‘Hollywood’: olhar cômico sobre Mamet e ocaso do macho

‘Hollywood’: olhar cômico sobre Mamet e ocaso do macho

Rodrigo Fonseca

07 Maio 2017 | 11h33

Elenco azeitado, com destaque para Ricardo Pereira, fazem de “Hollywood”, versão de Gustavo Paso para “Speed The Plow”, um Mamet catártico (e alarmante)

RODRIGO FONSECA
Literatura obrigatória sobre a ficção contemporânea, refém sobretudo da televisão, o livro Homens Difíceis, de Brett Martin, aponta um lugar comum na dramaturgia destes tempos na recorrência de fraturas na masculinidade, numa onipresença de tipos masculinos alquebrados. É algo que vem na esteira do debate sobre o empoderamento feminino. O cinema parece estar fazendo de tudo para driblar essa tendência, vide seu filão mais rentável – os heróis Marvel -, mas o teatro, pelo contrário, lambuza-se nesse estado de coisas, em especial o ambiente cênico brasileiro dos últimos dois anos. Este vive recheado de espetáculos ligados à fragmentação do devir masculino, como se vê na obra-prima do momento – a extraordinária montagem de Rodrigo Portella para Tom na Fazenda -, em espetáculos do ano passado que se encontram de (necessário) regresso – A Tropa, de Gustavo Pinheiro – e em pérolas que acabam de aportar, em especial Hollywood, de Gustavo Paso. O texto está em cartaz no Teatro Poeira, onde fica até 25 de junho. Coerente a um caminhar que o diretor vem trilhando desde Garagem, de 2013 (numa salutar parceria com o ator Gustavo Falcão), esta leitura hilária (e aeróbica) de Speed the Plow (1988), de David Mamet, é uma tradução das mais felizes do crepúsculo do Tarzan reminiscente no peito dos homens, assim como revela a erosão de nossa porção Homer Simpson.

 Experiências recentes da cena carioca como Ouroboros, de Adriano Garib; Elogio da Paixão, de Marcelo Pedreira; e O Último Lutador, de Marcos Nauer e Teresa Frota, ao lado de todo o repertório recente de Paso – com destaque para Race – serviram como indicadores para esta discussão sobre o processo de definhar da virilidade, da hombridade e de uma lealdade masculina. Nessa escalada, Hollywood chega como um olhar catártico para este decadentismo de valores outrora inabaláveis – tão inabaláveis que, no cinema, erigiram um gênero senhorial, o faroeste, hoje um simulacro de si mesmo. É um texto sobre as engrenagens da indústria do cinema americano, mas visto numa ótica universal: antes de serem executivos, seus personagens são homens… homens em atomização, pelo desejo castrado, pela cobiça insaciável, pela perda de lugar na estrutura social da evolução e da preservação das espécies. Temos um executivo com deveres irrefreáveis, Tony Miller (Claudio Gabriel, em luminoso domínio de sua disciplina teatral), e um parceiro de prospecção de roteiro, Daniel Fox, que acredita ter ouro nas mãos. O papel é dividido entre Falcão (o Joe Mantegna do teatro carioca) e um inspiradíssimo Ricardo Pereira, com quem o P de Pop viu a estreia da montagem. Em ascensão na construção de uma carreira como ator que vá além da condição de galã, tendo sido aclamado lá fora por seu desempenho em filmes como Cartas da Guerra (2016), Pereira chega a evocar Buster Keaton em seu caratê cômico no palco do Poeira. Ele arranca gargalhadas num embate que exige do ator um ferramental físico amplo, seja pelo perfil trincado de pó de Fox, seja pela comichão marketeira para vender a Miller um projeto que pode render milhões ao estúdio no qual ambos trabalham.

O fino da fossa (fotos de André Moragas)

Temos entre eles uma secretária (ou mais do que isso), vivida (muito bem aliás) por Luciana Fávero, que sublinha cada fala do texto com o pilot vermelho da ambiguidade. Ela tem beleza para provocar ambos. O mesmo vale para sua inteligência, ferina até na hora de inventar um jeito sensual de tirar os sapatos. É com esse poderio que ela tenta convencer Miller a dobrar-se a suas vontades e não à vaidade de Fox.

O que mais se impõe na montagem de Speed The Plow é a dinâmica de centrífuga como a direção de Paso arranca os resquícios de dignidade de seus três personagens, liquefazendo virtudes em prol de um projeto de progresso individual tipicamente yuppie, antenado com os anos 1980, mas ainda presente nos organogramas empresariais. Com um domínio pleno do ferramental do riso, beirando uma corporalidade quase slapstick, quase Jerry Lewis, Paso resume o oitentismo aqui a um leve cheiro, trazendo exemplos da contemporaneidade e tiques (necessários) de brasilidade, expressos numa discussão sobre a obsessão nossa com a comédia neochanchada. Ato a ato, sua encenação vai politizando mais o texto, ressaltando seu parentesco com outro Mamet de vulto, Sucesso a Qualquer Preço (1983), e revelando o quanto o dramaturgo descobriu, ao longo das últimas três décadas, sobre o estilhaçamento das certezas masculinas, sobre a diluição da macheza. O plástico bolha no cenário – frondoso à primeira vista, explosivo numa segunda mirada e murcho após o contato corpo a corpo – é a metáfora maior para o que sobrou da masculinidade na estética de Mamet, expressa aqui numa luz noir feita por Paulo César Medeiros, que só realça o tom de ressaca e de fossa.