Homem-Aranha e o fantasma de Sam Raimi

Homem-Aranha e o fantasma de Sam Raimi

Rodrigo Fonseca

04 de julho de 2019 | 12h24

Rodrigo Fonseca
Apesar de ter criado uma fauna de personagens memorável e de ter se configurado como a maior potência cinematográfica da atualidade, a Marvel Comics sempre se ressentiu do fato de não ter, em sua história, sagas do porte de “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, “Crise nas Infinitas Terras” ou “Watchmen” em suas fileiras, como a DC Comics conseguiu, incluindo via selo Vertigo, sua linha adulta. Mas, no caso do Homem-Aranha, o Mickey da Casa das Ideias, existe uma saga que está à altura do que Frank Miller, Neil Gaiman e Alan Moore criaram no império DCnauta: o arco “A última caçada de Kraven”, escrito por J.M. DeMatteis e ilustrado por Mike Zeck. Nesta quinta-feira em que o super-herói volta a ganhar holofotes cinéfilos, com a estreia do divertido e delicado longa-metragem “Homem-Aranha: Longe de casa”, olhares quadrinhófilos se voltam para a grande HQ do mascarado, centrado em seu embate final com o aristocrata russo Sergei Nikolaevich Kravinoff, um caçador chamado Kraven. Ok, o inimigo selecionado pelo diretor Jon Watts para o filme que estreia agora não é ele e sim um colega do caçador no Sexteto Sinistro, o mestre das ilusões Mystério. Ambos foram criados em 1964, mas não têm muito em comum. O caso é que a história de DeMatteis, publicada aqui em 1991 pela Abril, era determinante para o amadurecimento de Peter Parker, o alter ego do Aranha, da mesma forma como o longa de Watts parece ser capaz de redefinir seus caminhos afetivos.

Havia muito mais do que Tom Holland no Homem-Aranha anterior, o lúdico De Volta ao Lar, lançado há dois anos. Havia, em especial, o desempenho apoteótico de Michael Keaton para fazer do Abutre um dos vilões mais demasiadamente humanos do cinema. Aquele Aranha fez jus à trilogia de Sam Raimi, mas sem apostar no épico, tendo como diferencial social uma aposta num desenho multirracial, em que a mocinha é a atriz negra Laura Harrier. Numa atuação impecável, Laura foi primeira estrela afro-americana a encarnar o par romântico de Peter Parker e o fez com uma eficiência inquestionável. Mas, agora, temos um espólio de
guerra, edificado a partir do trauma deixado pelo combate contra o titã Thanos no seminal “Vingadores: Ultimato”. É hora de as feridas deixadas por aquela superprodução cicatrizarem.

Derivado diretamente da luta dos Vingadores para debelar o degredo de Thanos e as Joias do Infinito, o enredo de “Homem-Aranha: Longe de casa” fabrica o que periga a ser a mais bem aparada carta de intenções da cultura dos millennials, com toda a idiossincrasia e toda a relativização de uma cultura de lacrações. Tá ali do ladinho do recente “Fora de série”, de Olivia Wilde, espécie de censo cinematográfico dos padrões comportamentais da Geração Y. Assim como Olivia fazia uma radiografia de novas redes afetivas, montadas a partir códigos de lealdade que desafiam a velha noção de honra, Jon Watts, cineasta escolhido pela Marvel para repaginar seu aracnídeo quase sexagenário (o herói surgiu em 1962) nas telas, vai muito além da cartilha da aventura. Assim como fez no eficaz “Homem-Aranha: De volta ao lar” (uma produção de US$ 175 milhões, de 2017, cujo faturamento beirou US$ 880 milhões), Watts vai além da ação e se escora mais na crônica da adolescência, tendo Peter Parker como foco. Com um ator de talento e carisma tão profundos como o inglês Tom Holland, fica mais fácil fazer isso. Ele cria um Parker que mistura elementos da fragilidade do personagem nos anos 1960 com sua aguerrida reencarnação nos anos 2000, nas páginas da HQ “Ultimate Spider-Man”. É frágil, mas tem gana: como todo millennial, PP sempre tem algo a dizer, mesmo quando aquilo que diz não parece devidamente embasado. Mesmo assim, a doçura que transborda de cada gesto de Holland equilibra suas ações, sobretudo em sua interação com a MJ marota vivida por Zendaya, um dos talentos da atualidade, no ar, na HBO, com a série “Euphoria”. Capricha-se mais no despertar da Primavera entre ambos, em “Far from home” (título original do longa de Watts), do que no corre-corre herói x vilão, embora este também seja impecável. Aliás, impecável também é a versão brasileira, dirigida por Manolo Rey, com Wirley Contaifer dublando Holland.


Vimos o Homem-Aranha em “Os Vingadores” por três vezes, de 2016 a 2019, sempre como um pupilo do Homem de Ferro de Robert Downey Jr. O Vingador Dourado ganha múltiplas citações aqui, sobretudo pelo rumo que é dado a algumas de suas invenções. Não se esqueça de que ele criou uma armadura especial para o Aranha. E ela volta a ser usada aqui.

Diferentemente da fase Sam Raimi da franquia Aranha, que vai de 2002 a 2007, e alça seu voo máximo em 2004, no longa com o Dr. Octopus, o Teioso na versão Holland é menos épico e menos arquetípico do que o de Tobey Maguire. Aliás, toda essa safra de Watts parece mais McDonald’s e menos compromissada com os protocolos clássicos (e classicistas) do heroísmo. Até o vilão, Mystério, vivido com charme por Jake Gyllenhaal, carrega em si algo de ordinário. Não há nele a solenidade louca do Duende Verde de Willem Dafoe. É vilão “gentinha”, ainda que bom. Sua presença em cena vem atrelada às sequelas de Thanos: no início do filme, ele se apresenta com um vigilante de outra dimensão, empenhado em conter o avanço de monstros elementais (criaturas feitas de fogo, areia ou água), que vieram de seu plano de realidade. Mas, com o passar da narrativa, vemos que Mystério tem seus… mistérios e que esses são maus.

Estamos diante de um especialista em ilusões que esconde as fontes de seus “poderes”, mas se vende como um substituto para o Homem de Ferro. O legado deste precisa continuar e Parker, de passagem pela Europa, não está interessado nessa herança férrea.

Parker está de férias e sonha com os beijos de MJ, cortejada por um colega mané. Seu colega mais querido, Ned (o genial Jacob Batalon), está deitando e rolando num namoro. Sua tia, May (Marisa Tomei, sempre em atuações radiantes) parece ter encontrado um amor ligado à vida secreta de seu sobrinho. Seus hormônios seguem em fervura máxima – embora os millennials pareçam não admitir esse vetor biológico. Com tudo isso, surge Mystério.

Esse “tudo isso” se traduz em cenas de ação editadas a partir de uma montagem arejada, que valoriza a elegância nas coreografias das batalhas. O humor está lá na dose precisa, sem cair para a chanchada, como o pavoroso “Thor Ragnarok” (2017). E as cenas pós-crédito acentuam o suspense, abrindo precedente para a nova fase da Marvel. Algo diz que Kraven vem aí. Tomara que o texto de J.M. DeMatteis sobre ele possa ser revisitado.

Só falta ao filme na alma ultrarromântica de Raimi. A humanidade que ele imprimia parece ter se pedido. E faz falta. Para os curiosos, uma informação: devotado à produção há anos, Raimi está preparando o projeto de fantasia “The Kingkiller Chronicle”, para voltar à direção.

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