Gus Van Sant 0 KM no Globoplay

Gus Van Sant 0 KM no Globoplay

Rodrigo Fonseca

05 de fevereiro de 2021 | 10h13

Naomi Watts e Matthew McConaughey se preparam para uma imersão na dor em “O Mar de Árvores”

Rodrigo Fonseca
Tem muito filme bom no menu do Globoplay, como o .doc “Atravessa a Vida”, de João Jardim, ou o cult dos cults nacionais, “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha, além do avassalador “Precisamos Falar Sobre o Kevin” (2011), de Lynne Ramsay, e da serena comédia argentina “Medianeras”, de Gustavo Taretto. Mas tem também um Gus Van Sant zero KM nesse bolo, como cereja de uma seleta de iguarias. Ignorado pelo circuito exibidor brasileiro, após uma acidentada passagem pelo Festival de Cannes, açoitada por vaias, “O Mar de Árvores” (“The Sea of Trees”, 2015), filme menos visto e menos falado de Gus Green Van Sant Jr. (de “Milk”) dos anos 2000 pra cá, apesar de seu elenco estelar, ganha uma segunda chance de sucesso no streaming da Globo. A produção estrelada tem Naomi Watts, Matthew McConaughey e Ken Watanabe no elenco. Por aqui, esse longa-metragem, com tons de autoajuda, só havia sido exibido em DVD e na TV a cabo mas, agora, a partir da plataforma de exibição da internet, chega a um novo público, curioso por conhecer um “ponto fora da curva” na obra do realizador de “Elefante” (Palma de Ouro de 2003) e de “Gênio Indomável” (Oscar de melhor roteiro em 1998).
“É normal que as pessoas reajam de formas distintas a um filme”, disse Van Sant na Croisette à época da projeção do longa. “Esta história é um aprendizado de dor, o que não é fácil”.
Envolvido hoje na gestação de um novo longa (“The Prince of Fashion”, com Will Ferrell, feito com base em artigo de Michael Chabon), Van Sant idealizou “The Sea of Trees” como um melodrama cheio de misticismo que, apesar das inúmeras qualidades na concepção visual e no arranjo do elenco, tem um indisfarçável aspecto de “filme feito para ganhar Oscars”. De cara, a onipresente (e xaroposa) trilhaa sonora de Mason Bates deixa no ar o tom de produto feito para melar o coração dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematograficas de Hollywood. E o Festival de Cannes, onde ele fez sua primeira projeção, é uma “instituição” bem distinta da Academia, com mais e melhores ambições. E a figura de Matthew McConaughey, a agonizar na floresta, na pele de um cientista suicida, é bem diferente do que se esperava do realizador de “Garotos de Programa” (1991).
“A gente busca novas parcerias nas andanças, entre os filmes, e sente a maturidade nos abrir novas vontades”, disse Van Sant em Cannes.

Este drama metafisico muda a rota do cineasta, levando-o de volta ao passado mais folhetinesco “Encontrando Forrester” (2000). Trata-se de um exercício mais narrativo e palavroso, menos experimental na linguagem do que longas aclamados aqui como “Paranoid Park” (2007) e “Inquietos” (2012). Seria mais próximo do conceito de “filme de ator”, ou seja, longas nos quais o virtuosismo da direção existe para fazer um astro solar. E, goste-se ou não, McConaughey sola cada vez melhor.
Com roteiro de Chris Sparling, um ator e diretor de curtas-metragens, “O Mar de Árvores” tira seu nome de uma floresta no Japão aonde o físico Arthur (McConaughey) vai disposto a se matar. O local é famoso por ser um local de suicídios. Nas primeiras imagens, Arthur chega a um aeroporto e negocia sua viagem para terras japonesas sem levar bagagens e sem exigir qualquer conforto, recusando até refeições. Aos poucos, vai sendo apresentado ao espectador em flashbacks – nem sempre editados de forma orgânica à narrativa do presente – que seu desejo de morte é motivado pela relação tumultuada com uma mulher, Joan (Naomi Watts). O périplo de finitude de Arthur vai indo em frente até ele esbarrar com um japonês misterioso, Takumi (o ótimo Ken Watanabe), que parece ter o mesmo anseio de dar cabo da existência. Arthur quer ficar sozinho e morrer na solidão. Mas Takumi não arreda o pé do americano, conduzindo-o a locais rochosos de extremo perigo, que vai amortecendo com tiradas filosóficas. Tiradas estas que mais parecem parágrafos de autoajuda. Mesmo com esse tom, o filme se equilibra no poder (singular) dos enquadramentos de Van Sant, aqui vitaminados pela direção de fotografia do dinamarquês Kasper Tuxen. A beleza é soberana nos planos de “The Sea of Trees”, com evocações a clássicos do cinema do Japão como “Contos da Lua Vaga” (1953), de Kenji Mizoguchi, e mesmo o cult mais recente “A floresta dos lamentos” (2007), de Naomi Kawase. Soma-se ao esplendor visual o talento de McConaughey e seu esmero para se firmar em papéis mais densos.

No entanto, Cannes queria outra coisa de Van Sant. Aliás, era mais do que uma questão de querer: Cannes e o cinema precisavam (e ainda precisam) de um filme com a fome de invenção de “Elefante”. Mas o coração de Gus Van Sant parece estar em outro lugar como se viu, em 2018, em seu trabalho mais recente, “A Pé Ele Não Vai Longe”, saga de John Callahan (1951-2010), um alcoólatra que, após ficar paraplégico num acidente de trânsito, virou um cartunista classe AA no quadrinho mundial. Tudo indica que o projeto que ele tem agora com Ferrel vai pela mesma toada melodramática, mesmo falando do universo da moda, talvez num sinal dos tempos, talvez num sinal de que, aos 68 anos, o cineasta (famoso por sua militância LGBTQ) esteja olhando para si mesmo, em busca de outras latitudes… espirituais, emocionais, cinematográficas. O problema é que esse olhar ainda não reverberou na excelência, palavra que ele carregou consigo muitas vezes.

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