Gus Van Sant que o Brasil não viu

Gus Van Sant que o Brasil não viu

Rodrigo Fonseca

17 de março de 2020 | 15h06

Rodrigo Fonseca
Ocupado neste momento com a comédia “The Prince of Fashion”, estrelada por Will Ferrell, Gus Van Sant amargou uma série de fiascos desde “Milk – A Voz da Igualdade” (2008), tendo sido vaiado (injustamente) em Cannes por um longa-metragem que renasce agora no Brasil, via streaming (tá no Globoplay), cinco anos depois de sua malfadada estreia: o melodrama “O Mar de Árvores” (“The Sea of Trees”). Cheia de misticismo, com um indisfarçável aspecto de “filme feito para ganhar Oscars”, esta produção de US$ 25 milhões nunca foi lançada por aqui em circuito comercial. É um filme atípico na autoralíssima obra do cineasta americano de 67 anos. Nas telas, a figura do sempre ótimo Matthew McConaughey a agonizar na floresta, na pele de um cientista suicida, é bem diferente do que se esperava do realizador de “Elefante” – pelo qual ele Van Sant ganhou a Palma dourada em 2003. Este drama metafisico muda a rota do diretor, levando-o de volta ao passado de “O gênio indomável” (1997) e “Encontrando Forrester” (2000). Trata-se de um exercício mais narrativo e palavroso, menos experimental na linguagem do que longas aclamados como “Paranoid Park” (2007) e “Inquietos” (2012). Seria mais próximo do conceito de “filme de ator”, ou seja, longas nos quais o virtuosismo da direção existe para fazer um astro solar. E, goste-se ou não do tom meloso desta trama sobre superação, McConaughey sola cada vez melhor. É uma excelente opção para se digerir o tempo nestes dias de confinamento por Coronavírus.

Com roteiro escrito por Chris Sparling, um ator e diretor conhecido pelo longa “O Misterioso Caso de Judith Winstead”, também de 2015, “The Sea of Trees” tira seu nome de uma área florestal no Japão onde o físico Arthur (McConaughey) vai disposto a se matar. O local é famoso por ser “sede” de suicídios. Nas primeiras imagens, Arthur chega a um aeroporto e negocia sua viagem para terras japonesas sem levar bagagens e sem exigir qualquer conforto, recusando até refeições. Aos poucos, vai sendo apresentado ao espectador em flashbacks – nem sempre editados de forma orgânica à narrativa do presente – que seu desejo de morte é motivado pela relação tumultuada com uma mulher, Joan (Naomi Watts). O périplo de finitude de Arthur vai indo em frente até ele esbarrar com um japonês misterioso, Takumi (o ótimo Ken Watanabe, de “O Último Samurai”), que parece ter o mesmo anseio de dar cabo da existência. Arthur quer ficar sozinho e morrer na solidão. Mas Takumi não arreda o pé do americano, conduzindo-o a locais rochosos de extremo perigo, que vai amortecendo à base de muita sabedoria, com tiradas filosóficas. Tiradas estas que mais parecem parágrafos de autoajuda.
“Eu vislumbrei nesta história um veio para falar das esperanças que perdemos pelo caminho”, disse Van Sant à Croisette, à época.

Mesmo com esse tom, o filme se equilibra no poder (singular) dos enquadramentos de Van Sant, aqui vitaminados pela direção de fotografia do dinamarquês Kasper Tuxen. A beleza é soberana nos planos de “The Sea of Trees”, com evocações a clássicos do cinema do Japão como “Contos da Lua Vaga” (1953), de Kenji Mizoguchi, e mesmo o cult mais recente “A floresta dos lamentos” (2007), de Naomi Kawase. Soma-se ao esplendor visual o talento de McConaughey e seu esmero para se firmar em papéis mais densos, o que já vem desde “Clube de Compras Dallas” (2013) e de “Interestelar” (2014). Na versão brasileira, Nestor Chiesse dubla McConaughey.

Outro destaque da grade do Globoplay é o húngaro “Filho de Saul” (“Saul’s son”/ “Saul fia”, 2015), de Lázló Nemes, ganhador do Grande Prêmio do Júri de Cannes e do Oscar de melhor filme estrangeiro. Nemes concorreu com Van Sant no mesmo ano de “O Mar de Árvores”. Sua reconstituição para a Segunda Guerra Mundial mais parece um filme de horror, pela maneira sufocante como, nos momentos iniciais, narra a execução de judeus nas câmaras de gás do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Ao longo da trama, com 1h47m de duração, esse tom exasperante e aterrador permanece, conforme a narrativa – de uma engenhosidade rara – permanece colada no corpo do protagonista, Saul, interpretado por Geza Röhrig, numa atuação que deixou Cannes prostrada. A câmera não se desgruda dele. Parece que há uma GoPro colada à sua carne, seguindo seus passos, projetados numa imagem quadrada, de 4×3. Na trama, Saul é um Sonderkommando, judeu escalado pelos nazistas a participar das execuções de seu próprio povo. Mas o destino dele muda depois que ele resolve proteger o corpo de um garotinho morto, submetendo-o a um ritual judaico. Essa decisão leva Saul a caminhos perigosos, que dão ao diretor – então um estreante – chance de expor toda a sua técnica, com o apoio de um grande ator a seu lado. Na versão brasileira, Reginaldo Primo dubla Geza.

p.s.: Esta noite, às 22h, no canal FX, na TV a cabo, tem “Os Mercenários 2”, fenômeno de bilheteria de 2012, com Chuck Norris no papel de um lobo solitário em meio a um exército de soldados da fortuna comandados por Stallone.

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