‘Green Book’ em novas estradas

‘Green Book’ em novas estradas

Rodrigo Fonseca

10 de janeiro de 2020 | 10h48

Rodrigo Fonseca
Na próxima segunda saberemos quais serão os concorrentes ao Oscar 2020, com holofotes voltados para Sam Mendes e seu “1917”, uma experiência narrativa de plano-sequência com foco na I Guerra. Esperam-se indicações para “Adoráveis Mulheres”, “Coringa”, “O Irlandês”, Laura Dern (por “História de um Casamento”) e “Parasita”. Com essa expectativa, longas-metragens que se destacaram na disputa pelos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, em 2019, ganham uma sobrevida, como é o caso do vencedor da estatueta de Melhor Filme do ano passado: “Green Book – O Guia”. É possível vê-lo (ou revê-lo) no cardápio do Prime Video da Amazon. A produção foi ainda oscarizada com os troféus de Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Coadjuvante, dada à genial interpretação de Mahreshala Ali. Na festa do Globo de Ouro a premiação do longa foi igual. Sua bilheteria foi de 321,7 milhões. Tem algo de filosófico em sua narrativa de afetos.
Essa filosofia vem do cronista gráfico do american way of life, Norman Percevel Rockwell (1894-1978), pintor que eternizou a imagem feliz dos EUA. Rockwell é a chave para o entendimento deste lúdico road movie de US$ 23 milhões. O artista plástico deu à posteridade um verniz de América: gente branca feliz, empapuçando-se de milkshakes e tortas. É na direção oposta desse retrato míope de si mesmo que a obra do diretor Peter Farrelly sempre operou. Em sucessos como “Debi & Lóide” (1994) ou cults como “Kingpin” (1996), ele e o irmão caçula Bobby desenvolveram uma estética on the road de negação da prosperidade inata a seu povo. Na maturidade de seu olhar para um país moralmente esgotado, Peter radicalizou, trilhando uma linha crítica pela vai do açúcar, não do azedume: “Green book” é um filme de proposição, de assopro na ferida fresca do racismo. É uma evocação de Frank Capra (1897-1991), um diretor que, diferentemente de Rockwell, filmava o sorriso da América, sem negar suas cáries, em clássicos como “A felicidade não se compra”. Filmando com secura, Farrelly faz do pianista negro Shirley (Mahreshala) e do motorista brucutu Tony (Viggo Mortensen, sublime) dois heróis à la Capra, num filme sobre alianças.
No Brasil, Mortensen e seu Frank “Tony Lip” Vallelonga) foi dublado por Marco Antônio Costa, e Mahershala Ali, com Dr. Don Shirley, ganhou a voz de Wellington Lima.

p.s.: “Traição em Hong Kong” (“Boarding Gate”, 2007), de Olivier Assayas, acaba de entrar para a grade do MUBI. O cinastas vai passar, na semana que vem, pelo 22º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, em Paris, com seu “Wasp Network”, um dos concorrentes ao Leão de Ouro de Veneza. O evento é um encontro de realizadores da França, onde se conversa sobre os novos rumos daquele país nas telas.

p.s.2: Vai ter Amat Escalante no Canal Brasil na próxima terça-feira. No dia 14, às 22h, a emissora vai exibir “Heli”, thriller social que deu ao realizador mexicano o prêmio de Melhor Direção em Cannes, em 2013, sob a decisão de um júri presidido por Steven Spielberg. Em sua trama, Heli (Armando Espitia) é um jovem sem qualquer ligação com o mundo do crime que acaba sendo dragado pela brutalidade em meio à guerra entre a corrupta polícia local e os cartéis de cocaína e afins. Morador de uma casa simples da periferia, o rapaz leva uma vida normal, trabalhando em subempregos e tentando estudar mesmo em condições precárias. Sua rotina é radicalmente alterada quando sua irmã mais nova, Estela (Andrea Vergara), começa a namorar Beto (Juan Eduardo Palacios), um recruta do exército, força armada que começa a se meter na caça aos traficantes. Essa relação vai chamuscar a vida de Heli e expor as entranhas de um país maculado pela impunidade.

p.s. 3: À 0h20 deste domingo, o “Supercine” da TV Globo vai exibir uma das mais tocantes crônicas da vida em família feita esta década: “Bem-vindo aos 40” (“This is 40”, 2012), de Judd Apatow, com Leslie Mann e Paul Rudd vivendo um casal atomizado pelas indelicadezas do dia a dia do matrimônio. É uma sequência (ou quase) do fenômeno de bilheteria “Ligeiramente Grávidos” (2007). As participações de John Lithgow e de Albert Brooks são hilárias. Na versão dublada, Sylvia Salustti e Alexandre Moreno emprestam suas vozes aos protagonistas.

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