Herzog, a loucura de ‘O Mandaloriano’

Herzog, a loucura de ‘O Mandaloriano’

Rodrigo Fonseca

22 de novembro de 2019 | 10h31

RODRIGO FONSECA
Aos 77 anos, lutando para levar às telas o livro “Fordlândia”, de Greg Grandin (sobre o desejo de Henry Ford de estabelecer na Amazônia a sua própria plantação de seringueiras), Werner Herzog começa a arrebatar uma nova legião de fãs juvenis para si, por conta de sua participação como ator na série da Disney+ “O Mandaloriano”, com foco no universo “Star Wars”. Diretor de cults como “Aguirre – A Cólera dos Deuses” (1972) e a jóia documental “O Homem-Urso” (2005), o aclamado cineasta germânico já participou de 30 produções no posto de ator e dublador, com sua voz metálica, com direito a um papel na franquia “Jack Reached”, com Tom Cruise. No entanto, o vilão conhecido, até agora, apenas como O Cliente, na série idealizada por Jon Favreau, eleva sua popularidade para plateias alheias ao Novo Cinema Alemão. Em recente depoimento, durante as coletivas para promover a produção (que esbanja adrenalina, num ritmo narrativo febril), Herzog disse que se trata “de cinema em sua melhor qualidade, permitindo que os atores enxerguem o visual que os cerca e não vejam apenas uma tela verde”. Ele se referia ao dispositivo tecnológico usado na série que cria digitalmente o ambiente estelar onde a trama se passa, em paralelo ao colapso do Império. Mas os atores também podem ver essa projeção, nos sets.

“Não vejo diferença entre documentário e ficção, na prática da construção de um filme, pois tudo se trata de recortar uma contingência do Real, uma instância poética que desafia a própria realidade. E a minha referência vem sempre da leitura de poesia e menos de imagens”, disse o cineasta em Cannes, em resposta ao P de Pop durante um painel que dividiu com a atriz Julianne Moore e o diretor Xavier Dolan. “Existe uma dimensão da vida que sempre me instiga que é a perda da sanidade”.

Em maio, em Cannes, o diretor surpreendeu o festival francês com “Family Romance, LLC”, no qual volta suas lentes para as tradições do Japão. Lá, o diretor narra a aventura de um homem que vira o valete de uma criança. Há dois anos, o diretor ganhou a Carroça de Ouro, o troféu honorário da Quinzena dos Realizadores da Croisette, pelo conjunto de sua trajetória nas telas. Ele usou a cerimônia para falar do Brasil.

“Num momento que ninguém me queria, a Quinzena aceitava meus primeiros filmes e isso numa época em que sempre havia gente do Brasil aqui. Aquela grande geração do Cinema Novo brasileiro, com Glauber Rocha e Ruy Guerra, com quem eu filmei, tinha sempre lugar neste evento, assim como os mestres poloneses. Hoje aumentou até a diversidade, mas Cannes segue acolhendo esteticas difíceis de se ver por aí”, lembrou Herzog, que, na ocasião, exibiu na Croisette uma cópia inedita de seu cult “Vício Frenético” (2009), com Nicolas Cage, seu maior sucesso neste século. “É um filme sobre o limite da maldade, um substantivo que se torna cada vez mais concreto, mas que, na abstração, abre as portas pra loucura”.

“Meeting Gorbachev”: É Tudo Herzog

Deu Herzog na cabeça de Tribeca também, em abril. Depois de ter chacoalhado as certezas políticas dos americanos sobre a extinta URSS com “Meeting Gorbachev”, lançado em sessão de gala no evento de NY e já exibido no Brasil pelo É Tudo Verdade, o realizador do genial “Fitzcarraldo” (1982) voltou a provocar Tribeca com um segundo título documental: “Nomad: In the footsteps of Bruce Chatwin”. A produção resgata as memórias do escritor inglês responsável por livros de viagem cultuados por sua riqueza literária e sua etnografia como “In Patagonia” (1977). Chatwin (1940-1989) deixou como herança para seu amigo diretor nascido em Munique responsável por cults como “Woyzeck” (1979) a mochila que o acompanhava em suas andanças pelo planeta, em expedições arqueológicas e paleontólogas. O novo filme do cineasta é uma revisão das recordações que o autor britânico colecionou.

E “O Mandaloriano” segue…

p.s.: Devagarinho, “Os Parças 2” está devorando uma polpuda bilheteria para si, com um humor que, sob uma capa de tosquice assumida, surpreende a plateia por seu ritmo nervoso e pelo carisma de Whindersson Nunes, Tom Cavalcante (sobretudo), Tirullipa e Bruno De Luca, filmando sob a direção da sempre eficaz Cris D’Amato. É muito melhor do que se espera e faz jus à competência que Halder Gomes imprimiu no original.

Tendências: