Hal Hartley para francês (re)ver

Hal Hartley para francês (re)ver

Rodrigo Fonseca

01 de outubro de 2019 | 12h07


RODRIGO FONSECA
É tempo de Hal Hartley nas telas da França: do ladinho das projeções (todas lotadas) de “Bacurau”, a rede MK2 exibe, até quinta-feira, a trinca de filmes que deram ao diretor americano (hoje sumido do circuito de estreias) prestígio de autor na seara indie, entre o fim dos anos 1980 e o início dos 1990. Era um período no qual sua razão cínica oxigenava nossa forma de narrar, encarnada nos filmes “A incrível verdade” (1989) (lá traduzida “L’Incroyable vérité”, literalmente), “Confiança” (“Trust”, 1990) e “Simples desejo” (“Simple Men”, 1992), todos com Martin Donovan, seu muso. Os três longas estão em exibição em Paris, esgotando a venda de ingressos, e reafirmando a vocação de HH para ser um ícone da liberdade criativa do cinema independente. “Eu venho tentando, ao longo de três décadas de carreira, expressar o modo de ser, de falar e de sentir da classe operária americana. Sei que esse termo, ‘classe operária’, soa defasado, ligado ao ranço econômico do passado, mas ele define bem uma classe média baixa que depende unicamente de seu trabalho para viver. A partir da observação de seus costumes, ei crio histórias capazes de quebrar com as expectativas pré-estabelecidas em torno de gêneros cinematográficos como espionagem, sci-fi ou mesmo o thriller”, disse ele, ao repensar sua origem como storyteller, em sua vinda ao Brasil, em 2015, como convidado do Festival do Rio.

O diretor nova-iorquino, hoje com 59 anos, desenvolve projetos para a TV


Há uns três anos, o diretor nova-iorquino foi mordido pelo bicho da televisão: dirigiu a série Red Oaks para o Amazon Studios e hoje desenvolve uma série de projetos de teledramaturgia. Mas parte do legado cinematográfico dele está sendo revisitado neste momento, a partir de um regresso de seu personagem mais famoso, Henry Fool, vivido pelo ator Thomas Jay Ryan em três longas-metragens rodados entre 1997 e 2015. A trinca formada por As Confissões de Henry Fool (Prêmio de Melhor Roteiro em Cannes, há 22 anos), Fay Grim (prêmio de júri popular no RiverRun Festival, na Carolina do Norte) e Ned Rifle (Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Berlim, há três anos) foi reunida num pacote de DVDs à venda pela Amazon e pelo site do cineasta (halhartley.com). O box é mais do que uma repaginação (em novas edições digitais) desses filmes: é um mergulho na tradição da estética avessa às regras de estúdio. Em recente entrevista, durante uma mostra que teve o crítico Leonardo Luiz Ferreira em seu timão, o diretor, hoje com 59 anos, falou ao Estado – por email – sobre seu reencontro com Fool e sobre o que sobrou do conceito de “alternativo” que movia sua filmografia no início da carreira.
O que significa ser um cineasta indie?
Hal Hartley:
Foi o ator e diretor John Cassavetes quem inventou essa história, sendo o ‘pai’ de todos nós, quando correu atrás de meios, entre favores e mobilização de seus amigos, para conseguir contar as histórias que queria – e que os estúdios não valorizavam. Falou-se muito de ‘cinema independente’ nos anos 1990, nos EUA, por conta de um empenho das distribuidoras europeias que investiam pesado em filmes menos formulaicos e mais adultos em busca de uma nova alternativa para seu público, oferecendo a suas plateias um cinema de prestígio intelectual. Mas o dinheiro da Europa, que vinha de uma relação de suporte cultural do governo escasseou. A TV hoje passou a suprir esse lugar.
Esse foi o saldo da série “Red Oaks”? Hartley: Meu universo de pessoas é a baixa classe média dos EUA e elas assistem TV, onde há o desejo de se apostar em tramas diferenciadas, mais inventivas, como atração para o público. No cinema, hoje, existe o dilema do escoamento: com o avanço dos meios digitais, o barateamento das câmeras e o surgimento das tecnologias portáteis de celular, todo mundo filma, mas poucos exibem em tela grande. Na TV, existe uma janela certa. Desenvolvi recentemente alguns projetos de seriados de TV e escrevi muitos roteiros desses projetos.
O que significa a expressão “cinema de autor” dos Estados Unidos de hoje?
HARTLEY:
Talvez esse conceito faça referência à arte de prestar atenção à brechas, ou seja, encontrar o lugar certo para levantar inquietações particulares respeitando o contexto industrial. Entre os autores que mais marcaram a minha forma de amar o cinema, eu destacaria Howard Hawks e John Ford, cineastas “de mercado”, mas que construíram sua obra integral em ambiente industrial. Existe uma poesia singular no olhar deles. E essa poesia se dá em meio a uma cartilha comercial, de espetáculo. A questão é saber encontrar sua voz.
p.s.: Com uma bilheteria global estimada em US$ 28 milhões, “Dor e Glória”, o mais recente longa-metragem do espanhol Pedro Almodóvar, entra em cartaz nos EUA nesta sexta, de olho no Oscar, para si e para seu protagonista, Antonio Banderas, em estado de graça em cena.
p.s.2: Um convite ao Oscar para Jennifer Lopez, “As Golpistas” (“Hustlers”), um dos filmes mais corajosos de 2019, diante da sanha conservadora dos novos tempos, já faturou US$ 95 milhões de carona na saga de uma grupo de strippers que usavam os cartões de crédito de seus cliente para enriquecer. O desempenho de Jennifer é a tradução do conceito de empoderamento.
p.s.3: Estima-se que “Um dia de chuva em Nova York” possa abrir o Festival do Rio 2019, caso a campanha de financiamento coletivo para o evento dê certo – e vai dar. O desempenho de Elle Fanning como uma aspirante a repórter em visita à NY é hilário, sobretudo em seu breve flerte com um astro (Diego Luna) de fama GG.

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