‘Have a Nice Day’: o rolinho primavera de Annecy

‘Have a Nice Day’: o rolinho primavera de Annecy

Rodrigo Fonseca

15 de junho de 2017 | 13h17

“Have a Nice Day” anima o Festival Annecy

RODRIGO FONSECA
Até sábado, o que houver de mais original e transgressor no cinema de animação, não importa de que país venha, terá um lar em Annecy, cidadezinha francesa que abriga o maior festival anual do setor no mundo. O deste ano começou na segunda passada e tem entre seus mais disputados títulos um desenho animado da China, indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim: Have a Nice Day (Hao Ji Le no original), um thriller criminal com cheiro de Irmãos Coen, que arranca quilos de gargalhadas por onde passa. Dirigido por Liu Jian, com foco numa sucessão de malandragens, o filme é “o” filé de Annecy, apresentando-se como uma espécie de Onde os Fracos Não Têm Vez no Sul da China, cheio de malícia e niilismo político. Mas o nome que seu diretor – um pintor e animador conhecido pelo filme Piercing I (2010) – mais ouviu durante sua passagem pela Berlinale foi Quentin Tarantino. A referência ao diretor de Pulp Fiction (1994) vem da aposta na cultura pop na criação de seus personagens marginais, a começar por um matador de aluguel fã de Rocky Balboa.

“Existe uma produção ampla de animação na China, mas em curta-metragem, com foco para abordagens autorais, de muita experimentação plástica, mas há também um pesado investimento local em desenhos para crianças, nos moldes dos animês feitos no Japão, como incentivo à formação de novas e fieis plateias, diz Jian ao P de Pop em Berlim, surpreso pelo fato de os maiores elogios a seu filme estarem mais ligados a seu roteiro que ao visual.

No desenho chinês, um matador fã de Stallone se mete num trambique

Annecy elogia em peso a trilha sonora de Have a Nice Day, que acompanha uma sucessão de equívocos entre uma série de pessoas que se apoderam de uma bolada pertencente a um gângster. Tudo começa quando um jovem surrupia o dinheiro para custear a cirurgia plástica de sua namorada. Na cola dele e da grana vão tipos estranhos como um assassino de aluguel apaixonado por Sylvester Stallone e seu Rocky, um Lutador (1976) e um inventor que cria um óculos infravermelho e um martelo que atira.

“Tentei humanizar os personagens, ressaltando seus traços identitários, a partir de suas paixões. Bandido é gente. O meu matador se veste com um chapeuzinho preto igual ao do Rocky como forma de demonstrar que tem sentimento por algo, no caso, o cinema”, diz Jian, que tem como principal concorrente a animação teuto-iraniana Tehran Taboo, sobre a realidade das mulheres em um estado corrupto.

 

Na seleção competitiva de Annecy, sobrou para o Brasil um par de vagas na disputa pelo prêmio de melhor curta, com O Poeta das Coisas Horríveis, de Guy Charnaux, e Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica, de Sávio Leite, que foi uma das sensações nacionais do Festival de Berlim.

“Pequeños Heroes”: produto da Venezuela

Ah… Tá chegando o Anima Mundi. Vem aí a edição dos 25 anos do mais lotado, prestigiado e inflamado festival de animação da América Latina: vai de 18 a 23 de julho em salas do Centro do Rio e de 26 a 30 de julho em São Paulo. E do que há de mais quente no cardápio deste ano, a fervura máxima tem CEP hispano-americano. Ave rara no que diz respeito a longas-metragens animados, a Venezuela tem um exemplar do formato, com 76 minutos de tintas políticas e abordagem infantojuvenil: Pequeños Heroes, que está lá em Annecy também. A direção é de Juan Pablo Buscarini (um dos produtores do sucesso Um Conto Chinês), que narra as peripécias de três crianças que auxiliam o libertador Simon Bolívar em sua luta. Também fala espanhol El Hombre Más Chiquito Del Mundo, de Juan Pablo Zaramella, o mais cultuado dos animadores argentinos. Ele entra no pacote de filmes ainda com Ónion.

 

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