Há 60 anos, Cannes premiou ‘O Pagador de Promessas’ com a Palma de Ouro

Há 60 anos, Cannes premiou ‘O Pagador de Promessas’ com a Palma de Ouro

Rodrigo Fonseca

18 de maio de 2022 | 07h50

RODRIGO FONSECA
Prometido como um terrir corriqueiro, “Coupez!”, de Michel Hazanavicius, surpreendeu a abertura de Cannes ao arrancar gargalhadas coletivas do Palais des Festivals, que recebe, nesta quarta, a cópia restaurada de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), único longa-metragem brasileiro da 75ª edição do evento. Mas sua projeção, sobretudo pela figura gloriosa de Othon Bastos como Corisco, evoca um outro sucesso estrelado pelo ator baiano. Aliás um sucesso que rendeu ao Brasil a Palma de Ouro, há 60 anos: “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte (1920-2009). Haverá uma exibição comemorativa do longa de Duarte, em São Paulo, no Cine Satyros Bijou, no dia 23, às 19h30. Mas sua vitória, na Croisette, é cerca de polêmicas. À época de sua estreia, o Cinema Novo já tinha posto a cabecinha pra fora, com “Barravento”, de Glauber Rocha; “Os Cafajestes”, de Ruy Guerra; e o coletivo de “Cinco Vezes Favela”. Diante dessa nova turma, com a proposta de uma revolução estética que estendesse a dimensão revolucionária do cinema também para a forma, o projeto de drama social de Dias Gomes, à luz da direção clássica de um ator como Anselmo soava algo antigo. Para alguns. Pra outros, como o júri chefiado pelo poeta e diplomata Tetsuro Furukaki, o Zé do Burro de Leonardo Villar foi um ícone da catarse moral inerente ao fundamentalismo.

Mas há outras Palmas que causaram angústia e provocaram reações acaloradas da crítica, rasgando opiniões. Foi esse o caso do vencedor de 2022: “Titane”, de Julia Ducournau, que chegou ao Brasil em janeiro, diretamente na streaminguesfera, na plataforma MUBI. Cannes premiou-a graças ao júri presidido por Spike Lee (que também tem filmes na MUBI), mas a Croisette dividiu-se num Fla x Flu tipo “Amei” x “Odiei” ao fim de sua projeção. San Sebastián viveu a mesma situação. O Festival do Rio, idem. Houve gente saindo das sessões quando, sua protagonista, Alexia (Agathe Rousselle) bate o próprio rosto contra uma pia, a fim de deformar seu nariz. Deformar-se é parte da reinvenção pela qual a personagem há de passar quando se assume, sem culpa, como serial killer, dando um ponto final à existência de homens que passam dos limites na aproximação a ela e dando um adeus a mulheres que não reagem a seus carinhos furiosos como ela espera. E ela mata usando um pau de cabelo como arma. É indigesto (para alguns) torcer por ele. E mais indigesto ainda é lidar com a brutalidade que a cerca.
Historicamente, causou incômodo a decisão de Cannes de empatar a Palma de Ouro entre “A Classe Operária Vai ao Paraíso”, de Elio Petri, empatado com “O Caso Mattei”, de Francesco Rosi, em 1972 O culpado por esse empate foi o cineasta Joseph Losey, que fez história em Cannes ao premiar não dois (belíssimos) filmes, mas, sim, um conceito: o cinema político, a estética de guerrilha, a tradução audiovisual da “poesia de protesto”. Era uma forma de filmar que os italianos faziam melhor do que ninguém, tendo um ator como divo Gian Maria Volontè, que conquistou uma menção especial por sua performance e também por tudo o que simbolizava. Esse simbolismo não agradou a todos. Mas os dois longas fizeram uma carreira invejável nas bilheterias internacionais.

A badalação em torno de Tom Cruise na Croisette

Hoje em dia, uma outra Palma gera controvérsia: a vitória de “A Missão”, de Roland Joffé, 1986. Foz do Iguaçu tem até hoje figurinos, indumentários e partes dos cenários usados nas filmagens deste épico indigenista sobre uma expedição jesuítica à América do Sul que lutou para proteger uma civilização dos povos originários da violência colonizadora. A trilha sonora de Ennio Morricone é um patrimônio da história da música. Mas a controvérsia em torno de sua passagem pela Croisette envolve a forte concorrência. Que o filme é bonito, não resta dúvida. Mas daí a considerá-lo mais relevante do que “O Sacrifício”, o canto de cisne de Andrei Tarkovsky, não dá. Mesmo.
Nesta quarta, Cannes recebe Tom Cruise, para sabatiná-lo acerca de “Top Gun: Maverick”.

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