‘Homem Onça’: rugidos de Ken Loach

‘Homem Onça’: rugidos de Ken Loach

Rodrigo Fonseca

19 de agosto de 2021 | 11h56

Sônia (Silvia Buarque) toma uma cerveja com o marido, Pedro (Chico Diaz) e o amigo Dantas (Emílio de Mello) em “Homem Onça”

Rodrigo Fonseca
Atônito frente ao horror dos massacres cometidos pela Humanidade, na virada do século XIX pro XX, o querubim retratado por Paul Klee (1879-1940) em “Angelus Novus” (1920), signo do assombro diante da barbárie, pousa suas asas em “Homem Onça”, um dos sete concorrentes do 49º Festival de Gramado, exibido no fim de semana no evento, numa sessão (online) que reverbera até hoje. Há, no Anjo da História de Klee, um estarrecimento que se traduz num olhar de perplexidade. Há, no filme de Vinícius Reis, um par de olhos estarrecidos, umedecidos pelas tragédias do Brasil, os olhos de Sônia, papel que arranca uma das melhores atuações de Silvia Buarque. Seu rosto é uma paisagem que se racha com a fricção das placas tectônicas da política nacional, indicando sua solidariedade com seu companheiro, Pedro. A vida dele vai se bifurcar entre a cidade grande e o interior, a partir da crise da conversão de empresas públicas em iniciativas privadas. Pedro é o bicho que Reis (revelado com o documentário “A Cobra Fumou”, em 2002) arrancou da alma de Chico Diaz para servir como um termômetro de como os colapsos financeiros da pátria, galvanizados pelo desamparo do governo, alquebram nossa vida. Pedro e Sônia vivem juntos, sofrem juntos, criam uma filha (Valentina Herszage, numa delicada contrução de personagem), afastam-se e partilham de lutos conforme a velha estrutura das estatais vai se sucateando. Dividido em dois hemisférios, entre o governo FHC e o agora, o filme – que vai ser lançado em circuito no dia 26 de agosto – é uma reconstituição da era das privatizações, no fim dos anos 1990, construído a partir de uma mise en scène intimista, com uma fotografia de sobriedade plena (num trabalho minucioso de João Atala), realista, que observa, muitas vezes distanciada, a fervura de uma panela de pressão emocional. Estamos em 1997 e a Gás do Brasil, onde Pedro gerencia uma área de projetos ambientais, passa por um downsizing. Foices cortam pescoços em prol de um enxugamento monetário, desumanizando um ambiente profissional onde amizades descambam para a hostilidade. Reis é mestre nisso, na vertente ficcionista de seu cinema, como se viu no estonteante “Praça Saens Pena” (2009) e em “Noite de Reis” (2012), quando a harmonia entre grupos é subitamente trovejada pelo inusitado. Sempre atento aos conflitos de classe, o realizador passa pela tradição do cinema marxista conversando com o Ken Loach de “Você Não Estava Aqui” (2019) e com a estética antiliberalista de Stéphane Brizé (“Em Guerra”) mas não fica nele. Ele valoriza mais a dimensão existencialista do que a verve sociológica. O problema de Pedro não está no bolso e, sim, no peito, congestionado diante das bestialidades do sistema. O gradual adoecimento (ou melhor, “enojamento”) dele, que Diaz representa usando um rico ferramental de gestos, desperta a lembrança de “Mangue-Bangue” (1971), de Neville D’Almeida, quando o financista vivido por Paulo Villaça sai nauseado da bolsa de valores. A náusea de Pedro encontra uma cúmplice nas pálpebras Paul Klee de Sônia e no abraço de Lola (Bianca Byngton, numa atuação cheia de som e de fúria), a namorada com quem ele vai viver ao abandonar a metrópole e fugir pro mato. Lá, a metáfora da licantropia (efeito sobrenatural que transforma gente em animais, como os lobisomens) vai se exercitar com liberdade e força. Lá… no mato, o felino furioso que mora sob seu terno e sua gravata de executivo vai poder rugir furioso, inconformado. Daí o nome “Homem Onça”, um longa que se destaca ainda pela engenharia de som sofisticada de Waldir Xavier.

Cresce o boca a boca de público e crítica em torno de “Carro Rei”, de Renata Pinheiro, exibido na quarta. Sua estreia mundial rolou no Festival de Roterdã, na Holanda. “Transformers” meets Bob Wilson meets Stuart Hall, embalado numa direção de arte inventiva e aditivado por um Matheus Nachtergaele com aura de Gollum. Filme provocativo e inquietante em sua reflexão sobre a “maquinização” do humano. Uma tradução precisa de Renata Pinheiro para o “Manifesto do Ciborgue”, de Donna J. Haraway. Como sua exibição ocorreu em janeiro, em solo holandês, esta fábula perfumada a diesel passou a ser vista como o primeiro grande filme nacional de 2021, egresso de Pernambuco, a partir de Caruaru. A trama lembra muito “Bumblebee” (2018) em seus momentos iniciais, quando um garoto é salvo de um atropelamento por um carro com quem ele estabelece uma estranha conexão. Por “estranha” leia-se: ele fala com o tal carro. Anos depois, dedicado ao ativismo ambiental, o moço (Luciano Pedro Jr.) retoma relação com o veículo, mas percebe que existe uma aura totalitária nele, mas vê seu tio (Nachtergaele) se conectar com esse totalitarismo.
Entre os filmes em competição, há uma charmosa construção de dramaturgia no roteiro de “O Novelo”, de Claudia Pinheiro. Na trama, cinco irmãos que aprenderam com a mãe a fazer tricô para sobreviver recebem a notícia de que um homem em coma numa UTI pode ser o pai que os abandonou. Na sala de espera do hospital, eles mergulham em conflitos e memórias e, por meio do tricô aprendido na infância, restabelecem o vínculo fraterno enquanto o estado do tal homem se deteriora. A direção de arte de Thais Albuquerque Braga é um mimo à parte.

Matheus Nachtergaele em um de seus mais ferozes desempenhos em “Carro Rei”

Nesta quinta-feira, a disputa pelo Kikito enverada pelo universo literário de Lourenço Mutarelli com a adaptação de “Jesus Kid” feita por Aly Muritiba. No sábado serão conhecidos os eleitos do júri, formado pela editora de som Catarina Apolonio, o ator Fabrício Boliveira, a produtora Ana Paula Mendes, a atriz Carol Castro e o cineasta Tabajara Ruas.
As sessões de Gramado rolam no Canal Brasil, às 21h30, e no Canal Brasil Play.