Hoje na TV, ‘Tatuagem’ marca um X no peito da hipocrisia

Hoje na TV, ‘Tatuagem’ marca um X no peito da hipocrisia

Rodrigo Fonseca

05 Dezembro 2017 | 13h13

Jesuíta Barbosa e Irandhir Santos têm atuações memoráveis em “Tatuagem”

Rodrigo Fonseca
Elogio ao querer e à resistência, Tatuagem talvez seja o mais potente “rasga-coração” do nosso cinema nesta década, quando o assunto é o amor romântico. Mas teve um destaque mundial bem aquém de sua potência, coroada com um balde de prêmios em sua passagem pelo Festival de Gramado de 2013. É noite de conferir sua beleza no Canal Brasil, em sessão às 22h desta terça-feira (5/12).

Do fino da fossa à apoteose da saudade, do desabafo amoroso à marchinha, da ladainha romântica à quaresma pós-Quarta de Cinzas, duas canções servem de bússola à Tatuagem. Arquitetado como sinestesia a partir da fotografia sensorial de Ivo Lopes Araújo, o longa-metragem foi responsável por consagrar um dos roteiristas mais aclamados do país, o pernambucano Hilton Lacerda, como diretor de ficção. Em seu eixo de abertura vem Esse Cara, e, de seu fecho, brota Bandeira Branca. No trânsito de uma música à outra, numa reconstituição de Pernambuco em 1978, acossado pelo governo militar, uma paixão de opção declarada pela igualdade vai sendo costurada, ao mesmo tempo em que se desenha um painel de formas de resistência à repressão (ditatorial, sexual, em suma, ideológica). Nele, uma trupe teatral, alocada em um cabaré, o Chão de Estrelas, serve como um bunker para a liberdade a fim de combater a opressão fardada no governo, ao mesmo tempo em que o diretor/mentor do grupo se joga nos braços de um soldado recém-integrado às Forças Armadas.

Quem mais (e melhor) resiste aos milicos (e a todo o resto), no recorte histórico/estético de Lacerda, são as artes. De um lado, a arte de representar (na forma do teatro, da poesia e do cinema) e a arte de amar (na forma fálica de um aríete em marcha contra a hipocrisia). No casamento desses dois hemisférios, celebrado em um gesto político, surge um longa muitas vezes rotulado de “filme-gay”, mas que, mesmo numa exposição viril (grifo obrigatório) da homoafetividade, transcende bandeiras. O corpo é seu leme, seu norte. O corpo como estandarte da vida, em suas planícies e falésias, seus desastres e seus carnavais.

Incorporando Maria Bethânia, de microfone em punho, Clécio Wanderley (Irandhir Santos), ator, dramaturgo e cabeça do clã de artistas responsável pela ocupação do Chão de Estrelas, amplia a libido da Recife dos anos 1970 ao som de Esse Cara. Nos versos “Ele está na minha vida/ porque quer/ eu estou pro que der vier”, Clécinho dá sinal verde para que desejos tatuados em corações empapuçados de cerveja ganhem forma e suor. Entre eles o desejo que sente por um jovem recruta, Arlindo, vulgo Fininha, interpretado por Jesuíta Barbosa. Os beijos trocados por eles nas madrugadas pavimentam uma relação sólida em um mundo em transformação: uma cidade que, feito um espelho do Brasil, reflete as instabilidades políticas dos anos de chumbo. Um mundo desafiado pelas irreverências de Clécio e seus atores em números musicais como a polca Canção do Cu, mimo da trilha de Dj Dolores.

Mas o bem-querer de Clécio e Fininha é apenas uma de muitas relações cimentadas por Lacerda numa narrativa interessada em conjugar o verbo gostar (de alguém) sob diferentes desinências. Entre elas estão a paternidade (pós-moderna) e a amizade, representada no cabo-de-guerra coberto a plumas entre Clécio e a diva do cabaré, Paulette (vivido por Rodrigo Garcia, em um brinco de atuação).

Xará do thriller dirigido em 1981 por Bob Brooks com Bruce Dern e de um drama alemão de Johannes Schaaf, a Tatuagem audiovisual de Lacerda, retocada pela atuação devastadora de Irandhir, demarcou (uma vez mais) o (alto) relevo da linhagem recifense no cinema nacional. Foi abençoada com o Kikito de melhor filme em Gramado, quatro troféus Redentor no Festival do Rio (incluindo o prêmio Fipresci, da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica) e com a fama de ter esgarçado as fronteiras da discussão sobre identidade sexual na tela para fora das entradas e bandeiras de guetos e nichos. E, quando vem Bandeira Branca, gemido por Dalva de Oliveira como um fado, sabe-se que Lacerda pede paz ao esquadrinhar nossa capacidade de perder e de nos regenerarmos na bitola Super-8 do amor.

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