Hoje é dia de soul: Tony Tornado vai fazer furacão no palco do Riachuelo

Hoje é dia de soul: Tony Tornado vai fazer furacão no palco do Riachuelo

Rodrigo Fonseca

19 de junho de 2019 | 11h17

Nascido 89 anos atrás no Mirante do Paranapanema (SP), mas adotado pelo RJ, Tony Tornado solta seu suingue esta noite, no palco do Teatro Riachuelo (fotos de Vinícius Giffoni/ Divulgação)

Rodrigo Fonseca
É dia de soul no Rio: às 20h desta quarta-feira, véspera de feriadão, Tony Tornado sobe ao palco do Teatro Riachuelo, no Centro, para fazer seu furacão de suingue. No show, saudade, aquele vocábulo doído, que se traduz melhor com canções do que com palavras, vai tomar conta do espaço, conforme os acordes de “BR-3” forem saltando dos lábios do veteraníssimo cantor (com seus 89 bem vividos aninhos) e de seu filho e fiel escudeiro, Lincoln Tornado – um fenômeno na dança. Os dois entram em alquimia num espetáculo em que se canta, contam-se histórias, relembram-se coisas que a música brasileira e a black music americana tornou mais gostosas. Ao lado dos Tornados estão a cantora Francine Môh, a Funkessência (uma das melhores bandas do país hoje) e dos músicos convidados Tinho Martins e Júlio Brau.

“Todo show tem sua magia e todo público tem seu encanto, don”, conta Tony, que nasceu há oito décadas (quaaaase nove!) em Mirante do Paranapanema, no interior de São Paulo, mas acabou transformado em carioca por identificação com o gingado do RJ. “Aos poucos, eu fui melhorando o show, artística e musicalmente, junto com meu filho e com meus músicos. Isso faz de todo show uma alegria e uma satisfação em ver a meta realizada. Estou sempre buscando… O melhor show é aquele que ainda irei fazer. Eu carrego isso em mente e, de certa forma, isso me inspira e me renova. Agora, digo para você que voltar a cantar no Rio e fazer pela primeira vez o show no Imperator, no início deste ano, foi uma emoção indescritível, talvez a maior. Eu falo há algum tempo com o Lula Moura, meu amigo, assessor e produtor, que não me conformava em não ter feito show na terra onde me criei e que me projetou. Bom, mas o meu melhor show mesmo, anote aí: será o próximo”.

Ícone no cinema, com filmes lendários como “Pixote – A lei do mais fraco” (1981) em seu currículo, ele tem um lugar cativo na TV, onde foi visto, recentemente, na série “Carcereiros”, premiada na França, pela contundência de sua radiografia das mazelas culturais do Brasil. Contradições que ele – nascido há 89 anos– pôs nas entrelinhas de melodias embaladas de lirismo, numa estética de “brodagem”. É uma estética que vem desde o fim dos anos 1960, tempos em que ele cantava sob pseudônimo americano (foi Johnny Bradfort e Tony Checker), mas salpicando brasilidade a cada Get up, (get on up) que decalcava de James Brown e afins.

“A música sempre foi minha paixão. É uma coisa que me puxa, é a vocação. Eu gosto de ouvir música, eu gosto de estudar música, conversar sobre música e, claro, cantar e dançar. E o público, também, é uma outra espécie de filho que levo comigo. Nos shows, é uma troca de energia muito grande e que me renova”, diz o cantor.

Histórias sobre a dedicação profissional de Tornado vão integrar o livro que o poeta Lula Moura, produtor do show do dia 19 prepara, com base na “BR-3″ e na trajetória do cantor. Entre as novas gerações de artistas negros do país, Tornado ainda levanta poeira. “A emoção de dividir o palco com meu pai faz eu pensar como é incrível estar ao lado da minha história pessoal e da história da música brasileira ao mesmo tempo”, diz Lincoln. “Ele, além de participar, assistiua o surgimento de diversos nomes da música e da televisão e viu muitos içarem vôos altos, atingirem o êxito nas carreiras. Ao mesmo tempo, viu e participou também do meu progresso, principalmente como ser humano. Ao mesmo tempo que chamo meu pai para assumir o leme do show, chamo ao palco um dos maiores nomes da história da arte brasileira. Isso é demais. Como é demais a sensação de interpretar ao lado dele. Ele é o meu maior ídolo, pessoal e profissional. Um privilégio. Um aprendizado constante. Na real, gratidão é o nome do que sinto.”

Coruja, Tony retribui o afeto de Lincoln com admiração pelo talento de seu rebento. “O Lincoln é o filho com quem eu tive a oportunidade de conviver mais, em função da idade dele. Ficou mais parceiro, mais ligado. E é o único que foi mordido pela mosca da arte e que resolveu encarar essa loucura que é ser artista. E está indo muito bem, tanto como cantor, compositor ou ator. Inclusive ele acaba de chegar de Marrocos onde foi gravar cenas do seu personagem na novela ‘Jezabel’, na Record. Ele faz o General Abbas, braço direito do rei Ben Hadade, comandante do exército sírio”, conta Tony, todo pimpão diante do êxito de sua cria. “Tenho muito orgulho dessa trajetória dele, parecida com a minha. Dividir o palco com Lincoln, vendo-o seguir meus passos, é fantástico. E seguindo literalmente, pois ele está dançando como os melhores do soul. E eu nunca forcei nada, pelo contrário. Ele é bom demais, não é por ser meu filho. O nome dele já é emblemático, don. Não escolhi à toa. Lincoln traz no nome a luz de um cara que valorizou essa coisa da igualdade entre as pessoas independentemente de posição, de cor ou que quer que seja. E, sim, me renova estar no palco com ele. É algo que me complementa. Poder apresenta-lo como o cara que hoje faz com a dança o que minha coluna me dificulta é lindo demais. É sim uma das coisas que me faz seguir em frente”.

Para quem testemunhou as mais transformações na música brasileira nos últimos 50 anos, caso do crítico Tárik de Souza, dá a Tornado lugar de honra na História. “Ele literalmente corporificou o soul brasileiro para as massas. Seu desempenho na ‘BR-3’ abriu uma autobahn para discípulos de James Brown e futuros bailarinos do passinho”, abençoa Tarik, referindo-se ao hit que deu ao cantor, às voltas com o Trio Ternura, a vitória no Festival da Canção em 1970, quando ainda assinava Toni, com “i”.

Era um período no qual ele encarava o preconceito racial, inimigo que segue a assombrar seus caminhos. “A luta do negro no Brasil se confunde com a luta do pobre. É uma coisa só”, diz Tony. “Ainda somos um país de desigualdades”.

p.s.: Às 2:22 do feriadão de Corpus Christi rola “O Grande Hotel Budapeste” na TV Globo: é o maior sucesso de bilheteria de Wes Anderson, tendo custado US$ 25 milhões e faturado US$ 175 milhões, consagrando-se ainda com a conquista do Grande Prêmio do Júri da Berlinale e com quatro Oscars.

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