Gustavo Acioli está em cartaz nas livrarias

Gustavo Acioli está em cartaz nas livrarias

Rodrigo Fonseca

20 de abril de 2021 | 11h00

Realizador de “Incuráveis” (2005), Gustavo Acioli investe na prosa com “Na Beira do Rio, Antes da Chuva”

RODRIGO FONSECA
Depois da avassaladora passagem de “Incuráveis” na abertura da mostra competitiva do Festival de Brasília de 2005, com sua cartografia de solidões que se aguardam, Gustavo Acioli, realizador do subúrbio carioca, criado entre o Riachuelo e Bento Ribeiro, virou um dos faróis de uma novíssima geração. Geração essa que oxigenou o cinema brasileiro na primeira década deste século com mapeamentos afetivos, exercícios de ironia e reflexões sobre as múltiplas (e pontiagudas) maneiras de se representar este conflituoso país. “Mulheres no Poder”, longa-metragem seguinte do diretor de 48 anos, projetado em mostras em 2015 e lançado em 2016, dava seguimento – mas com um tom bem-humorado delicioso – ao inventário de cicatrizes morais que Acioli vem fazendo desde seus curtas de formação. Egresso da Universidade Federal Fluminense (UFF), o cineasta – também conhecido na seara da música, como cantor e compositor, pelos discos “Eu, Camelô de Mim” e “Laid Out Bare” – agora leva a sua estética para a literatura. Ele prepara seu debute como escritor ao lançar o romance “Na Beira Do Rio, Antes Da Chuva”, da Chiado Books. Sua trama é uma recriação da história de Adão e Eva. Não é uma paródia, nem uma sátira, apesar de ter humor. É uma narrativa que busca o realismo sem se desgarrar da dimensão mítica do mito. Na entrevista a seguir, Acioli explica ao Estadão como se dá seu trânsito para as Letras, sem se desgrudar de seu casamento com a narrativa audiovisual.

Você sempre teve uma distinção no cinema pela potência dos seus roteiros. Como foi transitar da escrita do cinema para a escrita de livros? Em que prosa você investe nesse romance?
Gustavo Acioli:
Um romance tem um nível de exigência muito mais alto do que um roteiro. O roteiro é uma obra de passagem, de transição, é uma obra intermediária. O filme se faz no set de filmagem, na edição. O cinema é cheio de truques e eu escrevo um roteiro contando com esses truques. Um filme é uma obra coletiva. Eu escrevo um roteiro já sabendo que ele será modificado pelas contribuições das outras pessoas, pelas condições de realização do filme e pela contribuição milionária de todos os erros. Além disso, nos meus filmes, eu não entro na cabeça dos personagens. Meus filmes são pura ação e diálogo. Eles dependem dos atores para transmitir o que vai dentro dos personagens.
Que autores fizeram a sua cabeça como artista e com que autores você dialoga em sua produção de narrativas?
Gustavo Acioli:
Na literatura brasileira, acho que os que deixaram marcas mais profundas em mim foram Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Na poesia, Manuel Bandeira e João Cabral. Na literatura universal, Dostoiévski, Tolstói, Camus, García Márquez e Borges. Na poesia, Fernando Pessoa. Estou fazendo um esforço tremendo para reduzir a lista; senão, essa resposta, ou seria interminável, ou seria impossível. Mas não sei se posso dizer que dialogo com esses autores, seria pretensioso da minha parte. Aprendi a ser um leitor atento aos procedimentos, tanto os estilísticos quanto os narrativos, e assim fui me formando. Sempre me preocupei em escrever bem as descrições de cena dos meus roteiros e em escrever de maneira literária os argumentos. Assim, fui praticando aos poucos, quase escondido.

Seus filmes têm uma marca abrasiva de ironia de crítica social. O que ficou dessa ironia no livro? Como essa ironia te ajuda a entender o Brasil?
Gustavo Acioli:
Esse livro conta uma história seminal. Se ele tem ironia, que talvez seja mesmo uma marca minha incontível, essa ironia se refere à condição humana no que ela tem de mais essencial.
Tem novidades de filme ou de série à vista?
Gustavo Acioli:
Sim. O Bruno Barreto está dirigindo um filme infantil cujo argumento é meu. O roteiro é meu junto com outros dois roteiristas: Gabriella Mancini e Rodrigo Goulart. O filme se chama “Vovó Ninja”, com Glória Pires no papel principal e produção da LC Barreto. Estou trabalhando em outros projetos que ainda não posso adiantar. Em um deles só está faltando a assinatura do contrato entre a produtora e a distribuidora. Os outros ainda estão em desenvolvimento. Também estou fazendo entrevistas todos os sábados, às 11h da manhã, na página @Coro.naQuarentena, no Instagram. Estou me divertindo.

p.s.: Nesta quinta-feira começa no site www.10olhares.com, com projeção simultânea na plataforma do BELAS ARTES À LA CARTE a mostra CINEMA BRASILEIRO: ANOS 2010, 10 OLHARES, que vai de 22 a 30 de abril, totalmente gratuita. Serão exibidos, ao todo, 75 filmes (43 longas e 28 curtas), vitaminados por dez debates. Integram a seleção pérolas como “Um filme de dança”, de Carmen Luz; “A Batalha do Passinho”, de Emilio Domingos; “Kbela”, de Yasmin Thayná; “Café com canela”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio “As Boas Maneiras” (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra; “Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares; “Yãmîyhex: As Mulheres-Espírito”, de Sueli Maxakali e Isael Maxakalie; e “Esse Amor Que Nos Consome”, de Allan Ribeiro e Douglas Soares.

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