Ho Chi Minh à moda carioca num filme que funde fato, fábula, identidade e inteligência

Ho Chi Minh à moda carioca num filme que funde fato, fábula, identidade e inteligência

Rodrigo Fonseca

26 de junho de 2019 | 13h22

Rodrigo Fonseca
Roteirista do delicioso “180º” (prêmio do júri popular de Gramado em 2010), Cláudia Mattos, uma referência de excelência no jornalismo carioca, promete surpreender o cinema nacional este ano com uma experiência narrativa de longa metragem nas franjas estéticas da ficção, do documentário, da História e do mockmentário: “O Rio de Janeiro de Ho Chi Minh”. Já inscrito numa série de festivais do Brasil e do exterior, o filme é um jogo da amarelinha cortazariano entre fato, fábula e imersão sensorial. Sua narrativa evoca o legado do líder vietnamita a partir de uma premissa na raia da invenção que o liga ao RJ do início do século XX. Na trama, o neto de um marinheiro sobrevivente da Revolta da Chibata tenta documentar a história que ouviu do avô quando criança: na década de 1910, o velho, chamado Faca Cega, foi amigo de Ho Chi Minh (1890-1969), trouxe o futuro líder vietnamita para o Rio, e apresentou o futuro estadista ao socialismo. Esta amizade mudou a Era dos Extremos. Por isso, Cláudia, amiga da gente, avisa: “tudo neste filme é ficção, menos as verdades”. Um mimo à parte da diretora: o ator e cineaste Luiz Antônio Pilar, realizador do .doc “Candeia” (2018), é o protagonista, o neto de Faca Cega, numa ponte entre a afrobrasilidade e a memória vietnamita.

Qual é o painel que o seu filme traz do pensamento político de Ho Chi Minh e o quanto de “carioquice” ficou de saldo nesse seu trânsito pelo Brasil?
Cláudia Mattos: Alguns historiadores afirmam que o comunismo de Ho Chi Minh era mais pragmático do que ideológico. Acima de tudo, ele queria a independência do Vietnã, que era, então, uma colônia francesa. E foi a URSS e a China que lhe deram apoio. Então ele abraçou o socialismo. Segundo essa linha, quando deixou o Vietnã, com cerca de 20 anos, ele estava longe de ser um revolucionário de esquerda. Tanto que a primeira coisa que ele faz ao pisar em solo francês é pedir uma vaga na Escola Colonial de Paris, que formava os funcionários públicos para as colônias. Foram esses anos… rodando pelo mundo como marinheiro… que o aproximaram do socialismo.
O filme parte deste raciocínio para mostrar como a amizade com o marinheiro brasileiro Faca Cega, um negro sobrevivente da Revolta da Chibata e comunista de primeira hora, foi fundamental na guinada dele em direção ao socialismo.
Os vietnamitas estão muito distantes do estereótipo que temos dos orientais. Eles são expansivos, falantes, calorosos, piadistas, matreiros e festivos. Ho Chi Minh provavelmente se sentiu em casa no Rio.
O jeitinho, a improvisação e o jogo de cintura foram fundamentais para que o Vietnã derrotasse a França e depois os EUA em duas guerras de Davi x Golias. Já como presidente do Vietnã, Ho Chi Minh se tornou uma figura ímpar entre os líderes comunistas. Enquanto URSS, China e países do Leste Europeu produziram líderes carrancudos, HCM era uma figura doce, sempre sorridente, que se fazia fotografar e filmar em conversas animadas com gente do povo, brincando com crianças e adolescentes e plantando árvores. Vem daí o apelido de Uncle Ho. Sem contar que ele adorava fazer metáforas políticas com o futebol. Quem sabe tem um dedinho de carioquice nisso?

Qual é o Brasil histórico que está no .doc e o quanto ele se distancia ou se aproxima deste nosso momento?
Cláudia Mattos:
O filme vai da Revolta da Chibata de 1910 à Gripe Espanhola de 1918. Ele se concentra mais na realidade carioca do que na brasileira como um todo. São anos que marcam o nascimento da carioquice. É quando temos o nascimento do samba, a popularização do futebol, o uso da praia como espaço de lazer, a glamourização da malandragem. Tudo isso tendo como epicentro à Zona Portuária. O filme está mais próximo de uma crônica histórica (no estilo de Luiz Edmundo, a quem o título presta homenagem) do que da crítica histórica. É a Belle Époque. Enquanto Pereira Passos tenta fazer da cidade uma Paris Tropical, a Pequena África ensina o Rio a ser carioca. Sem a cultura negra, não haveria carioquice. É nesse universo que Ho Chi Minh transita, tendo Faca Cega, um negro, como guia. O Rio tinha zilhões de problemas, mas era uma cidade alegre e otimista. Há menos de 5 anos, vivemos um período semelhante. Mas, em nossa trajetória, os ciclos virtuosos sempre são curtos. Hoje, nossa cidade, nosso estado e nosso país são retratos do abandono e da desesperança.

A diretora carioca Cláudia Mattos, premiada nos EUA pelo roteiro de “180º”, ganhador da láurea de júri popular de Gramado em 2010

E há alguma analogia com os dias de hoje?
Cláudia Mattos:
O filme também procura fazer um paralelo entre o Vietnã e o Brasil contemporâneos. Há menos de 50 anos, o Vietnã era uma terra arrasada, como uma geração inteira perdida em guerras, e o país se reconstruiu de uma forma inacreditável. Hoje é um país pulsante que está entre os que mais crescem economicamente no mundo. Claro que eles têm muitos problemas ainda a serem resolvidos – inclusive de ordem política – mas acharam uma saída para uma situação muito pior do que todas que a gente já viveu. Já o Brasil parece que passa a vida toda subindo um lance de escada para, em seguida, despencar dois andares.

p.s.: Nesta quinta-feira, às 17h30, a Academia Brasileira de Letras (ABL) recebe o diretor Joel Zito Araújo (de “Filhas do vento”) para a palestra “O Negro no Cinema Brasileiro”. A palestra dele encerra o ciclo “Vozes d’África na cultura brasileira”. A ABL, casa fundada por Machado de Assis, fica Av. Presidente Wilson, 203, Castelo.

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