‘Gunda’: ecologia com heroísmo suíno

‘Gunda’: ecologia com heroísmo suíno

Rodrigo Fonseca

20 de fevereiro de 2020 | 16h34

Rodrigo Fonseca
Vai ter Jia Zhangke inédito na Berlinale.70, “Swimming out till the sea turns blue”, falando da criação de um festival literário em Fenyang, numa estética afetiva que amplifica o escopo do cinema documental convocado para o evento, com direito a um trabalho que adota uma porca apaixonado por sua prole como… protagonista: “Gunda”. Construído como um ensaio ecológico de timbres poéticos sobre resiliência na Natureza, o novo trabalho do diretor russo Victor Kossakovsky concorre na mostra Encontros, uma seção nova do festival, cheia de títulos provocativos, como “Malmkrog”, do romeno Cristi Puiu, ou “A metamorfose dos pássaros”, da portuguesa Catarina Vasconcelos. Kossakovsky aposta em seu longa numa linha de continuidade em relação a seu sucesso mais recente, “Aquarela” (2018), sobre as águas do planeta. Filma em preto e branco o cotidiano da porquinha Gunda, dedicada a dar a seus filhotes alimentação e abrigo, sob o risco da fome dos humanos por carne suína.
“O exercício de humanismo mais urgente que o mundo requer hoje é o alarmismo ecológico, o pleito em prol da defesa da natureza. Eu não faço cinema para fazer política, pois acredito na força que essa forma de arte tem como linguagem, para além das teses que possa levantar”, disse Kossakovsky, em papo com o Estadão P de Pop. “Imagem é a essência do cinema. É importante entender o que cada imagem tem a dizer num filme, pela cor, pela dimensão plástica. Um filme é um quebra-cabeças de sentidos, precise ou não de cores”.

Exibido no Festival de Veneza de 2018, com enorme êxito de público e crítico, “Aquarela” testemunhava desde o deslocamento de placas de gelo até uma tempestade, retratando de formas inusitadas o fluxo hídrico seja da chuva, seja dos rios, lagos e mares para onde o cineasta mira sua câmera. A água vai sendo descontruída, a cada quadro, num efeito sensorial arrebatador. “No documentário, ao contrário do que se faz na ficção, a Natureza é quem guia o que fazemos. Não escolhi as pessoas que filmei: o roteiro aqui não foi escrito, a câmera foi me levando aos encontros, guiado pela água”, disse Kossakovsky.
Nesta sexta, na seção Berlinale Special, paralela à disputa pelo Urso de Ouro, o festival confere o esperado thriller sul-coreano “Time to Hunt”, de Yoon Sung-hyun, sobre um ex-presidiário que, ao sair da prisão, é convencido por seus amigos a voltar ao mundo do crime e assaltar um cassino. A expectativa em torno dele, alimentada por seu trailer movimentado, está associada à atual febre em torno do cinema da Coreia do Sul, catapultado ao estrelato após os quatro Oscars conquistados por “Parasita”, no último dia 9.
Aberto nesta quinta, com o doce (mas nunca açucarado) “My Salinger Year”, a Berlinale vai até 1º de março.

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