, o diretor de “Vício Frenético” (1992) emerge numa teoria da conspiração terrorista escalando Ethan Hawke como JJ, soldado que tenta deter o apocalipse.
Há uma boa safra espanhola em Locarno este ano, sobretudo na competição, reforçando como a pátria de Carlos Saura cresceu, tendo sido escolhida para abrir o Festival de Veneza, no dia 1º de setembro, com “Madres Paralelas”, de Pedro Almodóvar. Na terça, os ventos ibéricos deram uma aquecida no evento suíço com a projeção de “Espíritu Sagrado”, do estreante em longas Chema García Ibarra. Ele investiga a ufologia a partir de um grupo de estudiosos de óvnis cujo líder morreu faz pouco, deixando segredos. O que parecia ser uma sci-fi sobre os contatos imediatos da Península Ibérica com outras galáxias vira um filme de denúncia. Seu roteiro tem viradas inebriantes. A Espanha brilha na competição pelo Leopardo de Ouro também com uma comédia híbrida de conceitos documentais e da tal de “autoficção” chamada “Sis Dies Corrents” (ou “The Odd-Job Men” ou ainda “Os Faz-Tudo”). Com tempero catalão, o filme da diretora Neus Ballús colhe histórias de três profissionais autônomos que fazem de tudo, desde obras até bico de eletricista, numa Europa em trânsitos econômicos engarrafados, abalados pelas crises de $ no Velho Mundo. Dois desses personagens são espanhóis (e se orgulham demais disso) e um, o bombeiro hidráulico Moha, é um marroquino. Nenhum deles é ator, mas eles estão em cena atuando, recriando situações que eles viveram no passado e contaram à realizadora. Fala-se de prêmio de público e mesmo de um Leopardo qualquer, talvez o Grande Prêmio do Júri, uma vez que o longa está em concurso.
Locarno termina neste sábado, com a entrega de prêmios e a projeção de “Respect”, a biopic da cantora Aretha Franklin (1942-2018), com direção de Liesl Tommy.

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