‘Histórias Veladas’: deslindando assombros

‘Histórias Veladas’: deslindando assombros

Rodrigo Fonseca

14 de dezembro de 2019 | 01h28

Jogral de sororidades em “Histórias Veladas” – @foto de Marcio Martins

Rodrigo Fonseca
Desafiada, em sua passagem pelo Brasil, em 2009, a estabelecer uma reflexão sobre o que seria gerar “narrativas femininas”, ou, talvez, “narrativas feministas” – conceito em que o banho de descarrego em forma de peça “Histórias Veladas” leva a gente a pensar – a cineasta belga Chantal Akerman (1950-2015) usou uma só palavra: “vastidão”. “Ser mulher é ser vasta”, disse a diretora, num gesto atípico para seu comportamento habitualmente avesso a definições e rotulações. Ao refletir sobre a provocação que lhe foi proposta, há uma década, no CCBB-RJ, a realizadora de “Toda uma noite” (1982) e “Jeanne Dielman 23 Quai de Commerce 1080 Bruxelles” (1975) lembrou de uma experiência que teve lendo Proust, à procura da cronologia perdida de si mesmo e da tal “identidade do feminino”. Disse Chantal: “Quando se lê um livro… um romance ou conto…, o tempo que está ali é o nosso tempo, da nossa distensão, do nosso ralentar, das páginas que a preguiça nos leva a salta. Num filme ou numa peça, o tempo que rege o sensível é ditado pelo narrador, autoritariamente. Mas o tempo que se abre, na velocidade do outro, é um tempo de alteridade, de reconhecimento do próximo, de escuta. Lendo Proust, tive um choque quando ele fala que, sempre que beijava sua avó, incomodava-se com a sensação de estar apenas a beijar seu exterior, nunca sua alma. Olhar o outro é fitar apenas o que está no exterior. A menos que uma imagem seja entendida como imagem, como um oceano de significados. Aí um rosto vira algo a ser decifrado com um dicionário. Um dicionário de vivências”, filosofou a realizadora, em terras cariocas, dez anos atrás, ao falar da pressa com que um cinema “mais espetaculoso do que espetacular”, refém de bilheterias, “lia” o feminino apenas como aparência, como maquiagem, não como signo… vasto. E sob essa lógica dela não há como entender um trabalho como a peça supracitada – dirigida por Marta Paret e encerrada esta noite no RJ, num casarão-galeria de arte no Cosme Velho – que não como a tal ideia de espetáculo… com E… levantada por La Akerman.
Estruturado como um foot movie de encenações e recitações por uma mansão de encantos, numa subida do RJ, “Histórias Veladas” é mais jira do que contação de história. É um jogral em que palavras não são nunca portos de chegada e, sim, hangares de decolagem. Em cena, quais atenienses na Ágora desapegada de oráculos da sororidade, a tropa formada por Ângela Câmara, Beatriz Marques, Darla Ferreira, Dayse Pozato, Flávia Fafiães, Giedre Bonfim, Luciana Maia e a própria Paret (artaudiana) rufa o atabaque da memória, da autoficção, da vivência na 1ª do singular. O resultado, contudo, vai para a 1ª do plural, num exercício de “nós” para desatar todos os nós do sexismo de cada dia. Há uma aboio inicial, sobre um rei que constrói redomas para sufocar vozes – palavras feminina. Há um relato digno de Jacques Tati (feito por uma faiscante Dayse, inspirada) sobre a Barca Viking do finado Tivoli Park. E há histórias de abusos, de desatenções, de bebidas que passam da conta, de pais intolerantes, de bebês abortados, de úteros que vazam por vetor do veto (à conversa, ao afago), de bullying.

Cachaça, humor, pranto e fantasia regam as palavras deste coral de resistências – @foto de Ricardo Fasanello

Em cena, uma mulher trans do elenco, Beatriz Marques (em sólida, mas afetuosa atuação), abre seu viver, generosamente, para o público num memorialismo que converte saliva em água benta e nos liberta de intolerâncias das mais microfísicas. É uma imolação de uma dignidade singular, um ímã de prantos, na reconstituição de uma (re)nascença a partir da adoção de um nome social de mulher. Há um pouco de tudo cem cena… de angústia, de sorrisos, de desabafo, de girafas elegantes, de doses de Caninha da Roça (ou poções que o valham). Esse tudo entra, bate e fica, jamais na violência, mas na urgência. São relatos que, como dizia Chantal (artista que faz falta), fazem “gente olhar pra gente, levando a gente a ser a gente”. Uma rosa é uma rosa é uma rosa… e nunca só pela delicadeza, mas também pelo espinho, muito pelo verde, demais pelas pétalas que voam e se espalham, como cheiro, como sentido. Nesse ritual de Dionísio temos uma conexão com outras peças seminais deste ano – como “A guerra não tem rosto de mulher”, de Marcello Bosschar, com Carolyna Aguiar (feita no Midrash a partir dos escritos sabor Nobel da bielorrussa Svetlana Aleksiévitch); como “Meninas e Meninos”, com Maria Eduarda de Carvalho, no Poeira. Na guerra pela mobilização em prol da igualdade (de gêneros e raças) e da respeitabilidade, não há blocos do eu sozinho… há comunhões, conscientes ou não, como a dessas belas peças. Como a das atrizes em estado de graça no Cosme Velho que rasgam o véu da opressão.

Nessa caminhada, teatro dá a vez ao cinema, nestes dias de Festival do Rio, clamando por uma atenção para “Retrato de uma jovem em chamas” (“Portrait de la jeune fille em feu”), de Céline Sciamma, que será exibido neste sábado, às 18h45, no Estação Net Ipanema. É a saga de amor e de congraçamento (de corações e de ideias) entre uma pintora do século XVIII e sua “modelo”: uma nobre que tem um casamento forçado à vista. Foi de Céline o prêmio de melhor roteiro de Cannes este ano. E não foi à toa. Que o espetáculo de Paret & cia. caminhe por aí, em especial por sua delicada iluminação. Que volte logo aos palcos. E ganhe mundo

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