‘Histórias Veladas’ desvelam a noite carioca

‘Histórias Veladas’ desvelam a noite carioca

Rodrigo Fonseca

29 de janeiro de 2020 | 17h10

Ciranda de autoficções, fábulas e uivos de engasgo compõem a partitura de “Histórias Veladas”: toda quarta na Z42, casarão no Cosme Velho

Rodrigo Fonseca
Canto de bodes pra ninar desatenções nossas na confluência de gêneros, “Histórias Veladas”, um dos mais provocativos experimentos do teatro brasileiro do ano que passou, volta agora às noites cariocas, todas as quartas-feiras, a começar de hoje, às 20h30, com fome de troca. Quem organiza o escambo é Marta Paret, na direção de um jogral de encenações que preenchem nossas faltas e espreitam nossas falhas. Autópsia em corpo vivo e combativo dos modos femininos de resistir, esse ritual em forma de peça se celebra no sótão da Z42, um bunker de arte e afetos pintados, esculpidos e encenados, localizado na R. Filinto de Almeida, 42, no bairro do Cosme Velho, no RJ. Estruturado como um foot movie de encenações e recitações por uma mansão de encantos, o espetáculo (daqueles com E, maiúsculo, miado, sarado e suado) é mais jira do que contação de história. É um jogral em que palavras não são nunca portos de chegada e, sim, hangares de decolagem. Em cena, quais atenienses na Ágora desapegada de oráculos da sororidade, a tropa formada por Ângela Câmara, Beatriz Marques, Dayse Pozato, Flávia Fafiães, Giedre Bonfim, Luciana Maia e a própria Paret (artaudiana) rufa o atabaque da memória, da autoficção, da vivência na 1ª do singular. O resultado, contudo, vai para a 1ª do plural, num exercício de “nós” para desatar todos os nós das práticas sexistas de cada dia.
“Há dez anos, aproximadamente, eu venho investigando o teatro para além do palco tradicional (arena, semiarena, italiano) e ocupando espaços de uso não convencional”, explica Marta. “A ideia de um espetáculo feminino, a partir de vivências próprias, nasceu antes de nos instalarmos no sótão. Quando o diretor da Z42 abriu a casa, eu não tive dúvidas sobre a minha escolha em criar o espetáculo naquele último andar. O diálogo de cada canto utilizado daquela área com as histórias contadas foram surgindo quase simultaneamente. O tema era atraído para uma região e a história amalgamada de acordo com o local. A arquitetura apresentada, desenhada também pela luz, expandia, contraía, intensificava (etc.) a experiência proporcionada entre atrizes e público”.

No processo de garimpo da trupe de Marta, trombeteia-se um aboio inicial: tudo parte de uma fábula sobre um rei que constrói redomas para sufocar vozes, sobretudo palavras feminina. Há um relato digno de Jacques Tati (feito por uma faiscante Dayse) sobre a Barca Viking do finado Tivoli Park. E há histórias de abusos, de desdém, de pileques que passam da dose de parar, de pais intolerantes, de bebês abortados, de úteros que vazam por vetor do veto (à conversa, ao afago), de bullying. Como dizia um filósofo brasileiro, Paulo Vaz: “Por mais que existam múltiplas formas de se viver, existe um número muito maior de se formas de se boicotar o dia a dia”. A dica, quem dá foi o dramaturgo Jean Anouilh (1910-1987): “Existe o amor, é claro; e existe a vida, sua inimiga”. O trabalho de Marta, Dayse & cia. referenda essa constatação do autor de “O viajante sem bagagem”. E a inimizade é feroz.
“Na peça, experimentei diversas possibilidades antes de decidir a ordem das histórias e a ocupação dos espaços. O especulo, como uma música, encontrou sua versão final depois de muitos ensaios”, explica Marta. “Durante o processo, que foi longo para os padrões atuais, entendi que o projeto era sobre histórias de mulheres e não de atrizes. Histórias próprias, apenas editadas para a peça. Tinha plena percepção que o momento exige a legitimidade do lugar de fala. E quanto mais histórias mais poderíamos abraçar nossas questões, que são muitas. Algumas conseguimos tocar”.
Nessa ciranda puxada por Dionísio, no pancadão de um RJ embalado pelos ruídos da contradição social, temos uma conexão com outras peças seminais que se passaram em 2019. São bons exemplos “A guerra não tem rosto de mulher”, encenada por Marcello Bosschar, com Carolyna Aguiar, feita no Midrash a partir dos escritos sabor Nobel da bielorrussa Svetlana Aleksiévitch); e “Meninas e Meninos”, com a espoleta Maria Eduarda de Carvalho, no Poeira. Na guerra pela mobilização de olhares em prol da igualdade (de gêneros e raças) e da respeitabilidade, não há blocos do eu sozinho… há comunhões, conscientes ou não, como a dessas belas peças. Como a das atrizes em estado de graça no Cosme Velho que rasgam o véu da opressão, regressando à cena. Tem toda quarta. Perde não.

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