Horror, ‘Lacuna’ que o Globoplay preenche bem

Horror, ‘Lacuna’ que o Globoplay preenche bem

Rodrigo Fonseca

10 de novembro de 2021 | 10h55

Lorena Comparato nos sets de “Lacuna”, que pode ser visto na grade do Globoplay

RODRIGO FONSECA
Sufocante estudo sobre o desespero como motor de apostasias (a recusa da fé, da crença), o thriller psicológico “Lacuna”, uma grata surpresa dos Originais Globoplay, já online, é um dos exercícios de tensão do cinema brasileiro – destituído de nosso histórico fardo sociológico – que mais se aproximam de um tipo de terror praticado em “O Homem de Palha” (1973). Não há como não se lembrar do cult de Robin Hardy, mesmo sendo este um filme insular, solar, e o longa-metragem nacional, dirigido por Rodrigo Lages, um conto banhado em sombras, levado pela fotografia de Daniel Venosa ao reino bipolar do chiaroscuro. Aliás um chiaroscuro que o refinado trabalho do colorista Pedro Saboya exponencia à excelência. Estamos diante de um turbilhão que se passa com uma jovem, Sofia, depois que sua mãe, Helena, sofre um acidente e passa, em sua recuperação, a dar sinais de um exótico – leia-se macabro – comportamento, com direito a falar línguas ancestrais, desenhar bizarrices e vagar como assombração por sua casa. Mas o ponto de conexão de Rodrigo com o sucesso de Robin se dá pela pertença de ambos a uma dramaturgia de filmes sobre rituais, sobre o culto a algo que “encosta” em nós e nos modifica, como um vetor de risco. Igualmente referente aqui é obra do nova-iorquino Ari Aster, com “Hereditário” (2018) e o majestoso “Midsommar” (2019), com o qual a minuciosa direção de Lages conversa mais, sobretudo em sua maneira de enquadrar a angústia da juventude. Aster tinha uma inflamável Florence Pugh em cena. Lages tem um incêndio em corpo vivo, no papel de Sofia, chamado Lorena Comparato, uma atriz capaz de milimetrar a ansiedade de suas personagens, como se viu em “Boca de Ouro” (2019), em que reinventa a rodriguiana Celeste.

Laila Zaid como Mizael: enigma do “extra-ordinário” defendido com requinte

Mais conhecido como roteirista (vide “O Doutrinador” e “Em Nome da Lei”, escrito em trocas com dínamos do script-tease), Lages explora seu devir cineasta calçando sua narrativa com uma cordilheira de vulcões, como é o caso de Kika Kalache, que nos lembra Sissy Spacek em “Carrie”, com seu oblíquo olhar de desterro na pele de Helena, a mãe quizilada. É por essa mesma linha Corrente de acerto que vai Laila Zaid, uma atriz que consegue sempre roubar cenas pela sutileza, vista em “Lacuna” no papel da solícita Mizael. É ela que ajuda Sofia a cuidar de Helena no hospital – e fora dele. Igualmente sutil é a composição de Priscila Maria, esbanjando retidão no papel da Dra. Julia. Entre os homens, numa narrativa sobre sororidade, Guilherme Prates (do ótimo “Motorrad”) defende bem o papel do romântico em vias de sufoco. Já Charles Fricks dá a seu personagem, um ex-padre, um tom de austeridade digna de um Peter Cushing. Esse foi um dos mais potentes atores da seara do mistério e do horror. Fricks se encaixa bem a esse registro, pela habilidade de transmitir – como poucos – uma placidez que se desfaz quando é envergada pelo inesperado, pelo inusitado. O diferencial aqui – na comparação com Aster ou mesmo com “O Homem de Palha” – é que não se trata de um filme fincado ao sobrenatural. Lages fez o que chamamos de “extra-ordinário”.
Esse é o termo da moda, falado desde “Trabalhar Cansa” (2011), para se referir à vigência de empuxos intraduzíveis, sem explicação, nas arapucas metafísicas armadas sobre nós, a partir de um olhar, nas margens do horror. O que é sobrenatural apresenta, de alguma forma, uma explicação. Exemplos: sabemos que os pesadelos das vítimas de Freddy Krueger têm uma fonte na ligação dele com o Além; assim como sabemos que Jason aparece toda Sexta-Feira 13 porque ele morreu, quando menino, por descaso de seus cuidadores, e sua mãe o condenou à danação eterna da vingança. No “extra-ordinário”, trabalha-se nas vias da sugestão, da ilação, da suposição, e não da certeza. Basta pegar o ancestral do filão: “O Inquilino” (“The Tenant”, 1976), de (e com) Roman Polanski. A loucura que o leva a emular os gestos da antiga moradora do apê que seu personagem alugou não tem uma justificativa na dramaturgia. O mesmo vale para o clima de estranheza em torno do recente “O Fio Invisível”, da peruana Claudia Llosa, hoje na Netflix.

Num devir Carrie, Kika Kalache satisfaz sua fome animal

Segundo essa estrutura do “extra-ordinário”, “Lacuna” está mais próximo de um drama familiar, ainda que tenha no suspense o diesel que incendeia suas estrelas, sobretudo Lorena, que nos conduz pela mão entre as frestas de insegurança que rondam Sofia. É um filmaço, que merecia muito ter vida nos festivais de cinema fantástico planeta afora.
No papo a seguir, Lages conversar com o Estadão sobre os dispositivos que escolheu para narrar “Lacuna”.
Que vertentes do terror existem hoje no Brasil e de que maneira as dimensões do assombro traduzem a realidade política do país?
Rodrigo Lages:
O terror existente hoje no Brasil não é só psicológico, ele é mais que real. Talvez nenhuma obra ficcional consiga traduzir tal realidade. Quando um país mergulha em um medo recorrente, quando tem fome e incertezas constantes, ele se torna um terror real infinito.
De que maneira “Lacuna” pode ser visto mais como um filme sobre laços de família do que como uma história de tons sobrenaturais?
Rodrigo Lages:
“Lacuna” foi pautado num drama familiar e essa sempre foi a base da narrativa. O terror foi implementado depois. A ideia era: E se? E se esta família, já problemática, descobrir que a origem de seus problemas vem do passado? E se esse passado tiver relação com algo obscuro, abrangente, e que, por conta da culpa que cerca as personagens, abre espaço para o Mal tomar conta do presente? É justamente nos vazios, nas lacunas dessa relação familiar, que o medo foi encontrado. Nosso monstro é o vazio.
De que maneira a pandemia amplificou certos códigos de vazio, de inquietude, que perpassam seu filme?
Rodrigo Lages:
Acredito que exista certa analogia entre o vazio existencial das personagens do filme e o vazio que todos nós sentimos ao longo da pandemia. Isso certamente pode ser encontrado no conceito espacial do longa e, também, na inquietude da protagonista, que não consegue aceitar a situação que está vivendo. Como muitos, que também não conseguiram, e ainda não conseguem, aceitar ou lidar com todas as mudanças inesperadas em suas vidas, com tudo o que vivemos no último ano e meio.

O roteirista e cineasta Rodrigo Lages: “Nosso monstro é o vazio”

p.s.: Após hiato de um ano por conta da pandemia do coronavírus, o Festival Ópera na Tela volta ao Parque Lage, no Rio de Janeiro, em sua sexta edição. De 13 a 24 de novembro o jardim do palacete recebe uma estrutura em forma de tenda montada a céu aberto, com poltronas confortáveis e uma tela gigante, em que os espetáculos serão projetados com som e imagem de alta qualidade. O evento conta com programação inédita no país: 11 récitas europeias, uma Gala do Teatro Alla Scala de Milao com cantores consagrados e, pela primeira vez, um balé: “O Corcunda de Notre Dame”, da Ópera de Paris, com a famosa coreografia do Roland Petit. Tudo isso a preços acessíveis. Os ingressos custam R$14 (meia entrada) / R$28 (inteira) e estão à venda no local ou em Sympla.com.br.

p.s. 2: Lamartine Babo, João de Barro, Almirante e Carmem Miranda, entre outros expoentes da música brasileira do século 20, serão homenageados na live “Vitrolinha animada”, neste domingo, dia 14 de novembro, às 16h, numa parceria entre o Grandes Músicos para Pequenos e o projeto “Diversão em Cena”. Com direção de Diego Morais e roteiro de Pedro Henrique Lopes, o programa vai apresentar o espetáculo inédito homônimo, quadros com muita música e brincadeiras interativas para toda a família. A livezinha será exibida no Facebook (facebook.com/DiversaoEmCena) e no canal no canal de Youtube da Fundação ArcelorMittal (www.youtube.com/FundacaoArcelorMittal). O musical “Vitrolinha Animada” começa quando os amigos e vizinhos Gabi (Analu Pimenta) e Tiago (Oscar Fabião) descobrem uma vitrola antiga da Vovó (Martina Blink). A cada disco que eles colocam na vitrola, são transportados para um universo mágico. Achando que a vitrola está com defeito, a dupla vai ter que usar a imaginação para fazer o aparelho antigo voltar a funcionar. Sucessos como “Tem gato na Tuba”, “Balancê”, “Carinhoso” e “Pirulito que bate” alegram e divertem o público a cada novo disco colocado na vitrolinha.

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