Helena Ignez e sua ‘Ralé’ brilham em mostra em São Paulo

Helena Ignez e sua ‘Ralé’ brilham em mostra em São Paulo

Rodrigo Fonseca

24 Março 2017 | 15h12

Helena Ignez entre Zé Celso e Ney Matogrosso em

Helena Ignez entre Zé Celso e o cantor Ney Matogrosso em “Ralé”, destaque do evento derivado da Mostra de Tiradentes

RODRIGO FONSECA
Tem um bocadinho do que a Mostra de Tiradentes fez de melhor lá em MG aportando em São Paulo neste fim de semana, no CineSesc, com um chamariz autoral a mais: um tributo a Helena Ignez, que começa nesta sexta, com a projeção de Copacabana, Mon Amour. Mito supremo do Feminino nas telas brasileiros, não apenas pela antológica atuação em A Mulher de Todos (1969), mas por sua representatividade uterina como musa e mãe do cinema de invenção no país em quase cinco décadas, a baiana Helena Ignez  vem conseguindo, de 2009 para cá, que sua contribuição como realizadora seja tão imponente e importante para o cinema nacional quanto seu percurso como atriz.

Seu talento em ambas as funções é inegável, como comprova Ralé, espécie de Short Cuts sensorial e diversamente sexual, tão fragmentado (e necessário) quanto o cult de Robert Altman, e que volta agora nessa seleta de Tiradentes.

 

Há nele uma narrativa incomum para os códigos cinematográficos mais padronizados no Brasil, numa estrutura quase jogralesca, de tramas sem necessidade de final, sempre pequeninas, sem pretensões épicas, arejadas por discursos e números musicais que conseguem delinear uma espécie de manifesto sem perder o foco e sem escorregar no proselitismo. É mais cinema ritual do que cinema narrativo, embora se saia do cinema carregando personagens bem delineados, sólidos, a começar do Barão, interpretado (e cantado) por Ney Matogrosso.

Existe em Ralé uma filigrana de trama que dá conta da fundação de uma espécie de seita baseada na busca pela transcendência a partir da ayahuasca, sob os efeitos místicos do Santo Daime. É o Barão quem orquestra esse processo, enquanto dá um passo à frente em sua vida afetiva, casando-se com o namorado. Ao mesmo tempo, eles cuidam de um velho amigo artista que sofre com as incontinências características da idade, vivido pelo diretor teatral José Celso Martinez Corrêa numa participação comovente. Mas não espere algo mais cartesiano do enredo.

Há ações soltas, como a da artista (Djin Sganzerla, sempre serena e afiada na busca por atomizar arquétipos da representação da mulher) que cola fita isolante numa janela, como se vedasse seu mundo interno. Há um filho (Ariclenes Barroso) em busca de uma simbiose com o pai, o já citado Barão, em múltiplas utilidades. Mas nada disso está em cena para fazer o nosso olhar andar, vetorialmente, como se fosse obrigado a andar nos moldes do que ocorre com tramas mais comerciais. Aqui, não. Em Ralé, o olho precisa parar, contemplar, ruminar, piscar e (se) entender. E há tempo para isso, pois não estamos num filme de vertigem. Estamos numa jira, num transe udigrudi.

Essa é a operação que Helena vem fazendo filme a filme desde o metafísico Canção de Baal, premiado pelo Júri da Crítica em Gramado, há sete anos. Como cineasta, ela vem rompendo o formato clássico da contação de histórias em busca de uma nova apreensão simbólica e sensível do que o cinema pode ser, numa aeróbica de direção fruto de um ménage à trois entre Bertolt Brecht, Rogério Sganzerla e Eduardo Viveiros de Castro, três de suas principais referências estéticas (e políticas). Helena tem feito algo bem parecido com a linguagem xamânixa do chileno Alejandro Jodorowsky, vide A Dança da Realidade, lançada por ele em 2013. São dois sábios que buscam, na câmera e na tela, novos sentidos, à cata de uma razão menos matemática e mais poética.